Cláudio Castro se diz vítima de “narrativas” e insinua uso político da PF

Horas após retirar sua candidatura ao Senado, o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), publicou um vídeo em suas redes sociais em que se diz vítima de “narrativas e mentiras” e insinua uso político da Polícia Federal.

Cláudio Castro é alvo de duas investigações da Polícia Federal. Na primeira, a PF apura se os aportes de R$ 3 bilhões do Rioprevidência no Banco Master foram feitos para beneficiar Daniel Vorcaro, dono do banco que está preso por liderar a maior fraude bancária da história do Brasil.

A segunda investigação contra o ex-governador está vinculada ao caso Refit, em que há suspeita de que Castro tenha favorecido o conglomerado do empresário Ricardo Magro, que está foragido nos EUA.

Cabe lembrar que o ex-governador já foi condenado, em uma terceira ação, por abuso de poder político na eleição de 2022, o que o tornou inelegível por oito anos.

Cláudio Castro se diz vítima de “narrativas”

Abatido e nervoso, Cláudio Castro diz que tem vivido “dias difíceis”:

“Esses dias estão sendo muito difíceis. Minha família está passando por um momento que eu jamais imaginei que ia passar. Foram dias de dor, de exposição, dias de mentira, dias de narrativas […] muito pior do que a mentira é a meia verdade. Aquilo que transforma atos que eram corretos em tentativa de criminalizar algo que era correto.”

O ex-governador também afirma que retirar a candidatura ao Senado foi “a decisão mais difícil” de sua vida:

“Resolvi tomar a decisão mais difícil da minha vida. E ela é a mais difícil porque durante toda minha trajetória como assessor, como vereador, como vice-governador, como governador, eu jamais fugi de briga alguma. Jamais fugi de luta alguma. Mas também tenho que entender que momento a gente vive, como são as coisas e em que momento elas estão na vida. Então, resolvi retirar a minha candidatura ao Senado Federal.”

Em outro momento, Cláudio Castro desqualifica os processos dos quais é alvo e insinua uso político da Polícia Federal:

“Eu já analisei […] esses dois processos. Não tenho dúvida de que a verdade será esclarecida. Não tenho dúvida de que as meias verdades cairão […] Infelizmente, no Brasil, em épocas pré-eleitorais e, sobretudo, nessa época, em que há um grande embate, essas questões se tornam latentes. Infelizmente, reputações são destruídas sem o menor pudor, simplesmente por uma busca incessante pelo poder.”

https://x.com/claudiocastroRJ/status/2060075264592298431

Cláudio Castro retira candidatura ao Senado após esquema com Vorcaro ser revelado

O ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), retirou sua candidatura ao Senado após novas revelações sobre esquemas com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso por liderar a maior fraude bancária da história do Brasil. Castro já informou a decisão ao presidente do PL, Valdemar da Costa Neto.

Cabe destacar que, apesar de ter mantido sua candidatura ao Senado até então, Cláudio Castro está inelegível por abuso de poder político durante a eleição de 2022.

De bife de ouro a uísque milionário: os luxos de Vorcaro para Cláudio Castro, segundo a PF

Bife de Ouro: Cláudio Castro (PL), ex-governador do Rio de Janeiro, aparece em mensagens obtidas pela Polícia Federal agradecendo a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por experiências de luxo em Nova York enquanto o Rioprevidência fazia aplicações bilionárias ligadas ao banco. Segundo a investigação, os agrados incluíram jantar com bife de ouro no restaurante do chef Salt Bae e uma degustação exclusiva de uísque avaliada em cerca de R$ 5 milhões.

As mensagens foram reveladas pelo g1 e pelo blog de Malu Gaspar, em O Globo, no contexto da operação que apura aplicações suspeitas de recursos do Rioprevidência no Banco Master. A Revista Fórum já mostrou que a PF apontou um vínculo pessoal estreito entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro antes e durante os aportes do fundo previdenciário do Rio.

