O Peru vota neste domingo para eleger seu nono presidente em uma década, com eleitores cansados da criminalidade aparentemente inclinados a prolongar a onda de governos conservadores que varre a América Latina.
Da Amazônia aos Andes, cerca de 27 milhões de peruanos são obrigados a votar em uma disputa que inclui um magnata da mídia, a filha de um autocrata e um ex-prefeito linha-dura que se compara a um porco de desenho animado.
“Eu não votaria em ninguém. Estou muito decepcionada com todos no poder”, disse à AFP a comerciante de roupas Maria Fernandez, de 56 anos.
“Fomos governados apenas por corruptos e ladrões.”
Os eleitores irão marcar cédulas com quase meio metro de comprimento, que apresentam impressionantes 35 candidatos à presidência.
Horas antes da abertura das urnas, muitos eleitores ainda estão indecisos e descrentes.
Pesquisas pré-eleitorais mostram que nenhum candidato ultrapassa 15% das intenções de voto, muito abaixo dos 50% necessários para vencer no primeiro turno. Salvo surpresa, um segundo turno em junho é praticamente certo.
Candidatos conservadores dominam — segundo o instituto Ipsos, há apenas um candidato de esquerda entre os cinco primeiros, o ex-ministro do Comércio e Turismo Roberto Sanchez.
Candidatos de direita têm tentado se superar com promessas extremas, como matar assassinos de aluguel e prender delinquentes em prisões na selva cercadas por cobras.
Na última década, a taxa de homicídios no Peru mais que dobrou.
E o número de casos de extorsão registrados pela polícia peruana saltou mais de oito vezes, de 3.200 para 26.500 por ano — e esse número provavelmente ainda não representa o total real.
Nome conhecido
Na véspera da votação, a favorita Keiko Fujimori disse à AFP que irá “restaurar a ordem” em seus primeiros 100 dias e que pretende formar uma frente unificada com líderes conservadores recentemente eleitos na Argentina, Chile, Equador e Bolívia.
“Vamos pedir poderes especiais — poderes para modernizar delegacias e para que as Forças Armadas nos ajudem a controlar as prisões”, afirmou em Lima.
“As Forças Armadas participarão, ao lado da Polícia Nacional, do controle das fronteiras. Vamos expulsar cidadãos sem documentação”, disse, ecoando políticas duras que vêm ganhando espaço político nas Américas.
Esta é a quarta tentativa de Fujimori de chegar à presidência. Em campanhas anteriores, ela se distanciou parcialmente do legado de seu pai, o ex-presidente peruano Alberto Fujimori.
Seu governo reprimiu uma sangrenta insurgência de esquerda nos anos 1990.
A Justiça concluiu que ele comandou esquadrões da morte e foi culpado por crimes contra a humanidade, suborno e desvio de recursos. Ele passou 16 anos na prisão.
Desta vez, Fujimori tem se apoiado na crescente nostalgia pelo estilo autoritário de liderança de seu pai.
“Acredito que o tempo e a história estão dando ao meu pai o lugar que ele merece”, disse.
Sinalizando planos de estreitar relações com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Fujimori afirmou: “Meu papel, se eleita presidente, será incentivar os Estados Unidos a voltarem a participar de forma mais ativa”.
Ela enfrenta o desafio do ex-prefeito de Lima Ricardo Belmont, de 80 anos, que, apesar de já ter governado a capital por cinco anos, se apresenta como um outsider.
Ele cresceu nas pesquisas recentemente graças a uma grande base de seguidores no TikTok.
“Ele está conquistando votos da esquerda à direita, como o Pac-Man”, disse Patricia Zarate, do Instituto de Estudos Peruanos.
Também disputam a eleição o comediante de TV Carlos Alvarez e Rafael Lopez Aliaga, ex-prefeito de Lima de extrema direita, que prometeu “caçar” venezuelanos e se autodenomina “Porky”.
O sociólogo David Sulmont disse à AFP que as eleições mostram “uma grande desconexão” entre a população e o que os políticos estão oferecendo.
O atual presidente interino, Jose Maria Balcazar, que está no cargo há menos de dois meses, está impedido de concorrer.
As urnas abrem às 7h (12h GMT) e fecham às 17h (22h GMT). Sinos de igrejas irão tocar, sinalizando o encerramento da votação e a reabertura de alguns locais religiosos.
A eleição também definirá a composição do Congresso do Peru, que tem sido fundamental na destituição de vários líderes do cargo.
© Agence France-Presse
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/eleicoes-no-peru-cidadaos-vao-as-urnas-para-eleger-o-10o-presidente-em-uma-decada/

