O governo do Rio de Janeiro acusa a RioPag, empresa que detém o monopólio da intermediação de pagamentos de apostas e prêmios no estado, de reter indevidamente R$ 20,9 milhões dos cofres públicos. A Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) concluiu uma apuração administrativa e encaminhou o caso à Procuradoria-Geral do Estado (PGE-RJ), que trata o episódio como apropriação indébita, crime previsto no Código Penal. Entre os acionistas da empresa está o advogado Willer Tomaz, amigo próximo do senador Flávio Bolsonaro (PL). As informações são do Metrópoles.
Governo do Rio acusa RioPag de reter recursos públicos
A investigação conduzida pela Loterj concluiu que a RioPag deixou de repassar recursos que pertencem ao Estado do Rio de Janeiro. Segundo a apuração, a empresa reteve R$ 20,9 milhões que deveriam ter sido transferidos ao erário como contrapartida pelo contrato que lhe concedeu o monopólio do processamento de pagamentos de apostas e prêmios.
O caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral do Estado, que enquadra a conduta como possível apropriação indébita.
Os repasses estão suspensos desde janeiro de 2025. Quando a nova gestão estadual cobrou o pagamento dos valores, em abril, a RioPag respondeu que o dinheiro havia sido aplicado em ativos sem liquidez e que, por isso, não poderia ser devolvido imediatamente. Até agora, porém, a empresa não informou onde os recursos estão nem apresentou documentos que comprovem a destinação do montante.
Empresa é ligada a amigo de Flávio Bolsonaro
Entre os acionistas da empresa está o advogado Willer Tomaz, amigo próximo de Flávio Bolsonaro.
Tomaz integra o fundo que controla a Capital Pretium S.A., holding proprietária da RioPag. Ao Metrópoles, ele confirmou sua participação societária, mas não revelou quem são os demais investidores do fundo. Também afirmou que atua como advogado da empresa em processos judiciais, embora sustente não participar de sua administração.
A relação entre Tomaz e Flávio Bolsonaro é pública. Durante a CPI da Pandemia, o senador reagiu a perguntas envolvendo o advogado e reconheceu a amizade entre ambos, classificando os questionamentos como tentativa de atingi-lo politicamente.
Reportagem do Estadão revelou ainda que Flávio Bolsonaro e familiares viajaram, em duas ocasiões, em jatinhos particulares de Willer Tomaz, incluindo um voo para os Estados Unidos.
Monopólio e contrato sob questionamento
A RioPag detém o monopólio da intermediação dos pagamentos de apostas e prêmios no estado do Rio de Janeiro. Segundo o governo, a empresa cobra taxas que chegam a ser até 11 vezes superiores às praticadas pelo mercado.
O contrato foi firmado durante a gestão do governador Cláudio Castro (PL). Na licitação, a RioPag venceu ao oferecer o repasse de 20% do faturamento à Loterj. A única concorrente acabou desclassificada por um detalhe do edital, apesar de ter apresentado uma proposta mais vantajosa, prevendo o repasse de 26% da receita.
Anteriormente chamada Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia, a empresa pertence à Capital Pretium S.A., antiga Pix Holding S.A., administrada por Lidia Mazelli.
Depois de ser cobrada pelo governo estadual, a RioPag alegou que os recursos haviam sido investidos em ativos sem liquidez, mas não detalhou quais aplicações foram realizadas nem esclareceu o paradeiro dos R$ 20,9 milhões que, segundo a Loterj, pertencem aos cofres públicos.
Willer Tomaz, Flávio Bolsonaro e a mansão de Richarlison
Em meio à crise que teve início com a revelação do elo com Daniel Vorcaro e se aprofundou com o vídeo-bomba da madrasta Michelle Bolsonaro, Flávio Bolsonaro terá que conviver com um antigo fantasma em sua biografia, que remete à longa relação de amizade com o advogado Willer Tomaz e a cobição por uma mansão em ilha em Angra dos Reis, que entrou na disputa com o jogador Richarlison de Andrade, ex-atacante da Seleção Brasileira de futebol.
ENTENDA:
Flávio Bolsonaro já cobiçou praia para chamar de sua antes de projeto de privatização
Flávio Bolsonaro é testemunha em ação de amigo para tomar mansão de Richarlison em Angra
Flavio Bolsonaro e amigo sacaram R$ 1,5 milhão em caixa de cassino
Em live da advogada imobiliária Ana Paula Zantut nesta terça-feira (30), que usou o caso da mansão de Angra como exemplo, Richarlison fez um comentário sobre a disputa com Tomaz, que tem como testemunha no processo o amigo Flávio Bolsonaro.
