Numa ostensiva demonstração de alinhamento e subserviência aos interesses de Washington, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, utilizou sua agenda nos EUA para desferir ataques agressivos à diplomacia brasileira e propor uma guinada radical na política externa do país. Durante uma transmissão ao vivo em suas redes sociais, o parlamentar de extrema direita acusou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ser um “lambe-botas da China” e anunciou que vai sugerir formalmente à administração de Donald Trump a ressurreição da Área de Livre Comércio das Américas, a famigerada Alca, projeto de hegemonia comercial norte-americana que dominou os debates nos anos 1990 e 2000 e parecia definitivamente enterrado.
Adotando uma postura que mistura a busca por palanque eleitoral com a capitulação diplomática, Flávio justificou sua viagem a Washington como um esforço para blindar o mercado nacional. “Vim [aos EUA] proteger o Brasil das tarifas e também do Lula. Todo mundo tá vendo o vexame que o Lula tá sendo na arena internacional, alguém que a todo momento ataca os EUA, faz questão de dizer que é antiamericano”, disparou o senador. Segundo o filho 01 do ex-presidente condenado, a atual gestão sabota as relações comerciais bilaterais por amarras ideológicas. “Ele [Lula] coloca a ideologia acima dos interesses do povo brasileiro, é isso que ele está fazendo. A todo momento lambe as botas da China e taca pedra nos EUA”, criticou.
Pretexto das tarifas e o lobby em Washington
A ofensiva de Flávio Bolsonaro ocorre em meio a um momento de forte fricção comercial. Na última terça-feira (7), o senador participou de uma audiência pública no Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), órgão que conduz uma investigação comercial contra o Brasil e propôs a aplicação de um tarifaço de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Com uma recomendação definitiva do órgão prevista para o próximo dia 15 de julho, o parlamentar alegou que os bastidores em Washington já dão como certa a sobretaxa, o que o motivou a estender sua permanência na capital norte-americana para reuniões de teor não detalhado. “Cabia a mim ali fazer uma defesa técnica e também política, eu fiz a defesa técnica e tentando os argumentos que vão sensibilizar o governo americano”, justificou.
No entanto, o que era para ser uma agenda de contenção de danos econômicos transformou-se em uma plataforma para tentar ressuscitar o fantasma da Alca sob uma nova roupagem. Flávio sugeriu a criação de uma zona de livre comércio continental que chamou de Afta (Americas Free Trade Agreement). Para embasar a proposta, ele usou como espelho o USMCA, o acordo que substituiu o antigo Nafta entre EUA, México e Canadá, omitindo, contudo, que o próprio Donald Trump é um crítico feroz do tratado e acaba de acionar um processo de revisão anual que pode levar à sua extinção em dez anos.
“Eu pretendo juntar minha parte técnica para falar o seguinte: não tem o Nafta? […] Eles apenas mudaram a sigla para USMCA, mas continua sendo a essência. A gente pode cortar essa letrinha N e passar a usar o Afta, o Acordo de Livre Comércio das Américas. Aonde o Brasil pode sim incluir. As nossas economias, EUA e Brasil, são complementares”, defendeu o senador, que ainda propôs incluir no pacote a Argentina do ultraliberal Javier Milei.
Ironia histórica e a volta do fantasma da submissão
A tentativa de Flávio Bolsonaro de se antecipar aos desejos da Casa Branca esbarra em uma ironia histórica que expõe o amadorismo da iniciativa. Na década de 1990, quando os estrategistas norte-americanos desenharam o bloco econômico para estender sua influência do Alasca à Terra do Fogo, o acrônimo originalmente pensado era exatamente “Afta”. O nome foi sumariamente descartado pelos próprios negociadores dos EUA após reportagens da imprensa internacional, como o Los Angeles Times, alertarem que o termo, em português e espanhol, associava-se diretamente a feridas bucais e à febre aftosa, um tema catastrófico e de extrema sensibilidade para países exportadores de carne, como o Brasil.
Ao tentar reabrir uma agenda de concessões unilaterais que foi amplamente combatida pela soberania nacional no passado, o pré-candidato de extrema direita demonstra que a tônica de sua política externa repousa na submissão cega. Sob o pretexto de combater uma suposta influência chinesa, o grupo político sinaliza que o plano para o futuro do Brasil é abrir mão de sua autonomia comercial e recolocar o país na posição de quintal econômico de Washington.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-recriar-alca-trump-lider-china/

