Ídolo de Flávio Bolsonaro, Bukele parabeniza Lula e fala em cooperação

Referência da direita brasileira e inspiração declarada de Flávio Bolsonaro (PL) na área de segurança pública, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, enviou uma carta a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após a reeleição do petista. No texto, Bukele parabeniza Lula e manifesta interesse em fortalecer as relações diplomáticas entre os dois países. A mensagem foi enviada ainda no domingo (25), dia em que Lula derrotou o filho de Jair Bolsonaro no segundo turno.

O gesto contrasta com a postura de outros dois aliados internacionais do bolsonarismo: Donald Trump, que questionou o resultado eleitoral brasileiro sem apresentar provas, e Javier Milei, cujo governo decidiu não divulgar uma mensagem oficial de felicitações a Lula.

A carta de Bukele foi encaminhada pela Embaixada de El Salvador em Brasília e divulgada inicialmente pela Folha de S.Paulo. A informação também foi confirmada pelo Metrópoles junto a fontes diplomáticas salvadorenhas.

No documento, Bukele apresenta suas felicitações em nome do governo salvadorenho, de sua esposa, Gabriela, e em seu próprio nome.

“Apresento a Vossa Excelência minhas felicitações por sua reeleição como Presidente da República Federativa do Brasil”, escreveu.

O presidente salvadorenho também manifestou disposição para ampliar os laços diplomáticos, defendendo a continuidade das relações de amizade e cooperação entre Brasil e El Salvador, fundamentadas no respeito mútuo e no interesse comum de promover o bem-estar das duas populações.

Bukele foi modelo de Flávio Bolsonaro durante a campanha

A manifestação chama atenção pela proximidade política entre Bukele e setores do bolsonarismo. Durante a campanha presidencial, Flávio Bolsonaro apresentou o modelo de segurança pública de El Salvador como uma das referências de seu programa de governo.

Em junho, conforme noticiou a Revista Fórum, o então pré-candidato lançou o plano Brasil sem Medo, com propostas de endurecimento penal, redução da maioridade penal e construção de presídios inspirados no sistema salvadorenho.

Em agosto, Flávio se reuniu em São Paulo com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, para discutir políticas de combate à criminalidade.

Já em outubro, durante a reta final da campanha, o senador afirmou que pretendia adotar medidas ainda mais duras do que as implementadas por Bukele.

“El Salvador é pouco”, declarou o candidato, ao defender a criação de mais de 500 mil vagas no sistema prisional, penas mais longas para determinados crimes e castração química de condenados por crimes sexuais.

O modelo de Bukele ganhou projeção internacional pela redução da violência das gangues e pelo encarceramento em massa. Entretanto, organizações de direitos humanos denunciam prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos forçados e violações do direito de defesa.

Em relatório publicado em outubro, a Human Rights Watch apontou que mais de 93 mil pessoas foram detidas durante o regime de exceção adotado em março de 2022. A organização também denunciou julgamentos coletivos de centenas de acusados, sem garantias adequadas de defesa.

Trump e Milei seguem sem parabenizar Lula

A postura diplomática de Bukele também evidencia as diferenças de reação entre governantes de direita após a eleição brasileira.

Enquanto o presidente salvadorenho enviou a mensagem no próprio domingo, Donald Trump levantou suspeitas infundadas sobre a apuração dos votos. Na segunda-feira (26) e na terça-feira (27), o presidente norte-americano questionou a contagem e a prorrogação do horário de votação, sem apresentar elementos que comprovassem irregularidades.

Na Argentina, o governo de Javier Milei informou que apenas tomou conhecimento do resultado eleitoral, sem emitir uma mensagem formal de felicitações.

Como mostrou a Revista Fórum, o governo argentino também auxiliou a fuga de Flávio Bolsonaro, o que aprofundou a crise na relação com o Brasil.

O comportamento de Bukele também contrasta com o de Flávio Bolsonaro. Derrotado nas urnas, o senador não reconheceu a vitória de Lula e deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos. Em carta divulgada por aliados na quarta-feira (28), chegou a se apresentar como presidente eleito, apesar do resultado oficial, e voltou a levantar acusações de fraude sem provas.

Bukele parabeniza Lula em meio a laços comerciais com o Brasil

Apesar das divergências políticas entre os dois presidentes, Brasil e El Salvador mantêm relações comerciais e diplomáticas que ultrapassam as disputas ideológicas.

Em abril deste ano, o Ministério das Relações Exteriores anunciou a abertura do mercado salvadorenho para as exportações brasileiras de uvas. Segundo nota conjunta do Itamaraty e do Ministério da Agricultura, as exportações agropecuárias brasileiras para El Salvador somaram US$ 103 milhões (cerca de R$ 515 milhões) em 2025.

A disposição anunciada por Bukele, portanto, dá continuidade a uma relação bilateral que já envolve interesses comerciais concretos.

O presidente salvadorenho se junta a outros governantes conservadores que felicitaram Lula, como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. A líder italiana também destacou a necessidade de cooperação bilateral em mensagem divulgada após a eleição, conforme noticiou a Fórum.

A mensagem de Bukele não representa uma mudança anunciada de suas posições políticas ou de seu modelo de governo. Trata-se de uma manifestação diplomática de reconhecimento do resultado eleitoral e de disposição para manter a cooperação com o Brasil, apesar das diferenças ideológicas.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/bukele-parabeniza-lula-reeleicao/