Tarcísio de Freitas tentou transformar a inauguração da Linha 17-Ouro em peça de propaganda pessoal ao publicar um vídeo nas redes sociais em que celebra a entrega do monotrilho como marca de sua gestão. A postagem do governador no X (antigo twitter), porém, omite o contexto mais amplo da obra: a União abriu uma nova frente bilionária de investimentos no transporte público paulista, o que ajuda a aliviar a pressão sobre o caixa estadual e cria condições para o governo de São Paulo sustentar a reta final do ramal.
Segundo a Casa Civil, o Novo PAC reserva R$ 27 bilhões para a expansão e a modernização da mobilidade urbana na Região Metropolitana de São Paulo. O pacote prevê 38 quilômetros de novos trilhos e inclui apoio federal a obras e expansões da Linha 2-Verde, da Linha 5-Lilás e da Linha 6-Laranja, além de melhorias nas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda.
A Linha 17 não aparece nesse anúncio como destinatária direta do grosso dessa verba. O efeito indireto, porém, é politicamente relevante. Ao assumir parte da conta de projetos estruturantes da malha paulista, o governo federal reduz a necessidade de desembolso do Estado nessas frentes e amplia a margem para São Paulo manter recursos em outras obras, entre elas o monotrilho que Tarcísio agora exibe como troféu.
https://x.com/tarcisiogdf/status/2038943374728699926
R$ 5,6 bilhões reforçam a engrenagem do transporte paulista
Além do pacote do Novo PAC, o governo Lula assinou na semana passada dois contratos de financiamento que somam R$ 5,6 bilhões com o governo paulista, por meio do BNDES. Foram R$ 3,2 bilhões para o Trem Intercidades Eixo Norte e R$ 2,4 bilhões para a expansão da Linha 2-Verde do Metrô.
De acordo com o Palácio do Planalto, esses contratos integram uma carteira aprovada em 2023 que soma R$ 10 bilhões em financiamento do banco para mobilidade em São Paulo. O próprio governo federal tratou a medida como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da infraestrutura de transporte no estado, apresentada por Lula em agenda pública no interior paulista. A Fórum mostrou que, no evento, o presidente usou a agenda de investimentos para marcar posição política diante de Tarcísio.
O dinheiro não foi transferido diretamente para a concretagem da Linha 17. Ainda assim, ele reforça a estrutura de financiamento do sistema de mobilidade paulista, melhora a capacidade de investimento do Estado em outras frentes e ajuda a compor o ambiente que permitiu ao governo paulista concluir o primeiro trecho da obra.
Crítica de Donato expõe o pedaço que ficou de fora
A versão vendida por Tarcísio também foi contestada pelo deputado estadual Antonio Donato (PT), que publicou vídeo no Instagram afirmando que o governador não entrega a obra originalmente concebida para a Copa do Mundo, mas apenas um trecho reduzido do projeto. Na gravação, Donato diz que a Linha 17 foi pensada para sair da Vila Sônia, passar pelo Morumbi, atender Paraisópolis, seguir pela avenida Jornalista Roberto Marinho e se desdobrar até Congonhas e Jabaquara.
https://www.instagram.com/p/DWheVjAgLiT/
Segundo o parlamentar, o governo estadual libera agora “menos da metade” da obra prometida, deixando de fora justamente a travessia em direção a Paraisópolis, apontada por ele como a parte socialmente mais relevante do projeto. A crítica reforça uma diferença central entre a propaganda oficial e o que efetivamente foi entregue: Tarcísio inaugura o primeiro trecho operacional de uma linha muito menor do que aquela anunciada na origem.
A página oficial do Metrô de São Paulo informa que o trecho aberto ao público tem 6,7 quilômetros de extensão comercial e oito estações. Já o histórico da linha, em materiais oficiais e anúncios de governos anteriores, sempre apontou um projeto mais amplo, com integrações adicionais e alcance urbano maior.
Obra antiga, material novo e capital político imediato
A Linha 17 atravessou diferentes governos, passou por paralisações, revisões contratuais e mudanças de escopo. Em 2024, a Fórum mostrou a chegada dos monotrilhos fabricados pela BYD para o ramal, em um contrato bilionário celebrado pelo governo paulista como parte da etapa final da entrega.
Neste 31 de março, o que Tarcísio põe em operação é esse recorte finalizado de uma obra antiga, em um momento em que o governo federal volta a irrigar a mobilidade paulista com cifras elevadas. A imagem política, assim, fica invertida em relação ao discurso do governador: Brasília entra com o dinheiro pesado na engrenagem do transporte, e o Palácio dos Bandeirantes colhe a fotografia da inauguração.
É esse contraste que a propaganda oficial tenta apagar. O governador posa ao lado do monotrilho, mas a moldura financeira da mobilidade em São Paulo, hoje, é marcada por recursos federais bilionários do Novo PAC e do BNDES, que ajudam a sustentar o ambiente orçamentário e de investimento no qual a reta final da Linha 17 se tornou viável.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/27-bilhoes-de-lula-para-tarcisio-sp/

