Ciro Nogueira tinha dinheiro em reais, dólares, euros e até liras turcas em endereços vasculhados pela Polícia Federal. Na mesma operação, os agentes encontraram três relógios Rolex, um Patek Philippe, um crucifixo que depois seria identificado como de ouro, veículos, dezenas de bolsas e uma coleção de vinhos e destilados.
Os achados constam nos autos da 5ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 7 de maio. A investigação apura suspeitas de vantagens indevidas que teriam sido concedidas ao senador do PP pelo empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Ciro nega irregularidades.
Parte dos bens já foi avaliada pela própria PF. Outra parte ainda aguardava perícia. A Fórum Investiga também consultou referências de mercado para dimensionar os relógios descritos nos autos. Somando apenas o dinheiro localizado nos endereços de Ciro, três veículos avaliados oficialmente, o crucifixo periciado e uma estimativa conservadora dos quatro relógios, o conjunto fica entre R$ 1,46 milhão e R$ 1,50 milhão.
As bolsas e as bebidas não entram nessa conta. Se consideradas apenas como uma simulação de mercado, condicionada à autenticidade e à correta identificação dos itens fotografados, o conjunto total visto pela PF pode alcançar algo entre R$ 2 milhões e R$ 2,4 milhões.
Ciro Nogueira: o que a PF encontrou
Dólares no escritório e euros no cofre
Na residência de Ciro em Teresina, os agentes encontraram um cofre no closet do quarto superior. O senador estava em Brasília e, segundo o relatório policial, forneceu a senha à coordenação da operação.
Dentro estavam R$ 31.760 e € 14.070. A contagem inicial do dinheiro brasileiro havia apontado R$ 41.710, mas o valor foi corrigido após nova conferência para o depósito judicial.
Em Brasília, os agentes encontraram mais dinheiro no escritório utilizado por Ciro: US$ 27.735, € 1.555 e 890 liras turcas.
Usando o câmbio de 17 de setembro, os valores localizados nos dois endereços diretamente relacionados ao senador equivalem a aproximadamente R$ 267,6 mil.
A PF também apreendeu dinheiro na casa de Raimundo Neto, irmão do senador. Somados esses recursos aos encontrados nos imóveis de Ciro, o numerário em endereços ligados à família chega a cerca de R$ 614 mil pela conversão atual.
Quatro relógios dentro do cofre
O termo de apreensão da residência de Brasília é detalhado. No cofre pessoal de Ciro estavam três relógios aparentemente da Rolex e um Patek Philippe.
Um deles foi descrito pelos policiais como Rolex GMT-Master II “Sprite”. Outro era um GMT Master prateado, com azul e vermelho. O terceiro foi identificado preliminarmente como Rolex Yacht-Master.
O quarto relógio foi descrito como um Patek Philippe em rosé gold, com pulseira de couro azul. Pelas características da peça e pelas fotografias feitas durante a operação, ela é compatível com modelos da linha Annual Calendar da fabricante suíça. Exemplares semelhantes aparecem no mercado secundário na faixa dos R$ 300 mil.
Como a PF ainda não havia concluído a perícia especializada dos relógios, esses valores não podem ser tratados como avaliações oficiais. Referências recentes do mercado secundário colocam peças semelhantes às descritas nos autos em aproximadamente R$ 85 mil para o Sprite, R$ 113 mil para o GMT azul e vermelho, R$ 71 mil para o Yacht-Master e entre R$ 277 mil e R$ 316 mil para o Patek Philippe.
O crucifixo era de ouro
O quinto objeto encontrado no cofre havia sido registrado inicialmente apenas como um “crucifixo em material dourado”. Depois veio a perícia.
O Laudo Pericial nº 25116/2026 concluiu que a peça era confeccionada em ouro Au 650, ornamentada com símbolos religiosos e elementos decorativos associados à tradição cristã.
A própria Polícia Federal atribuiu ao crucifixo o valor de R$ 17.746,03 e determinou que o objeto passasse a ser tratado no sistema de apreensões como joia de elevado valor patrimonial.
BMW, Honda e SW4 somaram R$ 625 mil
Os valores dos veículos também não dependem de estimativa da reportagem. Eles constam dos laudos da PF.
A BMW M440i, ano/modelo 2023, encontrada em Brasília, foi avaliada em R$ 317.925,50. A Honda CB1000R estacionada na garagem do senador recebeu avaliação de R$ 57.823,20.
Já uma Toyota Hilux SW4 blindada, localizada na casa utilizada por Ciro em Teresina, foi avaliada em R$ 250 mil.
Os três veículos chegam, portanto, a R$ 625.748,70.
