Cristiane, mãe de Ana Clara: silêncio de Flávio Bolsonaro, advogado do atirador, é “desesperador”

Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina de 5 anos morta a tiros por um policial militar em Niterói (RJ), classificou como “desesperador” o silêncio do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o caso durante o debate presidencial com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizado no domingo (18).

Flávio é advogado de Bruno Dias Delaroli, policial militar acusado de assassinar a criança. Em 2024, o senador assumiu a defesa do agente e assinou um recurso apresentado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar reverter a decisão que determinou que ele fosse submetido a júri popular.

“Eu venho ser a voz dela. Meu luto não é de 2 semanas, nem de 3, são 5 anos e 7 meses lutando por justiça. E hoje, dia 21, eu poderia estar com a grande vitória do PM que matou minha filha estar sendo condenado. E isso foi adiado graças ao Flávio”, declarou Cristiane em ato público em 21 de outubro.

“Foi desesperador ver que Flávio não respondeu à pergunta sobre Ana Clara”, afirmou Cristiane, em entrevista à Agência Pública.

O caso voltou a repercutir nas redes sociais após Lula mencionar a atuação de Flávio na defesa do policial durante o debate da Band. A hashtag #PesquiseOCasoAnaClara passou a circular nas redes, ampliando a mobilização em torno da história da menina e da espera da família por justiça.

Como Ana Clara foi morta

Ana Clara foi baleada em 2 de fevereiro de 2021, quando brincava na porta de casa com o irmão mais novo, Pedro, então com 2 anos. Segundo o relato de Cristiane, ela correu ao ouvir os disparos e encontrou um policial diante da filha.

A mãe afirma que o agente não prestou socorro imediatamente e só levou a menina após a intervenção de outro policial. Cristiane pegou a filha nos braços e a levou ao hospital. Ana Clara morreu após ser atingida pelos tiros.

A princípio, o julgamento do policial estava marcado para 14 de abril de 2026, data em que a menina completaria 11 anos. A sessão foi adiada para outubro e, posteriormente, remarcada para 5 de maio de 2027.

“Há cinco anos e seis meses aguardo o julgamento do assassino da minha filha”, disse Cristiane à Agência Pública.

Mãe relata ameaças e dificuldades

Após a repercussão do caso, Cristiane afirma ter recebido ataques de apoiadores de Flávio Bolsonaro e passado a se sentir ameaçada na região onde vive, no Largo da Batalha, em Niterói.

Ela relata ter enfrentado crises de pânico e depressão e se afastado das redes sociais.

A mãe também enfrenta dificuldades financeiras. Sem emprego fixo, faz faxinas e envia currículos em busca de trabalho. Seu filho Pedro, hoje com 8 anos, está morando com a avó, embora Cristiane mantenha a guarda.

“Meu sonho é conseguir um emprego para ter a minha casa e trazer ele de volta”, afirmou.

Cristiane diz que não pretende deixar o caso cair no esquecimento.

“Quantas vezes forem necessárias, vou gritar o nome de Ana Clara, vou gritar que ela tinha uma vida, tinha uma mãe, um irmão, que morreu um pouquinho antes do aniversário dela.”

O julgamento está marcado para maio de 2027. Até lá, a família continuará aguardando que o policial acusado seja levado a júri popular.

 

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/cristiane-mae-de-ana-clara/