O candidato do Partido Liberal (PL) Daniel Trindade foi eleito deputado federal por Roraima no último domingo (4), nove dias depois de ter sido preso em flagrante pela Polícia Federal durante a Operação Cunhambebe. A operação investiga sua suposta participação na formação de uma milícia privada, crimes ambientais e indícios de compra de votos encontrados durante buscas em endereços ligados ao candidato em Boa Vista e Cantá. Trindade foi solto no dia seguinte à prisão e seguiu em campanha até o pleito.
Segundo as apurações da PF, Trindade é suspeito de participar da formação de um grupo armado paralelo, de incentivar a prática de crimes, de manter produtos ilícitos em conduta que pode configurar receptação qualificada, e de dificultar ações de fiscalização ambiental na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Durante a operação, Trindade foi preso em flagrante.
As investigações da PF
A Operação Cunhambebe tem origem em maio de 2026, quando agentes da Polícia Federal foram atacados durante uma ação contra o garimpo ilegal na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Na ocasião, equipes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Ibama fiscalizavam a comunidade Napoleão, uma das áreas mais afetadas pela extração de ouro com uso de cianeto. Um grupo tentou bloquear a passagem das viaturas, e vídeos registrados na região mostraram agentes sendo perseguidos por motocicletas em meio a sons semelhantes a tiros.
Ao aprofundar as investigações, a PF descobriu que Trindade ministrava um curso de segurança privada clandestino, sem autorização do órgão responsável, com conteúdo que incluía táticas operacionais de segurança. A Justiça Federal determinou a suspensão dos cursos por 180 dias a pedido da PF. O juiz Victor Oliveira de Queiroz, da 4ª Vara Federal Criminal de Roraima, também impôs medidas cautelares ao candidato: proibição de entrar em qualquer terra indígena do estado, vedação de contato com integrantes da Comunidade Napoleão e com o presidente da Associação dos Arqueiros de Roraima, além de autorização para apreensão de documentos e aparelhos eletrônicos para perícia. Caso descumprisse qualquer uma das restrições, Trindade poderia ter a prisão preventiva decretada.
“As investigações identificaram, ainda, a divulgação de cursos de segurança privada ministrados sem autorização da Polícia Federal, com conteúdo que incluía técnicas operacionais normalmente associadas a atividades de segurança”, informou a PF em nota.
O conjunto de indícios reunidos pela corporação aponta, em tese, para os crimes de constituição de milícia privada, incitação ao crime, receptação qualificada, exposição da vida ou saúde de terceiros a perigo, exercício ilegal de atividade econômica e embaraço à fiscalização ambiental. A PF declarou que a operação busca “esclarecer a extensão dos fatos investigados, identificar eventuais participantes e interromper possíveis atividades ilícitas em curso”.
Histórico
A trajetória eleitoral de Daniel Pedreiro da Trindade é marcada por tentativas frustradas antes desta vitória. Em 2012, concorreu a vereador em Boa Vista pelo PSB, sem se eleger. Em 2018, disputou uma vaga de deputado estadual pelo PPL e ficou como suplente. Em 2020, a Justiça Eleitoral rejeitou seu registro de candidatura a vereador em Cantá pelo PTB. Em 2024, concorreu à Prefeitura de Cantá pelo PL e terminou em segundo lugar. A filiação ao Partido Liberal abriu, enfim, o caminho para a Câmara Federal.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/candidato-pl-investigado-milicia-compra-votos-eleito/


