O Distrito Federal amanheceu neste sábado (28) sob o signo da despedida, e do cálculo político. Ibaneis Rocha (MDB) encerrou seu ciclo à frente do Palácio do Buriti ao assinar sua mensagem de renúncia durante o aniversário de 55 anos de Ceilândia. O movimento, ditado pelo calendário eleitoral, carimba o passaporte do emedebista para a disputa de uma cadeira no Senado, mas deixa para trás um rastro de omissões democráticas e escândalos financeiros que ainda aguardam explicação.
Para cumprir o prazo de desincompatibilização, Ibaneis montou um palco de “legados”, focando na regularização fundiária de Vicente Pires e no reajuste do serviço voluntário para as forças de segurança. No entanto, o tom de “dever cumprido” tenta mascarar os momentos em que o governador quase viu sua carreira política desmoronar no asfalto da Praça dos Três Poderes.
A sombra do 8 de janeiro
Não se pode falar da gestão Ibaneis sem mencionar o abismo de 8 de janeiro de 2023. O alinhamento tácito e total ao extremismo bolsonarista quase lhe custou o mandato. Como comandante das forças de segurança da capital federal, Ibaneis assistiu à tentativa de golpe de Estado em um silêncio perturbador; no auge da invasão, sequer atendeu o telefone.
O episódio rendeu a ele um afastamento temporário do cargo que deveria ser de 90 dias, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, mas que acabou durando 64 dias. Hoje, ao se despedir do GDF para tentar o Senado, Ibaneis busca a imunidade e o palanque federal, mas carrega na bagagem a mancha de quem flertou perigosamente com a ruptura democrática.
O “tombo” bilionário no BRB
Se na política o governador é mestre em disfarçar frentes de escândalo, na economia os números são implacáveis. Em sua última semana no cargo, Ibaneis formalizou um pedido de empréstimo de R$ 4 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para tentar estancar a sangria no Banco de Brasília (BRB).
O banco estatal do DF mergulhou em um trambique financeiro ao adquirir carteiras “podres” e fraudadas do Banco Master, levando o nome de Ibaneis para o centro do furacão. Embora negue conhecimento direto sobre a operação, o agora ex-governador saiu em defesa de Paulo Henrique Costa, ex-presidente da instituição, afirmando que “tem como explicar tudo”. O mercado, contudo, ainda não comprou a explicação para o prejuízo bilionário.
Atos finais e a era Celina Leão
Antes de passar o bastão, Ibaneis cumpriu uma agenda carregada de simbolismos: inaugurou viaduto, participou de missa de ação de graças e assinou decretos de venda direta de imóveis. “A maior regularização fundiária do DF fui eu que fiz”, declarou, tentando fixar uma marca administrativa em meio ao barulho político.
Com a renúncia encaminhada à Câmara Legislativa (CLDF), a vice-governadora Celina Leão (PP) assume o comando interinamente. A posse oficial de Celina como governadora titular está marcada para segunda-feira (30), às 9h.
Ibaneis sai do Buriti, mas o bolsonarismo que o sustentou, e que quase o derrubou, continua sendo sua bússola para as urnas de outubro.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ibaneis-renuncia-ao-gdf-para-disputar-uma-cadeira-no-senado/

