O verniz de distanciamento entre a produtora da cinebiografia “Dark Horse” de Jair Bolsonaro e os cofres da Prefeitura de São Paulo derreteu. Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG que abocanhou um contrato de R$ 108 milhões na gestão Ricardo Nunes (MDB), não é apenas uma parceira do poder público. Em dezembro de 2022, ela já posava sorridente na diplomação do deputado federal Mário Frias (PL-SP). O registro, resgatado nesta quarta-feira (20) pelo vereador Nabil Bonduki (PT-SP), fornece o elo visual que faltava ao escândalo Dark Horse.
Na imagem, publicada originalmente por Juliana Frias, esposa do parlamentar, Karina divide o quadro com o núcleo duro bolsonarista. A legenda escolhida para celebrar a vitória nas urnas é reveladora: um agradecimento à “equipe”. A palavra fulmina a tese de que a presidente do ICB, e sócia da GoUp Entertainment, era uma figura distante de Frias, apontado como roteirista e produtor-executivo do longa-metragem.
“Surgiu a foto da dona da ONG e produtora do filme sobre Bolsonaro na diplomação de Mário Frias”, cravou Bonduki.
De “equipe” na diplomação aos milhões na capital
O flagrante fotográfico expõe uma cronologia indigesta. Karina já figura como a peça central na teia de empresas e entidades investigadas. Como a Revista Fórum revelou, ela atua como a ponte operacional entre o dinheiro público empenhado pela gestão Nunes, a engrenagem empresarial do filme bolsonarista e o gabinete de Mário Frias.
O salto patrimonial do ICB na capital paulista impressiona. Em 20 de junho de 2024, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) selou o Termo de Colaboração nº 01/SMIT/2024 com a entidade (CNPJ 01.718.634/0001-47). O documento oficial do contrato, que traz a assinatura de Karina da Gama como dirigente, repassa R$ 108.000.000,00 sob a justificativa de instalar 5 mil pontos de Wi-Fi público em comunidades carentes.
A imagem que encurrala a Prefeitura
A fotografia capturada em 2022 não é, isoladamente, o recibo de um desvio, mas implode a blindagem retórica do prefeito Ricardo Nunes. O que até ontem aparecia diluído em CNPJs cruzados e aditivos contratuais agora tem rosto e crachá: a futura dona da ONG milionária já operava no ambiente político do deputado muito antes do negócio com o município ser sacramentado.
O histórico de Frias agrava o quadro. A Fórum mapeou como a produtora de Dark Horse foi irrigada por emendas do próprio parlamentar. Com o resgate da foto, o “acaso” de Karina assumir os pontos de internet em São Paulo vira um fio desencapado para a prefeitura paulistana.
Notas fiscais, GoUp e o cerco fechando
A sobreposição de chapéus de Karina é o motor das investigações. Ao mesmo tempo em que o ICB expõe em seu site a vitrine do Wi-Fi Livre SP, ela movimenta os bastidores da GoUp Entertainment, produtora intrinsecamente ligada ao projeto cinematográfico.
As cifras sob escrutínio não param na Secretaria de Inovação. Em outra frente da apuração, a reportagem comprovou que a ONG atrelada ao filme bolsonarista emitiu R$ 1,2 milhão em notas fiscais, acendendo o alerta de órgãos de controle sobre o verdadeiro fluxo de caixa da rede que orbita a película.
As digitais do clã Bolsonaro e o fantasma do STF
A captação de recursos para Dark Horse ultrapassou a fronteira da simples militância e assumiu contornos de uma sofisticada operação política. A presença da família do ex-presidente no controle das verbas é direta: a Fórum revelou um contrato que confere a Eduardo Bolsonaro poder sobre os recursos captados para a obra, dividindo o comando das finanças com Mário Frias.
Enquanto os milhões circulam, o silêncio impera no gabinete do PL. O Supremo Tribunal Federal (STF) tenta, há mais de um mês, intimar Frias para prestar esclarecimentos sobre o repasse a entidades ligadas ao filme. Sem sucesso.
A foto que muda o patamar da investigação
Até a publicação da imagem por Bonduki, a defesa tentava tratar o contrato público de Karina e a produção do filme como mundos paralelos que apenas convergiam por acaso. A fotografia funde as duas linhas do tempo de forma incontestável.
A síntese é demolidora: em 2022, Karina era “equipe” na diplomação de Frias; em 2024, sua ONG sela um acordo de R$ 108 milhões em São Paulo; e logo depois, sua rede empresarial entra na mira como o coração do financiamento de Dark Horse. A pergunta que o Ministério Público e a Câmara Municipal agora precisam responder não é mais se eles se conheciam, mas quem, de fato, opera as chaves do cofre paulistano.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/foto-dark-horse-frias/

