Candidatíssimo, o presidente Lula disse que neste ano ele tem um compromisso ético e cristão para concorrer à reeleição. “Não vou permitir que um fascista volte a governar este país”, disse Lula em entrevista histórica, concedida na terça-feira (14) a três dos mais renomados jornalistas independentes e progressistas do Brasil: Renato Rovai, da Revista Fórum, Leonardo Attuch, do Brasil 247, e Kiko Nogueira, do DCM. Em mais de uma hora e meia de conversa, o presidente afirmou que a decisão de concorrer a um quarto mandato tem a ver com a conjuntura política, a defesa de seu legado e diz que tem muita coisa para fazer no Brasil ainda. “Eu tenho um compromisso com o povo brasileiro. Nós estamos numa situação em que o povo está vivendo um pouco melhor, mas ainda aquém daquilo que é a expectativa do próprio povo”, disse, lembrando que sente mais dificuldade neste terceiro mandato do que quando chegou à Presidência na primeira vez. “Foi mais difícil recuperar o desastre do governo anterior.”
“A democracia, para quem lutou para defendê-la e para quem lutou para derrubar o regime militar, custou muito caro a muita gente. Depois de um aprendizado de convivência democrática neste país, ainda muito pequeno, com muitos saltos pra cima e pra baixo, com muitas quedas, a gente teve uma experiência muito bem-sucedida com a eleição do Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral, depois teve o desastre da eleição do [Fernando] Collor, depois tivemos os sucessos da eleição do Fernando Henrique Cardoso, tivemos o Itamar Franco, depois nós tivemos, a minha vitória, o que foi extraordinário, você passar de um cientista político, que era um cidadão considerado progressista, para um metalúrgico dirigente sindical.
Depois da experiência bem-sucedida, você eleger uma mulher como a Dilma [Rousseff] e depois você ter um golpe de Estado e depois você cair na mão de um fascista. Nós não temos o direito de permitir que isso aconteça no Brasil. Nós temos o direito de brigar.”
Aos 80 anos, Lula demonstrou muita disposição e sensibilidade para lançar programas e iniciativas para melhorar a vida do brasileiro. Ele tem exibido boa forma física em diversos vídeos que circulam nas redes, onde aparece se exercitando na academia, com pesos e caneleiras. E a saúde do presidente impressiona, foi até destaque em reportagem do jornal britânico The Guardian, nesta semana. “Eu me sinto fisicamente muito bem, politicamente eu estou muito bem, estou com a saúde muito bem preparada e estou motivado porque tem muita coisa para fazer para o Brasil. Mas a razão da minha candidatura é essa. Sou um cara que eu tenho um compromisso com este País. Eu tenho um compromisso com o povo brasileiro”, ressaltou. “A verdade é a seguinte, eu nunca estive com tanta energia para ser presidente da República como agora.”
A resposta de que Lula será candidato repercutiu em toda a imprensa nacional, que nos últimos dias especulava que o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad seria a aposta do mercado para substituir o presidente, conforme notícia de Mônica Bergamo na Folha. “Se você analisar o mercado da Faria Lima, eles sempre vão querer outro candidato. Porque eles não querem política de inclusão social. Eles querem política para pagar a taxa de juros deles. E eu quero fazer política de inclusão social. Então a gente vai ter sempre uma divergência. Muita divergência.”
Lula foi questionado sobre o endividamento da população que, segundo pesquisas, tem prejudicado a aprovação do governo. A Quaest desta semana mostrou que 72% dos brasileiros têm poucas ou muitas dívidas para pagar. Segundo dados do Serasa, a inadimplência atinge hoje 81,7 milhões de pessoas. Lula disse que o governo prepara um novo Desenrola, um programa para aliviar o bolso do brasileiro. Ele também criticou as apostas eletrônicas, que têm prejudicado muitas pessoas, e as comparou com cassinos, que são proibidos no Brasil, mas estão dentro de casa.
“Eu estou preocupado com isso e nós vamos tentar encontrar uma solução definitiva para amenizar o sofrimento das pessoas, mas, ao mesmo tempo, é preciso que a gente tente controlar essa jogatina que tomou conta dos meios de comunicação no Brasil.”
Mentiras, fake news e PowerPoint da Globo
O presidente Lula também falou sobre o vídeo manipulado publicado pelo senador Flávio Bolsonaro em suas redes que utilizava uma imagem de pessoas pegando comida num caminhão de lixo. A cena, no entanto, não é atual, pelo contrário, é de 2021 e foi filmada durante o governo de seu pai, quando o Brasil havia retornado ao Mapa da Fome. “Este ano será o ano da verdade. Quem mentiu, mentiu. Quem mentiu, daqui pra frente, vai ser pego de calças curtas. Como o Flávio [caso do caminhão]”, afirmou.
“Ele se esqueceu de perceber que aquilo era no governo do pai dele. Não vamos deixar passar. Precisamos levar a sociedade brasileira ao momento eleitoral discutindo com a seriedade que precisamos discutir para escolher o chefe de Estado. Se ela for na base da mentira, o resultado pode ser um desastre para a democracia e para a sociedade brasileira.”
O presidente também fez um desabafo sobre como a mídia hegemônica vem o tratando desde 1989 e prometeu não aceitar mais “sacanagens como o PowerPoint da Globo”. A arte gerou muita indignação porque trazia o presidente entre as maiores conexões de Daniel Vorcaro, do Banco Master, omitindo figuras da extrema direita e Centrão que tiveram grande ligação com o banqueiro. A emissora teve que se desculpar.
“Eu tive uma conversa com o dirigente da Globo para mostrar a irresponsabilidade desse PowerPoint. Mostrar a conexão de um cara com o presidente da República, com o BC [Banco Central], e ainda colocar a bandeira do PT? Não dá mais pra gente admitir esse tipo de sacanagem”, declarou Lula.
