As engrenagens financeiras e operacionais por trás da criação do Instituto Iter, centro de ensino idealizado e fundado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, teriam uma origem bastante controversa para uma entidade deste tipo. É o que mostram as revelações trazidas a público pelo portal Uol indicando que o montante essencial para alavancar o órgão nos seus primeiros meses de funcionamento teve como fonte de financiamento uma grande holding com conexões diretas no setor de mineração e no mercado financeiro. Para ser mais específico, o homem a injetar o dinheiro seria um ex-sócio de Daniel Vorcaro, que já foi indiciado pela Polícia Federal.
De acordo com o ex-ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro (PL) e atual CEO do instituto, Victor Godoy, os recursos aportados pela Cedro Participações serviram inicialmente para bancar as despesas operacionais e de estruturação necessárias para colocar o Iter em marcha. Em declarações prestadas à imprensa, o executivo detalhou que a transação envolveu a assinatura de um contrato de mútuo no valor global de R$ 5,9 milhões assinado em 2024. A justificativa apresentada pela gestão do Iter foi a busca por parcerias estruturadas no mercado corporativo, descartando formalmente o recebimento de doações ou repasses a fundo perdido.
O elo financeiro chama atenção no cenário nacional pelas figuras envolvidas na engenharia do negócio. A Cedro Participações foi criada pelo empresário mineiro Lucas Kallas, investidor com atuação destacada nos segmentos de logística, agronegócio e mineração. O nome do empresário possui histórico de proximidade e parcerias comerciais prévias com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. As pontes entre os dois negócios incluem movimentações societárias cruzadas em empresas de biotecnologia e aportes em gestoras de fundos que mantinham aplicações expressivas em títulos do Banco Master.
Conforme a reportagem do Uol, do montante total acordado entre as partes, cerca de R$ 5 milhões chegaram a ser efetivamente desembolsados para a montagem do centro de estudos. O instrumento jurídico previa originalmente a possibilidade de conversão das dívidas em participação acionária no futuro. Todavia, segundo o comando do Iter, diante da decisão de reestruturar a natureza jurídica do instituto para transformá-lo em uma associação sem fins lucrativos, teve início um processo de liquidação e devolução antecipada do mútuo, com aproximadamente 5,3% do passivo já restituído à empresa investidora.
A posição oficial emitida pela Cedro Participações sustenta que a operação consistiu em uma análise estritamente comercial de oportunidades no ramo educacional, culminando na escolha da entidade como destino para seus investimentos no setor.
O contexto em torno dos personagens, contudo, adiciona camadas de complexidade ao caso. Em junho deste ano, Lucas Kallas tornou-se alvo de indiciamento em inquérito conduzido pelas autoridades policiais sob a acusação de envolvimento em um esquema de mineração clandestina de ferro na região da Serra do Curral, em Minas Gerais. Poucas semanas após a formalização das suspeitas criminais, o empresário desligou-se da presidência do conselho de administração de seu grupo empresarial.
A revelação dos aportes lançados à entidade criada por Mendonça, um integrante da mais alta Corte judicial do país, amplia os debates sobre transparência, a presença de atores investigados no financiamento de projetos privados de autoridades públicas e o emaranhado de relações que permeiam o ambiente corporativo e institucional em Brasília.
Vale lembrar que, Mendonça, como relator do Caso Master no Supremo, acusa o também ministro Alexandre de Moraes de ter recebido milhões de reais de Vorcaro, por meio de um contrato de advocacia com o escritório de sua esposa.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/instituto-mendonca-aberto-dinheiro-socio-vorcaro/


