Gilmarpalooza: Greve geral em Portugal pode ofuscar último dia do Fórum de Lisboa

De LISBOA — A pressa habitual que toma conta dos corredores da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL) ganhou contornos de apreensão nesta semana. Enquanto a elite jurídica e política brasileira se reúne para o 14º Fórum de Lisboa, um movimento de paralisação nacional do lado de fora promete fechar as portas dos transportes e testar a resiliência do evento na quarta-feira (3), seu último e decisivo dia.

Apelidado nos bastidores de “Gilmarpalooza”, em referência ao seu organizador e sócio-fundador do IDP, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, o fórum deste ano ostenta o recorde de 450 debatedores inscritos. No entanto, o ápice dos debates sobre “Nova ordem internacional, tecnologia e soberania” coincide exatamente com a greve geral convocada pela Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP). O choque de realidades promete isolar o evento e esvaziar os painéis finais.

O nó nos transportes: Como chegar à FDUL?

A caos começará a ser sentida já na noite desta terça-feira (2). Para os participantes, palestrantes e correspondentes que dependem da malha pública de Lisboa, o cenário para quarta-feira é crítico. Os sindicatos ligados à FECTRANS (Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações) confirmaram paralisação total ou severamente condicionada nos principais eixos da capital.

O Metropolitano de Lisboa emitiu um aviso categórico: não haverá circulação de trens entre as 23h00 de terça-feira e o fim do dia de quarta-feira, com o serviço retornando à normalidade apenas na quinta (4), às 06h30. Os autocarros (ônibus) e elétricos da Carris, além das ligações fluviais da Transtejo Soflusa, também cruzarão os braços. Nem mesmo quem vem de fora da capital escapará: a CP (Comboios de Portugal) prevê fortes perturbações na circulação ferroviária nacional, embora serviços mínimos tenham sido decretados para os trens Alfa Pendular e Intercidades.

Para a organização do Fórum, o fantasma do esvaziamento é real. Companhias aéreas já emitiram alertas sobre possíveis atrasos e cancelamentos no Aeroporto de Lisboa, o que pode antecipar a partida de autoridades brasileiras temerosas de ficarem retidas na Europa.

Por que Portugal vai parar?

A mobilização, anunciada originalmente no Dia do Trabalhador (1º), é uma resposta direta à proposta de reforma laboral do Governo PSD/CDS-PP, liderado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro. Batizado de “Trabalho XXI”, o pacote prevê mais de 100 alterações ao Código do Trabalho com o argumento de “aumentar a produtividade, melhorar salários e adaptar o mercado à economia digital”.

Após o colapso das negociações na Concertação Social, a CGTP avançou com o pré-aviso de greve, classificando as medidas como um “assalto aos direitos” e uma “afronta à Constituição da República Portuguesa”. A proposta já deu entrada na Assembleia da República, mas segue sem data de votação. Esta é a segunda grande paralisação em menos de seis meses no país, a anterior ocorreu em meados de dezembro, sinalizando o acirramento do clima político em solo português.

Bastidores: Menos Autoridades, mais isolamento

A ironia do calendário não passa despercebida. Enquanto painéis discutem o futuro do emprego e os impactos da inteligência artificial na economia, os trabalhadores tradicionais param o país fisicamente.

Nos bastidores do evento, fontes ligadas à organização confirmam que o clima é de reorganização logística de última hora. Esta edição do Fórum de Lisboa já vinha registrando uma presença visivelmente menor de cúpulas do governo federal em comparação a anos anteriores, apenas três ministros de Estado de Brasília desembarcaram, acompanhados por uma forte comitiva do Superior Tribunal Justiça (STJ), com 11 magistrados, e do ministro Alexandre de Moraes, do STF. O ministro Flávio Dino, também do Supremo, precisou desmarcar sua participação em cima da hora após sofre um acidente doméstico e fraturar o pé no domingo (31).

Com hotéis espalhados por diferentes zonas da cidade e o trânsito da capital sob a iminência de um nó histórico devido à falta de metrô e ônibus, a quarta-feira testará se o “selo de qualidade e boas discussões” defendido por Gilmar Mendes conseguirá manter os auditórios cheios ou se as cadeiras vazias ditarão o tom do encerramento.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/gilmarpalooza-greve-geral-portugal-ultimo-dia-forum-lisboa/