Após vitimização de Flávio Bolsonaro, bolsonaristas reciclam ataques às urnas eletrônicas

Flávio Bolsonaro virou o novo pretexto para a base bolsonarista retomar ataques às urnas eletrônicas. Após o senador do PL se apresentar como vítima de “perseguição” no caso que envolve a produtora de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, perfis alinhados ao bolsonarismo voltaram a questionar o sistema eleitoral, defender voto impresso e insinuar fraude sem apresentar provas.

A ofensiva repete a tática usada por Jair Bolsonaro antes e depois da eleição de 2022: colocar a lisura da votação sob suspeita antes da disputa, preparar a militância para rejeitar eventual derrota e deslocar o debate público para uma falsa tese de fraude.

O caso mais visível partiu de Allan dos Santos, blogueiro bolsonarista foragido dos Estados Unidos e investigado no inquérito das fake news. Em publicação no X, antigo Twitter, ele acionou o Grok, inteligência artificial da plataforma de Elon Musk, para questionar se existe “um sistema forense de auditoria dos votos totalmente independente do TSE”.

https://x.com/allanconta5/status/2061996365132026359

Allan dos Santos aciona Grok contra urnas eletrônicas

A pergunta de Allan dos Santos concentra o núcleo da nova investida bolsonarista contra as urnas eletrônicas. Ele sugere que o sistema brasileiro não permitiria uma “recontagem autônoma dos votos individuais” fora do controle do Tribunal Superior Eleitoral.

A formulação não é nova. Ela reaparece sempre que o bolsonarismo precisa tensionar o processo eleitoral. Antes, o alvo era a candidatura de Jair Bolsonaro. Agora, a narrativa volta a circular no momento em que Flávio Bolsonaro tenta assumir o papel de presidenciável do clã e enfrenta desgaste com o caso Dark Horse.

A Fórum mostrou que Flávio Bolsonaro sugeriu ser alvo de perseguição após operação da Polícia Civil de São Paulo contra a produtora do filme sobre Jair Bolsonaro. A investigação apura suspeita de desvio de dinheiro público em contrato ligado à Prefeitura de São Paulo.

O episódio ampliou uma crise que já atingia o senador. A Fórum também publicou que Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, segundo áudios revelados pelo Intercept, para viabilizar o filme sobre Jair Bolsonaro.

Base de Flávio Bolsonaro repete roteiro de fraude

Levantamento em publicações recentes no X mostra que a narrativa de Allan dos Santos não circula isoladamente. Perfis bolsonaristas passaram a relacionar a defesa de Flávio Bolsonaro com suspeitas sobre urnas eletrônicas, voto impresso e suposta fraude eleitoral.

Em uma das postagens, um perfil afirmou que uma enquete favorável a Flávio seria “igualzinha às urnas eletrônicas” porque o eleitor “vota de um jeito mas é contabilizado de outro”. Em outra, um usuário disse que o Brasil teria “urnas eletrônicas mágicas da democracia” e que Flávio só venceria se não houvesse “falha gigantesca no sistema”.

https://x.com/CristaoEdu/status/2061962612468813832

https://x.com/RobsonM65990545/status/2061960813926060100

Outro perfil pediu uma “campanha forte” por urnas com voto impresso e auditável, associando a pauta diretamente ao slogan “Flávio Bolsonaro presidente 2026”. A publicação resgata o vocabulário clássico do bolsonarismo pós-2022: “urna confiável”, “voto impresso”, “auditoria” e “não podemos esquecer 2022”.

https://x.com/marquessileni/status/2061855826487210009

Também há postagens com maior tração na base bolsonarista que recuperam vídeos antigos sobre voto impresso e supostas vulnerabilidades de urnas estrangeiras para sugerir risco semelhante no Brasil. Uma delas usa a hashtag #VotoImpressoAuditávelJa e aparece em perfil com apoio explícito a Flávio Bolsonaro.

https://x.com/MacieldaPrata1/status/2056440486529798485

Flávio Bolsonaro aparece como novo eixo da velha campanha

O elemento novo é a tentativa de conectar a velha campanha contra as urnas ao momento político de Flávio Bolsonaro. Depois de anos em que Jair Bolsonaro usou ataques ao sistema eleitoral como ferramenta de mobilização, a base agora testa o mesmo repertório em torno do filho do ex-presidente.

Nas publicações verificadas, os grandes nomes institucionais do PL não aparecem, até aqui, liderando a ofensiva contra o sistema de votação. O movimento se concentra em Allan dos Santos e em contas médias da militância digital bolsonarista. Ainda assim, o padrão é claro: a base retoma a suspeição sobre as urnas no mesmo momento em que Flávio Bolsonaro tenta transformar investigações em narrativa de perseguição.

O discurso também aparece nas respostas ao post de Allan dos Santos. Usuários afirmam que “não existem meios de saber para onde vai o voto”, dizem que o eleitor votaria em uma pessoa e outra venceria, classificam as urnas como “fraude” e chamam o sistema usado em 2022 de “eleição da fraude”.

Justiça Eleitoral prevê auditoria das urnas eletrônicas

O ataque bolsonarista omite que o sistema eletrônico de votação é submetido a fiscalização antes, durante e depois das eleições. Segundo a Justiça Eleitoral, há diversas oportunidades de auditoria abertas a entidades fiscalizadoras, partidos, federações, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, Congresso Nacional, Polícia Federal, Controladoria-Geral da União, universidades e organizações da sociedade civil.

A Resolução nº 23.758/2026 do TSE trata dos procedimentos de fiscalização e auditoria do sistema eletrônico de votação. A norma altera regras da Resolução nº 23.673/2021, que disciplina a verificação dos sistemas eleitorais, a conferência de autenticidade dos programas e os testes realizados no processo de votação.

Entre os mecanismos estão a abertura do código-fonte, o Teste Público da Urna, a lacração dos sistemas, a verificação de autenticidade, o Registro Digital do Voto, os boletins de urna e o Teste de Integridade. O TSE afirma que as auditorias dos sistemas eleitorais ocorrem antes, durante e depois das eleições.

No Teste de Integridade, urnas preparadas para a eleição são sorteadas ou escolhidas em cerimônia pública na véspera do pleito. No dia da votação, votos preenchidos em cédulas de papel são digitados nas urnas eletrônicas e depois comparados com a apuração feita pelo equipamento. O procedimento é filmado, acompanhado por fiscais e auditado.

Bolsonarismo não apresenta prova de fraude

Apesar da repetição da narrativa, os perfis não apresentam prova de fraude nas urnas eletrônicas. O que circula é a mesma estratégia discursiva usada por Bolsonaro: transformar dúvidas fabricadas em munição política, atacar o TSE e manter a base mobilizada contra o resultado eleitoral antes mesmo de ele existir.

Até agora, não há documento público que comprove uma ação coordenada entre os perfis. O que há é repetição de roteiro, coincidência de vocabulário e retomada simultânea de uma pauta que marcou a ofensiva golpista do bolsonarismo contra o sistema eleitoral brasileiro.

A diferença é que, desta vez, o nome no centro da mobilização não é apenas Jair Bolsonaro. É Flávio Bolsonaro, que tenta se viabilizar para 2026 enquanto a militância digital volta a preparar o terreno para contestar as urnas eletrônicas.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-urnas/