Gleisi reage a ímpeto autoritário de Alcolumbre e o desafia: “Instale a CPI do Master”

O plenário da Câmara dos Deputados transformou-se, nesta quinta-feira (30), no epicentro de um dos embates mais ferozes da atual legislatura. Em meio à sessão conjunta do Congresso Nacional, convocada para deliberar sobre o veto do presidente Lula ao projeto da Dosimetria de Penas, a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) rompeu o cerco político imposto pela extrema direita e o Centrão. Em um discurso contundente e frontal, a ex-ministra desafiou abertamente o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), a tirar da gaveta a investigação que tira o sono da oposição: a CPI do Banco Master.

“Instale-se a CPI do Master”, disparou Gleisi, da tribuna, encarando o senador amapaense. A fala atingiu o ponto mais sensível do acordo espúrio que vem sendo costurado nos porões de Brasília. Enquanto Alcolumbre acelera a pauta para reduzir as penas de Jair Bolsonaro (PL) e dos golpistas de 8 de janeiro, ele mantém sob sete chaves o requerimento de abertura da comissão que pretende investigar o que já é considerado o maior escândalo financeiro da História do Brasil.

Acordo do Medo: Dosimetria x Investigação

A manobra de Alcolumbre é de um autoritarismo transparente e inegável. Ao presidir a sessão destinada a aliviar a barra jurídica de quem tentou destruir o Estado Democrático de Direito, o senador agiu como um garantidor dos interesses da extrema direita. Gleisi Hoffmann, contudo, desnudou a engrenagem: para o governo, a sanha em derrubar o veto da dosimetria é a contrapartida de um pacto para engavetar a CPI do Master.

O receio de Alcolumbre não é infundado. A CPI, que já conta com 53 assinaturas, depende apenas de sua leitura em plenário para começar a funcionar. O escândalo envolve a compra nebulosa do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB), operação que já resultou em um rombo bilionário e na prisão do ex-presidente do banco estatal, Paulo Henrique Costa, sob suspeita de recebimento de propina. Se instalada, a comissão colocaria luz sobre o apoio político do governo do Distrito Federal à trama e sobre decisões do Banco Central durante a gestão Bolsonaro.

“Vergonha na biografia”: Embate com Alcolumbre

Durante sua fala, Gleisi classificou a sessão como uma “vergonha para o país” e alertou Alcolumbre sobre o peso histórico de suas decisões. “Vossa Excelência levará essa vergonha na sua biografia”, sentenciou a deputada, vinculando a atuação do senador ao ataque sofrido pelo próprio Congresso em 2023. Para a parlamentar, votar a redução de penas para golpistas é um sinal verde para novas tentativas de ruptura. “É a mesma coisa que dizer: façam de novo”, fustigou.

A petista também vinculou a pressa em votar a dosimetria à derrota sofrida pelo governo na noite anterior, quando o Senado rejeitou Jorge Messias para o STF. Segundo Gleisi, a rejeição foi fruto de um consórcio de interesses que mistura medo de investigações, interesses financeiros do setor bancário e o oportunismo eleitoral da família Bolsonaro.

Caixa-preta do Master e o entorno de Bolsonaro

Ao contrário da oposição, que tenta fugir do debate sobre o tema, Gleisi afirmou que o PT não teme a discussão sobre o Master. Pelo contrário, ela vê na CPI a chance definitiva de expor as vísceras das relações do antigo governo com o sistema financeiro. A deputada cobrou explicações sobre pagamentos de R$ 3 milhões feitos por um cunhado do dono do Banco Master ao próprio Jair Bolsonaro, além do papel do Banco Central na autorização de manobras que levaram o BRB a precisar de um aporte de R$ 8,8 bilhões para não colapsar.

“A democracia permite até os ataques feitos contra o governo, mas não pode servir de abrigo para quem tentou derrubar um presidente eleito”, afirmou a deputada.

Encruzilhada institucional

A fala de Gleisi Hoffmann recoloca o governo Lula no ataque após uma semana de fortes turbulências no Legislativo. Ao amarrar os dois temas, a impunidade do 8 de janeiro e a corrupção no sistema bancário, a deputada forçou o Congresso a uma encruzilhada pública.

O país agora assiste para ver qual crise Alcolumbre prefere sustentar: a vergonha de anistiar golpistas ou o risco de ver aliados graúdos, inclusive ele próprio, serem atingidos pelas revelações de uma CPI que ele tenta desesperadamente evitar. A resposta do senador dirá se o Congresso Nacional ainda serve ao povo ou se tornou-se apenas o escritório de advocacia de uma direita acuada pela Justiça.

 

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/gleisi-reage-alcolumbre-cpi-master/