Dezenas de bolsas aparecem nas fotografias
As imagens feitas pelos agentes mostram duas camas praticamente cobertas por bolsas, carteiras e outros acessórios. Nas fotografias são visíveis peças, embalagens e dust bags com inscrições de Chanel, Louis Vuitton, Prada e Fendi, entre outras.
O próprio relatório policial evitou autenticar peça por peça. A descrição registra “inúmeras bolsas de grife”, aparentemente de marcas internacionais de luxo, encontradas em diferentes cômodos e possivelmente pertencentes à companheira do senador.
Por isso, elas não entram na conta de R$ 1,5 milhão. Uma simulação feita pela Fórum, comparando a quantidade fotografada e faixas de revenda de peças semelhantes das marcas visíveis, aponta que o conjunto poderia representar aproximadamente R$ 450 mil a R$ 750 mil caso as peças sejam autênticas. Não se trata de avaliação pericial.
Barca Velha, Vega Sicilia e dezenas de destilados
Outro conjunto fotografado pela PF foi o de bebidas. Há uma adega vertical abastecida com diversas garrafas e um móvel tomado por whiskies, conhaques e outros destilados.
Uma fotografia separada destaca quatro vinhos. Os dois rótulos centrais são compatíveis com Casa Ferreirinha Barca Velha, incluindo garrafas que aparentam ser das safras 2008 e 2011. Nas extremidades aparecem rótulos compatíveis com Vega Sicilia Único.
Para dimensionar os valores, uma garrafa de Barca Velha 2011 é atualmente oferecida no mercado brasileiro por aproximadamente R$ 7,5 mil a R$ 11 mil. O Vega Sicilia Único 2009 aparece na faixa de R$ 6 mil a R$ 9 mil na garrafa convencional, enquanto grandes formatos podem ultrapassar R$ 18 mil.
Consideradas apenas as quatro garrafas destacadas pela própria PF, a faixa provável fica em aproximadamente R$ 30 mil a R$ 45 mil. Ao incluir a adega e os destilados visíveis nas demais fotografias, uma estimativa exploratória coloca o conjunto fotografado entre R$ 70 mil e R$ 120 mil. Novamente, são referências de mercado, não avaliação oficial da Polícia Federal.
Celular sem senha, documentos e a churrasqueira
A busca também recolheu um iPhone 17 atribuído a Ciro. O termo policial registra que a senha do aparelho não foi fornecida. Um iPad e um cartão microSD também foram apreendidos.
No escritório, os agentes encontraram ainda anotações manuscritas com “diversas informações sobre apartamentos” e documentos financeiros. A PF informou posteriormente que esse material já havia sido analisado pela equipe responsável, embora o conteúdo da análise ainda não apareça entre os documentos tornados públicos.
A mesma diligência resultou na descoberta de papéis dentro da churrasqueira da residência. Entre eles estava uma folha com o título “Câmara”, primeiros nomes de parlamentares e números. A Fórum mostrou o documento em reportagem anterior.
Segundo uma funcionária ouvida durante a busca, Ciro havia entregue aqueles papéis para que fossem queimados porque seriam antigos ou sem serventia. A funcionária afirmou que ainda não havia feito isso. A PF registrou que o significado dos números anotados ao lado dos nomes precisava ser esclarecido.
Investigação no caso Master
A Petição 15.674 apura suspeitas de vantagens indevidas que teriam sido concedidas a Ciro por Daniel Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, uma das linhas de investigação é verificar se o senador atuou em proposições legislativas de interesse privado em possível contrapartida a vantagens financeiras e artigos de luxo.
Em agosto, a PF informou ao Supremo que já haviam sido efetivados bloqueios financeiros superiores a R$ 10,2 milhões contra Ciro, abrangendo contas bancárias, aplicações e ações. Uma aeronave Beech Aircraft B200 atribuída ao parlamentar também foi alvo de sequestro judicial.
Ciro Nogueira foi um dos nomes próximos da articulação de Flávio Bolsonaro para a disputa presidencial de 2026 e chegou a ser citado pelo senador do PL entre os perfis cogitados para compor uma chapa. Posteriormente, PP e Flávio passaram a divergir sobre a formação de uma aliança nacional.
A defesa de Ciro tem negado participação do senador em atividades ilícitas e contestado as suspeitas levantadas na investigação.
Nota documental: os valores de dinheiro, veículos e crucifixo citados como oficiais vêm dos autos e dos laudos da Polícia Federal. Os preços de relógios, bolsas e bebidas são referências de mercado usadas exclusivamente para dimensionar os itens fotografados e não substituem perícia.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ciro-nogueira-pf-luxo-master/


