Flávio Bolsonaro teve voos para Europa pagos por bet de Willer Tomaz, investigado pela fraude no INSS

A Polícia Federal investiga o senador Flávio Bolsonaro (PL) por voos em jato executivo pagos por empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz, investigado na Operação Sem Desconto por suspeita de repasses com recursos desviados do INSS. Ao menos três trechos de viagem entre Portugal e França, em abril e maio de 2025, foram contratados por meio da Cathedral, offshore registrada na Ilha da Madeira e única acionista da Rede Loto, empresa de apostas de Willer. Além dos voos, documentos extraídos do iCloud de Willer, obtidos pela PF, apontam Flávio Bolsonaro como “usuário master” de uma conta bancária de outra offshore do advogado, a Alcazar Holdings, levantando a hipótese de participação societária de fato do senador em estrutura ligada à propriedade de um jatinho.

PF investiga voos de Flávio Bolsonaro pagos por empresa de investigado

A Polícia Federal apura que a Cathedral Holdings S.A., empresa registrada na Ilha da Madeira e única acionista da Rede Loto, contratou ao menos três trechos de viagem em jato executivo para Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz em 2025. Os canhotos das passagens foram encontrados no computador de Willer durante as investigações. A Cathedral tem como sócios o próprio Willer, sua esposa Flávia Oliveira Corrêa, sua irmã e Jorge Barbosa Dias, além de Igor Mateus Barbosa Moura, parente de Dias.

Willer Tomaz é investigado por suspeita de realizar repasses financeiros com recursos obtidos em fraudes contra a Previdência Social, no escândalo do INSS. Seu sócio na Rede Loto, Jorge Barbosa Dias, foi processado por jogo ilegal e lavagem de dinheiro em 2022 e absolvido em 2023.

Os documentos da PF registram uma viagem de Lisboa a Nice, na França, em 11 de abril de 2025, contratada junto à empresa de táxi aéreo NetJets. Em 23 de maio de 2025, Flávio e Willer partiram de Cascais, a cerca de 30 quilômetros de Lisboa, novamente para Nice, acompanhados de familiares, antes de embarcarem em novo voo para Paris.

Relação com offshores e indícios de participação econômica

A PF encontrou indícios de que Flávio Bolsonaro pode ter mantido participação econômica ou societária de fato na Alcazar Holdings, offshore sediada na Ilha da Madeira que tinha Willer Tomaz como único sócio formal. A empresa detinha 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., proprietária do jatinho Embraer Legacy 650 de matrícula PP-NLR, utilizado pelo senador em janeiro de 2025. Entre os demais cotistas da aeronave estava a Prime You, empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O relatório da PF foi produzido a partir de documentos extraídos do iCloud de Willer Tomaz no âmbito da Operação Sem Desconto. Esses documentos mostram que Flávio Bolsonaro figurava na documentação de abertura da conta da Alcazar Holdings no Santander com o perfil de “usuário master”, modalidade que permite nível elevado de acesso e gerenciamento das operações bancárias. Para os investigadores, esse registro levanta a hipótese de que o senador exercesse algum tipo de participação econômica ou societária de fato na offshore, mesmo sem aparecer formalmente em seu quadro societário.

As defesas e o contexto da Rede Loto

A defesa de Willer Tomaz afirma, em nota, que os pagamentos das viagens foram feitos pessoalmente pelo advogado, não pela empresa, e que se tratou de “passeios de lazer entre amigos e suas famílias, custeados por Willer e sem contrapartida de qualquer natureza.” A nota repudia ainda a associação do nome de Willer a práticas ilícitas e afirma que a Cathedral é a única sócia da Rede Loto, sem participação de investigados por jogo ilegal. Flávio Bolsonaro, por sua vez, diz que sua relação com Willer é “exclusivamente de amizade” e que “associar essa afinidade pessoal a suposições de irregularidades é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos.”

O histórico da Rede Loto, porém, acrescenta camadas ao caso. A empresa obteve licença de operação da Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro) em 25 de maio de 2023, tornando-se a primeira bet autorizada a funcionar no Brasil. O despacho foi assinado por Hazenclever Cançado, então presidente da autarquia, cuja indicação para o cargo foi feita por Flávio Bolsonaro, segundo pessoas a par dos ritos da Loterj. A documentação entregue pela Rede Loto à Loterj não identificava os acionistas da Cathedral porque as regras estaduais vigentes à época não exigiam a informação dos beneficiários finais nos moldes da legislação federal, o que permitiu que a estrutura societária offshore permanecesse opaca durante o processo de licenciamento.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-voos-europa-bet-willer-tomaz/