O discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para justificar seu encontro com o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, acaba de esbarrar nos registros oficiais do Portal da Transparência. Uma série de viagens do parlamentar a São Paulo, no exato período em que ele visitou o banqueiro restrito por uma tornozeleira eletrônica e foi lançado pré-candidato à Presidência, foi integralmente custeada com dinheiro público.
O quebra-cabeça que liga verba parlamentar, um banqueiro sob investigação e os bastidores políticos do PL foi montado a partir de frentes complementares de apuração. O uso de dinheiro público logo após a soltura de Vorcaro foi revelado pelo jornalista Flávio VM Costa, do ICL Notícias. Já a confirmação de que a visita ocorreu na mesma semana do lançamento de sua pré-candidatura foi trazida pelo colunista Igor Gadelha, do Metrópoles. A Revista Fórum checou e cruzou o histórico completo das passagens emitidas pelo Senado Federal.
A cronologia do “tour” bancado pelo contribuinte
A sequência de fatos expõe uma linha do tempo politicamente sensível. Entre o final de novembro e o início de dezembro de 2025, o contribuinte brasileiro pagou mais de R$ 11 mil para que Flávio Bolsonaro se deslocasse entre Brasília e São Paulo. A maratona de voos coincide milimetricamente com a agenda de Vorcaro e os atos políticos do senador:
- 28 de novembro de 2025: A Justiça manda soltar Daniel Vorcaro, impondo o uso de tornozeleira eletrônica e proibição de deixar o estado de São Paulo. No mesmo dia, é comprada a primeira passagem de Flávio.
- 29 de novembro de 2025: Flávio faz um “bate-volta” de Brasília para Congonhas (SP). O voo de ida (Latam) e o de volta (Azul) custaram R$ 2.540,09 à Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAPS).
- 01 e 02 de dezembro de 2025: O senador retorna a São Paulo para participar do podcast Flow. Voos de ida e volta custam mais R$ 2.919,29 aos cofres públicos. No dia 2, de volta a Brasília, ele visita o pai, Jair Bolsonaro, então preso na Papudinha.
- 04 e 05 de dezembro de 2025: Flávio faz nova viagem a São Paulo (R$ 5.787,29 na cota do Senado). Segundo fontes ouvidas pelo Metrópoles, foi no fim da tarde do dia 4 que o encontro com Vorcaro aconteceu. No dia 5, Flávio é oficialmente anunciado como presidenciável pelo PL.
Ainda em dezembro, no dia 15, o parlamentar faria mais uma viagem a São Paulo bancada pelo Senado, no valor de R$ 2.314,77.
A contradição: dinheiro público para negócio privado?
O encontro ganhou peso de escândalo não apenas pela figura do interlocutor, mas pela justificativa apresentada pelo próprio Flávio Bolsonaro. Na última terça-feira (19), em pronunciamento no Congresso, o senador admitiu ter ido até Vorcaro pelo fato de o banqueiro estar impedido pela Justiça de sair de São Paulo.
“Fui, sim, ao encontro dele. Ele estava restrito e não podia sair do estado de São Paulo, então fui até ele. Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história”, declarou Flávio Bolsonaro.
A “história” à qual o senador se refere é a negociação, revelada inicialmente pelo The Intercept Brasil, em que Vorcaro se comprometeu a repassar R$ 134 milhões para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a eleição de Jair Bolsonaro. Desse total, ao menos R$ 61 milhões teriam sido pagos no início de 2025.
A admissão de Flávio cria um paradoxo legal e ético: se a visita tinha como objetivo encerrar um acordo de financiamento cinematográfico privado , um negócio de família, por que o deslocamento para São Paulo naquele período foi viabilizado pela cota de passagens aéreas do Senado Federal, destinada exclusivamente à atividade parlamentar?
Silêncio sobre os custos
Questionado pelo ICL Notícias se o contribuinte arcou com as despesas de locomoção para um encontro de caráter estritamente privado com um banqueiro acusado de lavagem de dinheiro e organização criminosa, o senador não respondeu diretamente.
Ao Metrópoles, a assessoria do parlamentar limitou-se a dizer que “todas as explicações sobre esse tema já foram dadas” e que a prestação de contas encerraria o assunto. A Fórum já havia mostrado que Flávio tentava isolar politicamente o caso, limitando sua relação com o ex-controlador do Master apenas ao financiamento do filme.
Hoje, a situação de Daniel Vorcaro é ainda mais delicada do que na época da visita de Flávio. O banqueiro voltou a ser preso no dia 4 de março de 2026, por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), sob a alegação de risco de interferência nas investigações. Atualmente, ele negocia um acordo de delação premiada que assombra a cúpula do bolsonarismo.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-passagem-master/

