O policial civil Douglas Tobias, de 45 anos, investigado por participar de um esquema de desvio de cocaína apreendida pela polícia para abastecer o tráfico de drogas, voltou a ser alvo de uma operação nesta quarta-feira (4). Desta vez, a Polícia Federal (PF) investiga uma organização criminosa internacional suspeita de movimentar mais de R$ 500 milhões em dois anos, com a participação de agentes das forças de segurança. Douglas é enteado de Vivi Tobias (PL), candidata a deputada estadual em Mato Grosso do Sul que recebeu apoio eleitoral de Flávio Bolsonaro e Gustavo Gayer.
O parentesco foi confirmado publicamente em setembro, quando Douglas foi preso durante a Operação Infiltrados, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Mato Grosso do Sul. Ele é filho do delegado aposentado Nilson Tobias, marido da candidata bolsonarista.
Douglas integra a Polícia Civil desde 2014 e estava lotado no Grupo de Operações e Investigações (GOI). Segundo informações divulgadas em setembro, recebia remuneração mensal de R$ 12.730,84.
Na operação desta quarta-feira, agentes federais estiveram na residência do policial, no condomínio de luxo Alphaville, em Campo Grande, e apreenderam um Ford Mustang Shelby. A defesa informou que Douglas havia conseguido reverter sua prisão preventiva na terça-feira (3), um dia antes da nova ação policial.
Flávio Bolsonaro e Gustavo Gayer apoiaram candidata do PL
Viviane Moura de Azevedo Tobias, conhecida como Vivi Tobias, disputou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul pelo PL nas eleições de outubro. A candidata recebeu apoio público de Flávio Bolsonaro, então candidato à Presidência da República, e do deputado federal Gustavo Gayer, que disputava o Senado por Goiás.
Em vídeo divulgado durante a campanha, Flávio apresentou Vivi como possível integrante de sua base política na Assembleia. “A Vivi vai ser a sua base aí na Assembleia, se Deus quiser”, afirmou.
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Gayer também gravou uma mensagem pedindo votos e apresentou a candidata como representante das pautas defendidas pela direita.
Vivi recebeu 8.315 votos e terminou a disputa como suplente. De acordo com os dados de prestação de contas disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sua campanha declarou receitas de R$ 401.602,14, das quais R$ 400 mil vieram da direção nacional do PL.
A candidata também declarou patrimônio de R$ 669.684,23, composto por dois apartamentos em Campo Grande, avaliados em R$ 332 mil e R$ 252.684,23, além de R$ 70 mil em espécie e R$ 15 mil em poupança.
Não há evidência de que os recursos eleitorais ou os bens declarados pela candidata tenham relação com as atividades criminosas investigadas.
Justiça suspendeu propaganda que associava PT ao narcotráfico
A ligação familiar ganhou outro elemento durante a campanha. Em setembro, o juiz eleitoral Fernando Bonfim Duque Estrada determinou a suspensão de material distribuído por Vivi Tobias que associava adversários políticos ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao narcotráfico.
A decisão atendeu a uma representação do candidato a deputado estadual Tiago Botelho (PT). O panfleto, intitulado “Você Decide”, apresentava expressões como “A FAVOR DO PCC”, “NARCOTRÁFICO” e “BANDIDO SOLTO” em referência ao campo político adversário.
O magistrado considerou, em análise preliminar, que a propaganda associava adversários ao crime organizado sem fundamento factual suficiente. A distribuição foi suspensa sob pena de multa, inicialmente limitada a R$ 10 mil.
Na mesma semana, o enteado da candidata estava preso em uma investigação sobre o desvio de drogas apreendidas por agentes públicos.
Questionada sobre o caso, Vivi afirmou que não havia criado Douglas e que ele deveria responder pelos próprios atos caso fosse considerado culpado. “Não se trata de um filho meu, não é alguém que eu criei”, declarou à época.
Desvio de cocaína apreendida abastecia traficantes
A Operação Infiltrados foi deflagrada em 24 de setembro pelo Gaeco, com apoio das corregedorias das forças de segurança de Mato Grosso do Sul. Foram expedidos 24 mandados de prisão preventiva, dois de prisão temporária e 38 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Terenos.
Segundo o Ministério Público, a investigação começou em outubro de 2025, a partir de provas obtidas em outras operações. Os investigadores identificaram um esquema no qual policiais desviavam drogas apreendidas, especialmente cocaína, para devolvê-las ao mercado ilegal.
O desvio ocorreria tanto pela omissão de parte dos entorpecentes nos registros de apreensão quanto pela retirada de drogas armazenadas em delegacias. O material seria posteriormente repassado a traficantes.
O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa também apareceu entre os investigados da operação, que atingiu policiais civis, militares e penais.
Nova operação investiga esquema de R$ 500 milhões
Na Operação Ifrit, deflagrada nesta quarta-feira pela PF em conjunto com a Receita Federal, o alvo é uma organização criminosa transnacional que teria movimentado mais de R$ 500 milhões em aproximadamente dois anos, utilizando empresas de fachada, contas de terceiros e negócios simulados.
A investigação aponta que o grupo atuava desde pelo menos 2018, principalmente na fronteira entre Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai.
Foram expedidos 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e um de prisão temporária em sete estados. Três policiais civis também tiveram o afastamento de suas funções determinado pela Justiça.
Além do tráfico internacional de drogas e armas, a organização é investigada por lavagem de dinheiro, sequestros, torturas, atentados e homicídios. Drogas provenientes de países como Bolívia, Peru e Paraguai abasteceriam o mercado brasileiro e rotas destinadas à Espanha e a Portugal.
A investigação oficial do Ministério Público descreve o funcionamento do esquema de desvio de entorpecentes apurado na primeira operação.
A Fórum também noticiou outras investigações da PF sobre a participação de agentes públicos em organizações criminosas.
Até o momento, não foram apresentadas provas de participação de Vivi Tobias, Flávio Bolsonaro ou Gustavo Gayer nos crimes investigados. A ligação identificada é familiar e eleitoral. As suspeitas contra Douglas Tobias continuam sujeitas à apuração judicial, sem condenação definitiva informada.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/desvio-de-cocaina-enteado-pl/