“Realmente gastei em torno de 10 milhões lá. E simplesmente me tomaram. E estou até hoje sem receber a minha grana”, exclamou Richarlison na publicação, que viralizou.
Após a viralização da publicação com o comentário de Richarlison, Ana Paula Zantut apagou o vídeo (aqui o link original, sem a publicação: https://www.instagram.com/reels/DaNvd78ReWd). Ela chegou a dizer que divulgaria outra gravação, mas desistiu, anunciando que não quer que ser “massa de manobra política”.
“Eu apaguei os vídeos e tem muita gente vindo aqui no perfil e perguntando porque que eu apaguei ou se eles foram derrubados ou se alguém mandou, enfim, etc. Não é isso, eu apaguei por conta própria, pelas seguintes razões. Isso virou um caos que não estava, não era a intenção e nunca foi. E aí eu me tornei massa de manobra política, uma coisa que eu não vou tolerar e não vou aceitar, é, seja para qual lado for, tá? É, não tenho questões políticas com Bolsonaro, com o outro ladinho, então, me utilizar com esse intuito não é a intenção e eu não quero ser viralizada a qualquer custo e com esse intuito, sabe? E aí eu fiz um, um segundo vídeo esclarecendo até mais, mais pontos, é, do primeiro vídeo, pontos, questão do Flávio, questão de, de como que encerrou esse litígio”, afirmou a advogada em vídeo nos Stories.
No entanto, o segundo vídeo também foi apagado e, no lugar, Ana Paula divulgou uma nota dizendo ter tido acesso aos autos.
https://www.instagram.com/p/DaRM_UYtdtX/
Por e-mail, o advogado de Willer Tomaz enviou uma “retratação assinada pela advogada Ana Paula Zantut, que motivou a publicação”, afirmando que “, o processo já transitou em julgado com decisão favorável ao doutor Willer” e pediu a publicação como outro lado na reportagem – leia ao final da reportagem.
O desejo por uma mansão de luxo que acabou na Justiça
O caso que aproxima o senador Flávio Bolsonaro do advogado Willer Tomaz tem como pano de fundo uma das propriedades mais cobiçadas de Angra dos Reis: uma mansão avaliada em cerca de R$ 10 milhões, localizada na Ilha Comprida, com 11 suítes, praia privativa, cachoeira, heliponto, piscina e quadra de tênis.
Segundo documentos judiciais e relatos reunidos pela reportagem, Flávio conheceu o imóvel em 2020 e demonstrou interesse imediato pela propriedade. Na ocasião, porém, o então proprietário informou que a venda já havia sido fechada com a empresa Sport 70, pertencente ao atacante Richarlison e ao empresário Renato Velasco. Mesmo assim, o senador e Willer Tomaz voltaram posteriormente ao local em uma lancha para visitar a mansão, e Flávio chegou a registrar imagens aéreas do imóvel.
https://www.instagram.com/p/CJhWBANJ4bu/?
Pouco depois, Willer Tomaz iniciou uma ofensiva judicial para obter a posse da propriedade. A disputa ganhou contornos dramáticos: uma idosa afirmou ter sido induzida a assinar documentos relacionados ao imóvel, enquanto uma mulher grávida — esposa do empresário de Richarlison — acabou retirada da residência durante o cumprimento de uma ordem de reintegração de posse, episódio que, segundo relatos, levou à antecipação de seu parto.
Embora Flávio Bolsonaro negue participação na disputa e sustente que apenas mantém amizade com Willer Tomaz, seu nome foi arrolado como testemunha na ação judicial movida pelo advogado. O caso reforçou os questionamentos sobre a proximidade entre ambos e sobre o interesse do senador pelo imóvel desde antes do litígio.
A disputa também chamou atenção porque ocorreu paralelamente à defesa, por Flávio Bolsonaro, de projetos voltados à transformação da Costa Verde em um grande polo turístico privado. Antes mesmo do atual debate nacional sobre a privatização das praias, o senador já patrocinava propostas para criar uma região administrativa especial destinada a impulsionar empreendimentos turísticos de alto padrão em Angra dos Reis e municípios vizinhos — área onde está localizada justamente a mansão objeto da disputa judicial.
Quem é Willer Tomaz
Muito antes da disputa pela mansão de Angra dos Reis, Willer Tomaz já havia se tornado personagem de um dos episódios mais rumorosos envolvendo pessoas próximas ao clã Bolsonaro.