O novo material reforça a linha de investigação sobre a proximidade entre Cláudio Castro, Daniel Vorcaro, Banco Master e Rioprevidência. Na oitava fase da Operação Compliance Zero, a PF apura cerca de R$ 3 bilhões transferidos pelo fundo de previdência dos servidores fluminenses para produtos financeiros ligados ao banco privado.

Cláudio Castro agradeceu a Vorcaro por jantar de luxo em Nova York

Um dos episódios citados pela PF ocorreu em maio de 2023, em Nova York. Segundo a investigação, Daniel Vorcaro enviou a Cláudio Castro o endereço do Nusr-Et Steakhouse, restaurante do chef turco Nusret Gökçe, conhecido como Salt Bae, famoso por cortes de carne folheados a ouro.

Depois do jantar, Cláudio Castro escreveu a Daniel Vorcaro:

Amigo, foi uma experiência incrível. Muito obrigado.

De acordo com os investigadores, a conta passou de US$ 13 mil, valor superior a R$ 60 mil. A PF aponta que o jantar teria sido pago por Vorcaro. Um minuto antes da mensagem de agradecimento de Castro, o banqueiro recebeu no celular uma notificação de cobrança do restaurante.

Meses depois, em novembro de 2023, o Rioprevidência fez os primeiros aportes em Letras Financeiras do Banco Master. Primeiro, foram R$ 40 milhões. Dias depois, houve novo aporte de R$ 80 milhões. A Fórum já mostrou que a PF investiga como os recursos públicos do Rio foram direcionados a produtos ligados ao Banco Master.

Bife de ouro para Cláudio Castro entrou nas mensagens de Vorcaro

Outro jantar no mesmo restaurante aparece nas mensagens de maio de 2024. Em conversa com um auxiliar, Daniel Vorcaro pediu que fosse providenciado um prato especial para Cláudio Castro.

“Pede aquela carne de ouro ou alguma especial pra ele ir.”

Segundo os diálogos revelados, a equipe de Vorcaro também informou que o próprio Salt Bae estaria no restaurante e poderia ir à mesa de Cláudio Castro. Ao receber detalhes do encontro, o então governador respondeu ao banqueiro:

“Vc não existe.”

O episódio do bife de ouro se soma a outros encontros privados mapeados pela PF entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro no Rio, em São Paulo e em Nova York. A Fórum também revelou que o Banco Master recebeu milhões do governo do Rio no mesmo dia de evento com Castro e Vorcaro.

Uísque milionário antecedeu aporte do Rioprevidência no Banco Master

A PF também cita uma degustação exclusiva de uísque em Nova York, restrita a dez convidados. Segundo os investigadores, o evento teria custado mais de US$ 1 milhão, cerca de R$ 5 milhões, e também teria sido bancado por Daniel Vorcaro.

Cláudio Castro confirmou presença na degustação em mensagem ao banqueiro. No dia seguinte, de acordo com a investigação, o Rioprevidência realizou aporte de R$ 80 milhões no Banco Master. A PF ainda aponta outros dois investimentos na sequência, de R$ 80 milhões e R$ 70 milhões.

Para os investigadores, a sequência de jantares, viagens, mensagens e aportes indica proximidade entre o ex-governador do Rio e o dono do Banco Master no período em que recursos do Rioprevidência eram aplicados no banco. As mensagens sobre o bife de ouro e o uísque milionário, porém, não mencionam diretamente o Rioprevidência.

Defesa de Cláudio Castro nega relação indevida com Daniel Vorcaro

A defesa de Cláudio Castro nega relação pessoal indevida com Daniel Vorcaro. Os advogados afirmam que os contatos ocorreram em agendas oficiais, institucionais e em encontros sociais ligados ao exercício da função pública, sem favorecimento ao Banco Master.

A defesa também nega que viagens, passagens ou despesas pessoais de Cláudio Castro tenham sido custeadas por Daniel Vorcaro. O ex-governador afirma ainda que não participava das decisões técnicas sobre investimentos do Rioprevidência.

