Em entrevista ao Fórum Onze e Meia desta quarta-feira (10), o ex-presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), ex- ex-chefe interino do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência e pré-candidato ao governo do Distrito Federal, Ricardo Capelli, analisou alguns dos principais temas da política nacional e internacional atualmente, como a PEC da autonomia do Banco Central, o debate sobre o fim da escala 6×1 e a classificação de organizações criminosas como terroristas pelos Estados Unidos.
Em relação ao BC, Cappelli afirmou que, hoje, o banco está a “serviço da banqueirada” e foi “capturado pelo sistema financeiro”. Para ele, a proposta que amplia ainda mais a autonomia do banco é uma “vergonha”.
“Na verdade, é um Banco Central que eles querem que seja independente do povo e um puxadinho da banqueirada, um puxadinho da Faria Lima”, afirma Cappelli.
Ele acrescenta que o que o banco está fazendo ao manter as taxas de juros altas”é um crime contra o Brasil”. “Não há nenhum dado macroeconômico, nenhum dado técnico que sustente a atual taxa básica de juros no Brasil. É um escândalo o que está sendo feito no Banco Central”, afirma.
Cappelli ainda critica que ao invés do Banco Central estar obrigando o Banco de Brasília (BRB) a publicar seu balanço, o que não acontece há um ano, a instituição está “indo passear na Faria Lima junto com os gestores do BRB para tentar aprovar um financiamento”. “Ninguém sabe o tamanho do rombo, ninguém sabe o tamanho da roubalheira no BRB”, alerta Cappelli.
“O Banco Central está participando da articulação para pegar um financiamento que depois vai sobrar para o povo pagar para fechar a conta da roubalheira. Isso é papel do Banco Central? O Banco Central tinha que estar exigindo do BRB a publicação do balanço. Por que não faz? Porque ele fala que aí tem um risco, que o BRB oferece um risco ao sistema financeiro como um todo, ele tem que atuar”, critica Cappelli.
“Então, isso virou o Banco Central. Ele hoje está a serviço da ‘banqueirada’, está a serviço do sistema financeiro. Fica mantendo taxas de juros inaceitáveis porque está capturado pelo sistema financeiro”, complementa o ex-presidente da ABDI.
Portanto, Cappelli alerta que, se a situação já está desse jeito antes da ampliação da autonomia do BC, a aprovação da PEC representa um risco ainda maior.
“É inaceitável. A política monetária é um instrumento de política pública e tem que estar subordinada também à vontade popular”, finaliza.
Davi Alcolumbre e o fim da escala 6×1
Cappelli também comentou sobre o avanço da PEC pelo fim da escala 6×1, recém aprovada na Câmara dos Deputados e em análise no Senado, e afirmou que Davi Alcolumbre “deveria refletir melhor e prestar um serviço ao Brasil colocando o projeto na pauta”.
Cappelli destaca que além de uma modernização da legislação trabalhista, acabar com a escala 6×1 é também um “avanço civilizatório”. Ele conta que, enquanto a pauta era analisada na Câmara, ele estava lendo o livro “Escravidão 3”, de Laurentino Gomes, e percebeu que os argumentos utilizados no final do século XIX para manter a escravidão são exatamente os mesmos usados pelos que são contra acabar com a escala 6×1.
“Os argumentos são: vai aumentar o custo das empresas e vai afetar, portanto, a produtividade das empresas. Vai prejudicar a concorrência das empresas brasileiras e, por fim, vai quebrar o Brasil. É o mesmo que os escravocratas diziam no final do século XIX contra a abolição. Então, gente, é inacreditável”, afirma Capelli.
“Acho que o presidente Davi Alcolumbre deveria refletir melhor sobre isso e deveria prestar um serviço ao Brasil colocando o projeto na pauta”, acrescenta o ex-presidente da ABDI.
Classificação do CV e do PCC como terroristas
Por fim, outro ponto de debate com Cappelli foi a classificação das organizações criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Cappelli analisa que, na cabeça da população, como o crime organizado atua em territórios dominados sob a lógica do terror e, quem atua sob a lógica do terror é terrorista, faz sentido as pesquisas indicarem apoio popular à decisão do governo de Donald Trump.
“A população é muito objetiva. Você tem milhares de pessoas no Brasil hoje vivendo em territórios dominados pelo crime. Ela é obrigada a comprar o gás do crime, obrigada a pagar a internet do crime, obrigada a contratar serviços do crime. Então, você tem no Brasil hoje milhares de pessoas vivendo em territórios dominados pelo crime num regime de terror. Por isso que elas dizem que essas organizações são terroristas. E elas são terroristas no que diz respeito à atuação delas no Brasil, internamente”, explica Cappelli.
No entanto, ele ressalta que a decisão de Trump “é, obviamente, oportunista”. “É uma tentativa de, a partir disso, ganhar uma chancela para rasgar a soberania brasileira e tentar intervir no território nacional. Isso é inaceitável”, afirma Cappelli.
“Donald Trump está pegando uma questão que é séria, que é o combate a essas organizações criminosas transnacionais e está fazendo politicagem a serviço de seu Flávio Bolsonaro. Flávio Bolsonaro que vai articular contra as empresas brasileiras lá, tentando fazer um outro tarifaço, e depois articula com Trump para ele tentar rasgar a soberania do Brasil, intervindo até mesmo no território nacional para enfrentar supostos terroristas internacionais”, pontua o ex-presidente da ABDI.
Ele conclui que, portanto, ao mesmo tempo que compreende a população, não pode aceitar “essa atitude oportunista e imperialista, intervencionista de Donald Trump”.
“Por fim, eu acho que a gente devia aproveitar essa trepidação para avançar no combate às organizações criminosas no Brasil, que avançaram muito e precisam ter um combate mais efetivo a partir do SUSP, do Sistema Único de Segurança Pública”, defende Cappelli.
Confira a entrevista completa de Ricardo Cappelli
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/cappelli-bc-capturado-banqueiros-sistema-financeiro/

