Para o assessor internacional da Presidência, Celso Amorim, o avanço da extrema direita na América Latina está diretamente relacionado a ações da Casa Branca e das Big Techs.
Em entrevista ao UOL, Celso Amorim destacou que o governo federal vai esperar a contagem final de votos na Colômbia para se pronunciar. No entanto, Amorim afirmou que há uma onda de direita na região e que, caso a extrema direita seja a vencedora do pleito nacional colombiano, o Palácio do Planalto vai manter uma “relação pragmática”.
Para Amorim, o avanço da extrema direita extrapola as Américas e também pode ser verificado na Europa. O chanceler aponta as redes sociais como um dos fatores desse crescimento, uma vez que impulsionam o ódio em detrimento da lógica.
“É um movimento que se verifica na Europa com o crescimento da extrema direita. Tudo isso são mudanças sociais que ainda não foram totalmente compreendidas. Os sindicatos perderam força, obviamente a questão do crime organizado e da segurança pesa e é explorada de forma demagógica, procurando soluções técnicas que atraem. Também as Big Techs, que eliminam o discurso lógico em favor de meras mensagens de ódio.”
Em outro momento, Amorim afirmou que o Brasil está pronto para enfrentar possíveis ações ilegais do governo de Donald Trump, dos EUA, e das Big Techs:
“No Brasil, [a interferência de Trump] pode ter até o efeito contrário. Quando houve críticas e ataques [ao governo Lula por parte de Trump], essas atitudes ajudaram a popularidade do presidente Lula. Mas estamos mais prevenidos do que outras vezes para enfrentar eventuais ações ilegais, não digo de Trump, mas talvez de Big Techs.”
Colômbia: candidato de Petro pede recontagem de votos e impugnação de 33 mil mesas após resultado preliminar
O candidato progressista à presidência da Colômbia, Iván Cepeda, anunciou no domingo (21) que seu partido pedirá a impugnação de 33 mil mesas eleitorais em todo o país, após a apuração preliminar do segundo turno apontar a vitória do adversário de extrema direita, Abelardo de la Espriella, com uma margem de cerca de 250 mil votos.
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Juristas observadores do partido identificaram erros nas mesas indicadas e Cepeda afirmou que só reconhecerá o resultado após a conclusão do escrutínio oficial, etapa vinculante da apuração colombiana que deve ter início nesta segunda-feira (22). O presidente Gustavo Petro reforçou a posição e pediu tranquilidade à população, alertando para um país “dividido na metade”.
Candidato progressista pede recontagem
Iván Cepeda fez o anúncio em pronunciamento a apoiadores logo após a divulgação dos números preliminares. “Nossos advogados e advogadas estão procedendo para impugnar 33 mil mesas em todo o país”, declarou. Segundo ele, juristas que atuaram como observadores do partido em diferentes seções eleitorais encontraram erros nessas mesas. Na Colômbia, cada mesa eleitoral pode registrar até 300 votos, o que significa que o universo contestado é potencialmente superior à diferença apurada até agora.
A apuração preliminar, o chamado preconteo, com 99,99% das urnas contabilizadas, mostrava Abelardo de la Espriella com 12.959.542 votos (49,65%) contra 12.708.712 de Cepeda (48,71%), uma diferença de aproximadamente 250 mil votos. Cepeda disse reconhecer os números iniciais, mas deixou claro que não os trata como resultado oficial: aguardará a contagem total e o processo de impugnação antes de qualquer reconhecimento formal.
O que dizem os envolvidos e o sistema eleitoral
O presidente Gustavo Petro foi categórico nas redes sociais: “Não se pode proclamar nenhum presidente”, escreveu, acrescentando que “é o escrutínio que determina quem é o presidente”. Petro pediu tranquilidade aos cidadãos e defendeu que o processo legal seja respeitado em sua integralidade antes de qualquer declaração de vencedor.
Do lado oposto, Abelardo de la Espriella celebrou o resultado preliminar vestindo a camisa da seleção colombiana e defendeu acordos militares com os Estados Unidos para combater o crime organizado. “Hoje, a Colômbia venceu o seu jogo mais importante”, afirmou. O candidato também disse, segundo suas próprias declarações, ter recebido os parabéns de Donald Trump: “Acabei de falar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele manifestou seu apoio à nossa vitória”, afirmou Espriella. A comemoração antecipada ocorre antes de qualquer resultado com valor jurídico, o que o próprio sistema eleitoral colombiano não reconhece como definitivo.
O funcionamento desse sistema é central para entender a disputa. A apuração na Colômbia tem duas etapas distintas: o preconteo, uma contagem preliminar e informativa feita a partir das atas dos locais de votação, sem valor jurídico vinculante; e o escrutínio, revisão oficial conduzida por juízes e autoridades que corrige inconsistências e proclama o resultado final. É nessa segunda etapa, prevista para começar nesta segunda-feira (22), que o vencedor será legalmente definido.
Contexto da polarização e histórico de contestações
O resultado preliminar, se confirmado, representaria uma guinada à direita na Colômbia após quatro anos do governo Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da história do país. A gestão Petro foi marcada por reformas populares nas áreas agrária, de saúde e do trabalho, e a disputa com Espriella colocou em campos opostos dois projetos radicalmente diferentes para o país. A diferença de apenas 1,5 ponto percentual entre os candidatos traduz, nos números, a profundidade dessa divisão.
Petro descreveu o cenário como um país “partido ao meio” e mencionou “ingerência estrangeira” como fator a ser considerado, defendendo “um acordo nacional se queremos manter a pátria e a paz nos anos que estão por vir”. A menção à interferência externa, feita pelo presidente em exercício, carrega peso político relevante num contexto em que o candidato adversário já celebrava apoio de Washington. Analistas e observadores internacionais alertaram que a margem estreita torna tecnicamente impossível cravar o vencedor com base apenas na apuração rápida, especialmente num sistema que difere do modelo eletrônico imediato adotado no Brasil. O histórico colombiano reforça essa cautela: nas eleições legislativas de março de 2022, o preconteo apresentou um “colapso técnico” ao subestimar em meio milhão de votos a coalizão progressista Pacto Histórico, evidenciando que os números preliminares podem conter distorções significativas.
Próximos passos e implicações políticas
O processo de escrutínio, a contagem oficial e juridicamente vinculante dos votos, deve ter início nesta segunda-feira (22). No primeiro turno, realizado em 31 de maio, o mesmo processo levou dois dias para ser concluído. A imprensa local estima que a apuração dos votos em si possa ser encerrada ainda nesta segunda-feira, mas o pedido de impugnação das 33 mil mesas pode estender consideravelmente o prazo para a definição do resultado final.
A impugnação funciona da seguinte forma: os partidos solicitam a contestação quando identificam suspeitas de erros técnicos ou irregularidades; uma comissão da Justiça eleitoral analisa o pedido e, se o aceitar, promove a recontagem das urnas das mesas indicadas. Cepeda apontou, entre os problemas identificados, a existência de atas sem assinatura, que devem ser objeto de impugnação formal. O desfecho desse processo ainda não tem prazo definido e depende da análise das autoridades eleitorais, cuja resposta ao pedido não havia sido divulgada até o fechamento desta reportagem.
O cenário que se desenha é de incerteza prolongada num país já marcado pela polarização. Independentemente de quem for declarado vencedor ao final do escrutínio, a contestação do resultado preliminar e a votação extremamente apertada indicam que o próximo governo colombiano enfrentará um ponto de partida politicamente fraturado, com metade do eleitorado do lado oposto e um processo de transição que começa sob questionamento formal.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/big-techs-trump-eleicao/

