A Operação Compliance Zero entrou em uma fase decisiva com a abertura de negociações para acordos de colaboração premiada envolvendo os quatro principais alvos do esquema financeiro que fundiu os interesses do Banco Master e do Banco de Brasília (BRB). A Polícia Federal (PF) avalia as propostas do ex-controlador do Master, Daniel Vorcaro; do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa; do empresário Fabiano Zettel; e do fundador da gestora Reag, João Carlos Mansur.
Com o estrangulamento financeiro do grupo, marcado pelo bloqueio judicial de R$ 22 bilhões na pessoa física de Vorcaro e pela liquidação extrajudicial do Master decretada pelo Banco Central, a margem de manobra das defesas foi reduzida. Pela Lei de Organizações Criminosas, a Justiça só concederá benefícios penais caso os investigados apresentem provas inéditas que detalhem a rota da lavagem de dinheiro e exponham beneficiários políticos ainda ocultos no inquérito.
A PF já possui um acervo probatório robusto, o que eleva o preço da delação. As investigações mapearam desde a criação de carteiras de crédito falsas para simular solidez financeira até o uso sistemático de fundos de investimento para ocultação de patrimônio.
O núcleo privado: Vorcaro, Zettel e Mansur
A eventual delação de Daniel Vorcaro mira o topo da pirâmide estrutural do esquema. Preso preventivamente, o banqueiro centralizou a emissão de CDBs com juros fora da realidade de mercado e é peça-chave para explicar o trânsito de valores que irrigaram seus negócios paralelos, incluindo sua participação na SAF do Atlético-MG.
Ligado diretamente a Vorcaro, o empresário e pastor Fabiano Zettel representa uma das pontas operacionais da lavagem. Zettel, que é cunhado do ex-controlador do Master, foi preso pela Polícia Federal no momento em que tentava embarcar em um jatinho particular para Dubai. Sua colaboração é considerada estratégica pelos investigadores para detalhar o uso de empresas de fachada e laranjas na blindagem do patrimônio desviado.
O terceiro pilar privado é João Carlos Mansur. O fundador da Reag já negociava com o Ministério Público na Operação Carbono Oculto e agora tenta detalhar como os fundos de sua gestora foram instrumentalizados. A PF rastreou que Mansur utilizou o fundo de investimentos Celeno, administrado pelo próprio Banco Master, para adquirir ações do BRB. A manobra configurou uma triangulação financeira que turbinou artificialmente o capital da instituição brasiliense.
Propina milionária e o STF no caminho do BRB
O núcleo público da investigação tem como epicentro a preparação da delação de Paulo Henrique Costa. A Polícia Federal aponta que o ex-presidente do banco estatal cobrou e recebeu propinas que somam R$ 146 milhões, viabilizadas por meio de transações imobiliárias, para chancelar a aquisição de carteiras de crédito supervalorizadas originadas pelo Master.
A urgência de Costa em fechar o acordo de colaboração está ligada ao calendário do Judiciário. A manutenção de sua prisão preventiva está sob julgamento na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Mensagens interceptadas no inquérito revelam que Costa orientou subordinados de forma direta a aprovarem os aportes milionários nos fundos ligados ao grupo investigado, que chegaram a deter 23,5% de participação no banco do Distrito Federal.
A disputa simultânea entre os quatro investigados pela delação premiada tenta antecipar a conclusão do inquérito principal. Para a PF, a concorrência entre as defesas servirá para cruzar os depoimentos e consolidar a denúncia sobre como o banco privado infiltrou-se no cofre de uma instituição controlada pelo poder público para maquiar sua própria insolvência.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/delacao-banco-master-brb-pf/

