A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), presidida por Paulo Skaf, responsabilizou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva pela nova sobretaxa de 25% recomendada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. A nota foi publicada nesta quinta-feira (16), às 9h03, no site oficial da entidade.
A manifestação reconhece que a medida norte-americana foi tomada unilateralmente e prejudica a competitividade da indústria brasileira. Logo depois, porém, a Fiesp desloca a responsabilidade para o Palácio do Planalto e afirma que a política externa de Lula teria provocado a retaliação comercial.
Segundo a entidade, “ruídos diplomáticos desnecessários”, “críticas personalistas”, “discursos eleitorais” e o “desalinhamento político com Washington” teriam minado mais de 200 anos de relações entre Brasil e Estados Unidos.
“A retaliação comercial poderia ter sido evitada com uma condução técnica e pragmática, como buscou a Fiesp durante as audiências públicas nos EUA e em outras oportunidades no último ano”, afirma a nota oficial da Fiesp.
Skaf chamou a nova cobrança de “pedágio” imposto às exportações brasileiras. O presidente da Fiesp citou ainda a carga tributária e os juros reais no Brasil, mas não dirigiu críticas equivalentes ao governo dos Estados Unidos pela adoção da sobretaxa.
Fiesp omite cinco reuniões do governo Lula com os EUA
A acusação de falta de uma condução “técnica e pragmática” contradiz os registros divulgados pelo próprio governo federal. Em 14 de julho, um dia antes do anúncio norte-americano repercutido pela Fiesp, representantes brasileiros realizaram a quinta reunião de alto nível com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, os encontros começaram em 7 de maio, depois de Lula e o presidente norte-americano decidirem criar um grupo de trabalho dedicado ao diálogo comercial.
Na reunião de 14 de julho, integrantes do MDIC, do Ministério das Relações Exteriores e da assessoria especial da Presidência reiteraram a Jamieson Greer que a sobretaxa recomendada contra o Brasil era injusta.
O comunicado oficial registra que a delegação brasileira contestou tanto a sobretaxa de 25% relacionada à investigação da Seção 301 específica contra o Brasil quanto uma tarifa de 12,5%, ligada a trabalho forçado, aplicável a outras 59 economias.
“Nenhuma das razões apontadas na Seção 301 justificam a aplicação das tarifas recomendadas”, afirmou o MDIC. A pasta acrescentou que, por orientação de Lula, o governo manteve a defesa de um acordo bilateral “mutuamente adequado”.
A Fiesp não cita as cinco reuniões em sua nota. A omissão permite à entidade apresentar a retaliação como consequência direta de discursos do governo brasileiro, sem registrar as negociações mantidas com Washington desde maio.
Paulo Skaf integra o mesmo partido de Tarcísio
O posicionamento da Fiesp ocorre sob o comando de um empresário integrado ao grupo político do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Paulo Skaf filiou-se ao Republicanos em abril de 2022, quando chegou a ser cotado para ocupar a vaga de vice na chapa de Tarcísio ao governo paulista.
Skaf reassumiu a presidência da Fiesp em 1º de janeiro de 2026. Ele havia sido eleito em agosto de 2025, em chapa única, com 99% dos votos válidos, para um mandato até 31 de dezembro de 2029.
Em junho, a Fórum mostrou que Skaf já cobrava uma reação do governo Lula contra a política tarifária de Donald Trump. A reportagem também registrou a atuação do dirigente ao lado de Flávio Bolsonaro contra o fim da escala de trabalho 6×1.
A nota divulgada nesta quinta-feira aprofunda esse movimento. Embora reconheça os prejuízos causados por uma decisão unilateral dos Estados Unidos, a Fiesp concentra o ataque político no governo brasileiro.
Fiesp foi tratada como escritório de Bolsonaro em São Paulo
A utilização política da Fiesp durante as gestões de Skaf não começou com Tarcísio. Em fevereiro de 2020, reportagem de O Globo mostrou que a sede da entidade, na avenida Paulista, funcionava como um escritório informal do governo Jair Bolsonaro em São Paulo.
Segundo a publicação, ministros e integrantes do governo federal utilizavam a estrutura da federação para reuniões e compromissos na capital paulista. Skaf atuava como interlocutor do Palácio do Planalto junto a empresários e lideranças políticas do estado.
O alinhamento era declarado. Em janeiro de 2020, ao responder às críticas sobre a aproximação da entidade com o governo, Skaf afirmou que a Fiesp apoiava Bolsonaro por causa da agenda econômica conduzida pelo então ministro Paulo Guedes.
“Somos a Fiesp, não somos fascistas, somos Bolsonaro”, disse Skaf, segundo reportagem publicada pela Fórum naquele período.
A aproximação provocou reação dentro da própria federação. Em janeiro de 2020, a Fórum registrou críticas de empresários da Fiesp ao que eles classificaram como um “conluio” entre Skaf e Bolsonaro.
Entre os críticos estavam o ex-presidente da entidade Horácio Lafer Piva e o empresário Pedro Passos. Eles questionaram a subordinação da principal representação industrial paulista à agenda política e econômica do governo Bolsonaro.
Fiesp patrocinou projeto militar do governo Bolsonaro
A relação também avançou para projetos do governo. Em janeiro de 2020, a Fórum informou que a Fiesp patrocinaria o projeto de um colégio militar idealizado por Bolsonaro em São Paulo, com valor estimado em R$ 60 milhões.
Em dezembro do mesmo ano, Skaf entregou ao governo federal o projeto do novo colégio militar. O empreendimento foi apresentado como uma colaboração da estrutura ligada à Fiesp com uma das principais bandeiras políticas de Bolsonaro.
O histórico ajuda a explicar o enquadramento adotado agora pela entidade. A Fiesp afirma defender a indústria brasileira, mas transforma uma decisão comercial tomada pelos Estados Unidos em instrumento de cobrança contra Lula, enquanto omite as negociações abertas pelo governo e preserva Trump de uma crítica política direta.
A contradição está registrada na própria nota: a Fiesp define a sobretaxa como uma decisão unilateral que atinge especificamente o Brasil, mas sustenta que a responsabilidade pela retaliação seria do governo brasileiro.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/fiesp-skaf-tarifaco-lula/

