Diretor de ‘Dark Horse’ diz que custos foram ‘ridiculamente inflados’; explicação abre novas contradições

O diretor estadunidense Cyrus Nowrasteh publicou nesta quinta-feira (10) na rede social X que os valores divulgados como custo de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, estão “ridiculamente inflados” por incluírem projeções de marketing. A declaração foi apagada após repercussão, mas prints continuam circulando e chegaram ao centro do debate sobre o financiamento do filme, investigado pela Polícia Federal em inquérito no STF por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, com foco na atuação do senador Flávio Bolsonaro na captação de US$ 24 milhões junto ao banqueiro Daniel Vorcaro.

Nowrasteh reagiu a uma comparação publicada pelo jornal O Globo entre o orçamento atribuído a Dark Horse e os custos de filmes vencedores do Oscar, como “Anora”, “Parasita”, “Moonlight” e “A Forma da Água”, todos com produção abaixo de US$ 24 milhões. Para o diretor, os números divulgados misturam gastos efetivos de produção com projeções de marketing e publicidade. “Os números sendo divulgados para o custo do filme são ridiculamente inflados. Eles incluem custos projetados de marketing para Dark Horse“, escreveu. Nowrasteh acrescentou que, nos Estados Unidos, produção e divulgação são contabilizadas separadamente, e afirmou que o custo real do filme foi inferior ao da maioria dos títulos usados na comparação.

Reprodução/X

O post foi apagado após a repercussão, sem que o diretor tivesse informado o valor real gasto na produção. Ao afirmar que o custo ficou abaixo da maioria, “se não de todos” os filmes da lista, Nowrasteh deixou no ar uma cifra potencialmente inferior a US$ 1,5 milhão, orçamento de “Moonlight”, o menor da relação.

Na noite desta sexta-feira (11), o diretor fez uma nova publicação sobre o assunto na rede X:

“Muitos no Twitter tentaram distorcer meu comentário. Apenas para esclarecer: a comparação de custos que a imprensa brasileira tem feito é falha. Nos EUA, os orçamentos de produção são reportados sem os custos de marketing. A cifra de ‘Dark Horse’ citada na cobertura jornalística, no entanto, já inclui marketing. Comparar uma cifra de produção mais marketing contra custos de produção sozinhos é simplesmente equivocado”.

https://x.com/CyrusNowrasteh/status/2098512449490301284

Investigação da PF sobre o financiamento

A declaração do diretor ocorre em meio à Operação Make Up, deflagrada nesta mesma quinta-feira (10) pela Polícia Federal com mandados de busca e apreensão cumpridos contra o deputado federal Mario Frias e a produtora Karina Gama. O inquérito corre no STF, autorizado pelo ministro André Mendonça em 22 de julho, e apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no financiamento do filme.

Flávio Bolsonaro é investigado por sua atuação direta nas tratativas com Daniel Vorcaro. Mensagens, ligações e registros de encontros no celular de Vorcaro indicaram participação do senador na solicitação de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para bancar a produção.

A Polícia Federal também questiona a viabilidade econômica do projeto. De acordo com a análise do plano de negócios feita pela PF, as projeções de faturamento de Dark Horse variavam entre US$ 45 milhões (cenário pessimista) e US$ 100 milhões (cenário otimista), valores classificados pelos investigadores como “totalmente fora da realidade do mercado audiovisual brasileiro”. O maior sucesso de bilheteria nacional de todos os tempos, “Minha Mãe é uma Peça 3”, arrecadou cerca de US$ 30 milhões. A meta mais modesta do filme de Bolsonaro já superaria esse recorde.

Contradições e implicações

A justificativa de Nowrasteh sobre a separação entre produção e marketing não se sustenta quando confrontada com a prática do setor no Brasil. A própria Ancine trata produção e comercialização como etapas e orçamentos distintos, contrariando a afirmação do diretor de que “no Brasil” os dois custos seriam somados. Além disso, a comparação feita pelo O Globo já utilizava orçamentos de produção dos filmes vencedores do Oscar, sem incluir gastos de marketing e distribuição. A base da comparação, portanto, já era de custos de produção, o que esvazia o argumento central de Nowrasteh.

A contradição se aprofunda quando se observa o áudio enviado por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro. Ao cobrar os recursos, o senador não mencionou despesas de divulgação: falou em pagamentos atrasados e no risco de perder “ator”, “diretor” e “equipe”. A narrativa de Flávio não dialoga com a versão do diretor sobre custos inflados por marketing.

Para a PF, o conjunto de inconsistências, projeções de bilheteria irreais, valores solicitados sem correspondência com o custo declarado de produção e movimentações financeiras atípicas, sustenta a suspeita de que Dark Horse pode ter funcionado como fachada para um esquema de triangulação de capital. A declaração do próprio diretor, ao negar os valores sem explicar para onde foram os recursos captados, reforça, involuntariamente, as dúvidas que a Operação Make Up busca responder.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/diretor-dark-horse-custos-inflados/