“Eu fui vítima disso em 1989, em 1994, em 1998, em 2002. Em 2002, eu chamei a Globo para conversar porque o jornal O Globo dava mais destaque à Heloísa Helena do que ao presidente que era o primeiro colocado. Qual era o critério? Depois veio 2006, nós fizemos a campanha contra o [Geraldo] Alckmin, depois veio 2014, a canalhice que foi feita com a Lava Jato. Eles criaram monstros em nome de combater a corrupção. Eu sei o preço que eu paguei. Pra mim, aceitar concorrer ao terceiro mandato era deixar o rancor de lado, e é assim que eu estou governando este País, mas eu não posso permitir que eles achem que eu esqueci o que eles fizeram. Eu sei que minha família foi destruída”, afirmou Lula.
Medo de Trump?
Outro tema de grande repercussão na entrevista foi a crítica ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especialmente à imagem publicada por ele onde aparece como se fosse Jesus Cristo. “Aquela imagem de Jesus Cristo, sinceramente… Ele não contribui com quem acredita no sistema multilateral, com quem acredita na democracia”, disse Lula. “O Trump não precisava ficar ameaçando o mundo. A gente tem que escolher se a gente quer ser temido ou a gente quer ser amado. Esse é o papel do líder”, completou.
Ele ainda contou como foi a conversa que teve com o homólogo dos EUA na ocasião das negociações do tarifaço: “Quando conversei com o Trump, disse que tinha 80 anos de idade. Ele ia fazer 80 anos no 14 de junho. Portanto, dois octogenários não têm que ficar falando coisas que não têm interesse para o seu povo. ‘Você tem interesse nos Estados Unidos, eu tenho interesse no Brasil. A base pela qual você nos taxou não é verdadeira’”, disse.
Lula ainda saiu em defesa do Papa Leão XIV, que havia sido atacado por Trump dias antes. O presidente dos EUA chamou o pontífice de fraco por suas críticas à guerra do Irã e seus pedidos de paz. Leão XIV havia respondido que não era político e não tinha medo de Trump. Na sequência o líder republicano postou a polêmica imagem dele como Jesus que foi apagada. “Vou aproveitar a tua pergunta para ser solidário a ele [ao papa]. Ninguém precisa ter medo de ninguém.”
E Lula não teme interferências de Trump nas eleições de outubro, até brincou que seria bom, já que o primeiro-ministro Viktor Orbán perdeu a eleição na Hungria no domingo (12) após apoio dos EUA. “Receio, eu não tenho. Eu acho que ele me ajudaria muito se ele fizesse isso. Tenho visto o Trump dando palpite na eleição de Honduras, da Costa Rica… É um absurdo, uma intromissão sem precedentes na soberania de um país. Aqui ele ainda não fez, mas meus adversários tem um filho lá, tem filho pedindo intervenção americana no Brasil. Acho isso um erro de comportamento, tanto deles pedindo quanto do Trump fazendo”.
Por outro lado, Lula disse que topa fazer uma parceria com Trump se for para realmente combater o crime organizado. “Eu falei para ele, se você quiser combater o crime organizado, fechamos acordo agora.” O governo Lula, inclusive, por meio do Ministério da Fazenda, anunciou na sexta-feira (10/4) uma Cooperação Mútua entre a Receita Federal do Brasil (RFB) e o U.S. Customs and Border Protection (CBP), agência de fronteiras dos Estados Unidos, para o combate ao crime transnacional.
Ministério da Segurança Pública, INSS e Master
O presidente Lula anunciou ainda que irá criar o Ministério da Segurança Pública assim que a PEC enviada pelo governo ao Congresso for aprovada no Senado. “Na hora que for aprovada a PEC que define o papel da União na segurança pública, aí este País terá segurança pública. Com política federal, com mais gente, com mais inteligência e com uma guarda nacional para fazer as intervenções necessárias para ninguém nunca mais falar em GLO.”
O presidente ainda comentou sobre o papel da Polícia Federal em seu governo. “A Polícia Federal, nesses nossos três anos de governo, já desbaratou 10 milhões de bandidos neste País”. Entre os casos desbaratados está a fraude no INSS, que levou à criação de uma CPMI no Congresso. Lula revelou que sentiu “mágoa pessoal” com a CPMI do INSS. “Porque eu queria que a CPI fosse feita pelo PT. É a bancada do PT que tinha que convocar a CPI, porque foi a Polícia Federal e a nossa CGU [Controladoria-Geral da União] que descobriram a falcatrua montada no governo passado.”
Tanto no caso do INSS, quanto do Master, Lula afirmou que basta ver a cronologia dos fatos para saber que os escândalos não começaram no governo atual. “Eu disse para o delegado-geral da Polícia Federal, todo crime que a PF desvendar, todo e qualquer crime, tem que dizer quando é que começou a funcionar a quadrilha, quando ela foi criada e em que governo.”
A entrevista ainda abordou os desafios do governo para se comunicar com a juventude, o fim da escala 6X1, privatização da Petrobras e Eletrobras, a taxa das ‘blusinhas’, o projeto do governo para os entregadores de aplicativos, Cuba, Venezuela, Netanyahu, e de educação, o que para Lula, é seu grande legado. “Em cem anos, a elite brasileira fez 140 institutos federais. Eu vou entregar, no final do meu mandato, 780 institutos federais.” E para finalizar Lula respondeu até se o Neymar deve ir ou não para Copa do Mundo. E Lula revelou que quem quis saber a opinião do presidente foi o próprio técnico Carlo Ancelloti.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/candidatissimo-lula-acaba-com-qualquer-duvida-sobre-a-disputa-eleitoral/