Em 2019, o advogado e Flávio Bolsonaro sacaram cerca de R$ 1,5 milhão em espécie nos caixas de um cassino em Las Vegas, nos Estados Unidos. A operação chamou atenção porque os recursos foram retirados em dinheiro vivo, procedimento incomum para valores dessa magnitude. À época, ambos afirmaram que o saque tinha como objetivo permitir apostas no estabelecimento, prática comum em cassinos americanos. O episódio ganhou repercussão em meio às investigações sobre movimentações financeiras envolvendo o gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Criminalista conhecido em Brasília, Willer Tomaz construiu influência nos bastidores do Judiciário ao atuar em processos de grande repercussão e representar empresários, políticos e investigados em operações de corrupção. Sua trajetória, contudo, também é marcada por controvérsias.
Em 2017, foi preso preventivamente na Operação Patmos, acusado de atuar para comprar decisões judiciais em favor do empresário Joesley Batista. O advogado sempre negou as acusações e foi posteriormente colocado em liberdade, continuando a exercer a advocacia.
A amizade com Flávio Bolsonaro atravessou os anos. Além de aparecer ao lado do senador em viagens internacionais e no episódio do cassino em Las Vegas, Tomaz tornou-se uma figura recorrente em episódios que envolvem interesses patrimoniais ligados ao entorno do parlamentar. A disputa pela mansão de Richarlison, na qual Flávio figura como testemunha e cuja origem remonta ao interesse manifestado pelo senador pelo imóvel, tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos dessa relação.
Retratação
Em contato por e-mail com a Fórum, o escritório de Willer Tomaz enviou a nota abaixo com a “retratação” da advogada Ana Paula Zantut sobre “o caso da ‘mansão de Richarlison’”.
Leia a íntegra
NOTA PÚBLICA DE RETRATAÇÃO E ESCLARECIMENTO: VEICULAÇÃO DE INFORMAÇÕES IMPRECISAS EM 01/07/2026 SOBRE O CASO DA “MANSÃO DE RICHARLISON”
Em atenção às relevantes repercussões decorrentes de vídeo recentemente publicado em minhas redes sociais contendo comentários acerca de suposta disputa judicial envolvendo imóvel localizado na Ilha Comprida/RJ, identificado como “mansão de Richarlison”, entendo ser meu dever, como Advogada, prestar os seguintes esclarecimentos sobre a questão.
Inicialmente, destaco que os comentários foram realizados a partir de notícia antigas e desatualizadas sobre o caso. Após exame mais aprofundado e ciente de que existe documentação processual muito além do quanto antes veiculado pela mídia, verifiquei que a comunicação inicialmente realizada continha imprecisões relevantes sobre aspectos fáticos e jurídicos essenciais do caso, inclusive em relação a partes envolvidas, desenvolvimento de acontecimentos, direitos envolvidos e natureza jurídica das controvérsias, todas essas circunstâncias que recomendam imediata correção e retificação.
Por essa razão, esclareço desde logo que os vídeos foram apagados e ficam integralmente sem efeito e devem ser desconsideradas todas as afirmações, interpretações, conclusões ou explicações constantes da publicação anteriormente divulgada, as quais não mais refletem minha compreensão atual dos fatos, que será melhor aprofundada e apresentada em novos conteúdos detalhados e fundamentos, que já estou preparando.
Reconheço que a forma sintética empregada na comunicação originária, aliada à complexidade da controvérsia e à existência de elementos processuais não então considerados, acabou por transmitir ao público informações insuficientemente contextualizadas e, em pontos relevantes, incompatíveis com o efetivo estado jurídico da questão.
Em respeito ao compromisso ético que orienta o exercício da advocacia e à responsabilidade inerente à divulgação de conteúdo jurídico em redes sociais, entendo ser imprescindível promover esta retratação pública imediata, a fim de evitar a continuidade da circulação de informações potencialmente equivocadas.
Estou preparando manifestação mais completa, em formato de vídeo, na qual apresentarei esclarecimentos técnicos detalhados acerca dos fatos, do histórico processual e dos equívocos verificados na comunicação anteriormente divulgada, permitindo ao público compreender o caso de forma mais precisa e contextualizada.
Até a divulgação desse novo conteúdo, reitero que não devem ser consideradas válidas ou atuais as informações constantes da publicação original, a qual resta expressamente retratada por esta nota.
Renovo meu compromisso com a informação jurídica responsável, com a boa-fé, com a correção de eventuais equívocos e com o permanente respeito aos fatos efetivamente comprovados e às decisões proferidas pelo Poder Judiciário.
Ana Paula Zantut
Advogada
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/amigo-de-flavio-bolsonaro-sumiu-com-20-milhoes-rio/

