Flávio Dino enquadra Câmara e dá 48h para explicação sobre sumiço de Mário Frias

O cerco judicial em torno do nebuloso financiamento da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro ganhou contornos de enredo de espionagem e fuga internacional. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), enquadrou a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (20) e deu um ultimato de 48 horas para que a Casa explique o paradeiro e os detalhes da viagem ao exterior do deputado federal Mário Frias (PL-SP).

O parlamentar bolsonarista virou alvo de uma verdadeira caçada por parte de oficiais de Justiça, que há mais de um mês tentam, sem sucesso, intimá-lo a prestar esclarecimentos no STF. Enquanto o Judiciário bate à sua porta, Frias encontra-se no Oriente Médio sob a alegação de cumprir uma suposta “missão internacional” no Reino do Bahrein, uma justificativa que, agora se sabe, não possui qualquer amparo oficial da própria Câmara.

Em ofício contundente enviado ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), Flávio Dino exigiu a prestação imediata de esclarecimentos detalhados sobre os prazos, custos e pagamentos referentes ao deslocamento do deputado. A pressa do ministro tem justificativa: o STF investiga o escândalo do repasse de R$ 2 milhões em emendas parlamentares carimbadas por Mário Frias para uma ONG ligada diretamente à produtora do filme Dark Horse, obra que exalta a trajetória de Bolsonaro e que conta com o financiamento bilionário do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O drible do endereço fantasma e as missões clandestinas

A paciência do STF esgotou-se após uma sucessão de manobras e desencontros que expuseram a tática de evasão do parlamentar. A revelação mais escandalosa veio à tona nesta terça-feira (19): o endereço residencial fornecido oficialmente pela Câmara dos Deputados ao Supremo para que Mário Frias recebesse a intimação simplesmente não pertence ao deputado há dois anos.

Ao procurarem o gabinete de Frias em Brasília para tentar notificá-lo pessoalmente, oficiais de Justiça foram informados pelos funcionários de que o chefe estava fora do país e que “não havia qualquer previsão de data para o seu retorno”. Diante do drible, o mandado foi devolvido a Flávio Dino sem cumprimento.

A justificativa de Frias para o sumiço é uma suposta agenda institucional. Ele viajou na semana passada para o Bahrein, em uma visita organizada pela embaixada do país, sob o pretexto de “fortalecer as relações bilaterais” com o Brasil. No entanto, o roteiro do parlamentar esconde uma ilegalidade administrativa: a Câmara confirmou que Mário Frias apresentou dois pedidos de missão internacional “sem ônus” para o Erário, o primeiro para o Bahrein (de 12 a 18 de maio) e o segundo para Dallas, nos EUA (de 19 a 21 de maio).

A fraude burocrática

Nenhum dos dois pedidos de viagem internacional feitos por Mário Frias foi autorizado pela presidência da Câmara. Na prática, o deputado abandonou os trabalhos legislativos para fazer viagens clandestinas, usando a estrutura diplomática para fugir do raio de alcance do oficial de Justiça.

Triangulação financeira: emendas para a própria produtora

O “sumiço” estratégico de Mário Frias começou a ser desenhado no dia 21 de março, quando Flávio Dino determinou que ele se manifestasse em cinco dias sobre uma ação protocolada pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP). A parlamentar pede a apuração rigorosa de um esquema de favorecimento com dinheiro público. Frias, que assina como produtor executivo de Dark Horse, teria destinado R$ 2 milhões de suas emendas para o Instituto Conhecer Brasil.

A ONG é presidida por Karina Ferreira da Gama, que vem a ser ninguém menos do que a dona da produtora do filme sobre Jair Bolsonaro. Os investigadores suspeitam que o repasse foi uma manobra de autossustento para inflar os cofres do projeto cinematográfico com dinheiro do contribuinte.

Desde o dia 14 de abril, o STF registra tentativas frustradas de notificar o ex-secretário de Cultura. Oficiais de Justiça foram três vezes ao seu gabinete e voltaram de mãos vazias. Na última sexta-feira (15), diante do rastro de indícios e do flagrante conflito de interesses, Dino abriu formalmente uma apuração preliminar para investigar a conduta de deputados do PL que estão irrigando ONGs ligadas à produção de Dark Horse com dinheiro de emendas.

Ao dar 48 horas para a Câmara dos Deputados abrir os registros de Mário Frias, Flávio Dino manda um aviso claro ao bloco bolsonarista: as regalias do parlamento não servirão de escudo para esconder investigados e nem o Bahrein é longe o suficiente para blindar os operadores do filme de Bolsonaro do alcance da lei.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-dino-camara-48h-sumico-mario-frias/