Daniel Vorcaro está no centro das investigações da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de crimes contra o sistema financeiro, fraudes e movimentações de recursos públicos e privados ligados ao Banco Master. No caso de Cláudio Castro, a PF mira a relação entre os encontros com o banqueiro e os aportes bilionários do Rioprevidência.

Cláudio Castro tinha “vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master”, Daniel Vorcaro, diz Mendonça em decisão

Na decisão em que deu aval ao desencadeamento da oitava fase da Operação Compliance Zero, que cumpriu mandados de busca e apreensão na cobertura do ex-governador Cláudio Castro (PL) na Barra da Tijuca, no Rio, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirma que o aliado do clã Bolsonaro tinha “vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master”, Daniel Vorcaro.

“Segundo a representação, a atuação do ex-Governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do RioPrevidência”, diz Mendonça.

Segundo o ministro, “esse relacionamento teria viabilizado o alinhamento político necessário para a liberação dos investimentos, bem como a nomeação estratégica de dirigentes do RioPrevidência em cargos-chaves (Presidência, Diretoria de Investimentos e Gerência de Investimentos), assegurando que as decisões de credenciamento e de aplicação de recursos previdenciários fossem conduzidas em desconformidade com a política de investimentos e com as normas regulatórias, mas em consonância com os interesses do Banco Master. Os indícios apontam, ainda, para a continuidade das aplicações mesmo diante de alertas formais de órgãos de controle e pareceres técnicos desfavoráveis, viabilizando-se a manutenção do fluxo de recursos públicos para operações classificadas como temerárias e desprovidas de justificativa técnica”, segue o ministro.

A revelação de que Daniel Vorcaro mantinha encontros pessoais com Castro acontece na esteira do áudio e da visita de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro, que teria prometido cerca de 24 milhões de dólares supostamente para financiar o filme Dark Horse, que narra a versão da ultradireita sobre Jair Bolsonaro (PL). Ao menos 10 milhões de dólares – cerca de R$ 61 milhões – teriam sido depositados no fundo Havengate, nos EUA, administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

A decisão afirma ainda que conversas encontradas no celular de Vorcaro indicam que a liberação de determinados investimentos dependia de alinhamento político com o ex-Chefe do Executivo estadual.

Segundo informações da Polícia Federal, Castro teria transferido cerca de R$ 3 bilhões ao grupo Master. O dinheiro teria saído principalmente do caixa da Rioprevidência, o fundo que gere os benefícios de 235 mil aposentados e pensionistas do estado.

Na decisão, Mendonça lista ainda o acervo de provas apresentado pelos investigadores, incluindo “mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, a reconstituição da cronologia de encontros e aportes, os documentos administrativos do RioPrevidência, os registros de credenciamento, as referências de auditorias do TCE/RJ e da Secretaria de Regime Próprio e Complementar do Ministério da Previdência Social, além de elementos que indicam decisões sucessivas em desconformidade com a política de investimentos, com a regulação  prudencial e com os deveres de diligência dos gestores”.

“A representação assevera que a apreensão de documentos, mídias digitais, computadores, aparelhos telefônicos e outros suportes é necessária para a aferição e corroboração dos vínculos entre os integrantes do grupo, bem como para a identificação de outros participantes e do percurso das vantagens indevidas. O conteúdo desses dispositivos tem potencial para revelar os diálogos contemporâneos do grupo, os instrumentos do crime e os elementos de conexão entre agentes públicos, intermediários e pessoas jurídicas utilizadas na prática delitiva. Em contexto de apuração de organização criminosa, a pronta preservação das fontes de prova revela-se indispensável à efetividade da investigação”, emenda.

Leia a íntegra da decisão de Mendonça sobre a ação contra Cláudio Castro

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/claudio-castro-se-diz-vitima-de-narrativas-e-insinua-uso-politico-da-pf/