Intercept publica planilha e fluxo de caixa dos R$ 61 milhões repassados por Vorcaro ao clã Bolsonaro

Ganhou novos e explosivos desdobramentos a investigação que apura as conexões financeiras ocultas entre o sistema bancário e a família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em especial seu filho presidenciável, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em uma nova revelação que está sacudindo Brasília, o site jornalístico The Intercept Brasil mostrou novas provas nesta terça-feira (9), que fulminam a narrativa de aliados que, há semanas, tentavam deslegitimar a série de reportagens Vaza Flávio.

A contraofensiva de desinformação, liderada nas redes sociais por parlamentares bolsonaristas e pelo comentarista Paulo Figueiredo, sustentava que a denúncia carecia de lastro e que os valores divulgados pela imprensa eram contraditórios. No entanto, a publicação dos documentos oficiais joga luz sobre a negociata e comprova que a investigação jornalística sempre foi precisa.

O Intercept demonstronu que nunca houve recuo: a denúncia sempre distinguiu o valor total negociado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro Daniel Vorcaro (US$ 24 milhões, ou R$ 134 milhões na cotação da época) do montante que foi efetivamente pago e rastreado até aqui: US$ 10,6 milhões (o equivalente a R$ 61 milhões), destinados a bancar o filme “Dark Horse”, uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.

O Funding Schedule: Repercussão do mapa do fluxo de caixa

O ponto central da documentação revelada pelo veículo, e que agora passa a ser alvo de escrutínio público, é a planilha interna intitulada “Funding Schedule” (Cronograma de Financiamento). O documento funciona como um verdadeiro diário de bordo da operação, desvelando a regularidade e o planejamento cirúrgico dos repasses.

Os dados publicados revelam que o fluxo de caixa foi estruturado em 14 desembolsos periódicos com valores padronizados, estendendo-se entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. As duas primeiras parcelas foram fixadas em US$ 2 milhõe cada. A primeira delas estava inicialmente prevista para o dia 20 de janeiro de 2025, mas acabou sendo efetivamente paga em 13 de fevereiro. Já a segunda parcela, agendada para 25 de janeiro, foi liquidada no dia 24 de março.

As outras 12 parcelas restantes do cronograma foram estabelecidas no valor fixo de 1,66 milhão de dólares cada. De acordo com os registros da planilha, a primeira desse lote também foi quitada em 24 de março, seguida por outros dois aportes em 25 de abril e mais um em 29 de maio. Ao final de todo esse acompanhamento de depósitos sequenciais, a soma total atinge exatamente os US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) repercutidos pela imprensa.

A reportagem do Intercept expôs ainda mensagens cruciais de 7 de agosto de 2025, nas quais o empresário Thiago Miranda cobra diretamente Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, alertando sobre “Duas em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto”. A resposta imediata do banqueiro, “Segunda fazemos duas”, acendeu o alerta de investigadores, pois sugere que o fluxo de pagamentos continuou ativo e o rombo final pode ser ainda maior.

A triangulação e a rede de operadores evangélicos

A repercussão das mensagens obtidas aponta para uma sofisticada rede de operadores montada para blindar o banqueiro. Meses antes, em 12 de março de 2025, o próprio Daniel Vorcaro havia encaminhado a planilha ao pastor Fabiano Zettel, seu cunhado e operador financeiro, cobrando controle e ordenando: “tem que pagar a segunda e a terceira”.

Zettel, por sua vez, garantiu que iria “para cima do Mineiro, codinome utilizado nas agendas telefônicas para identificar Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à empresa Entre Investimentos e Participações.

O vazamento dessas conversas desmonta as negativas oficiais. Embora Vorcaro e a Entre Investimentos sustentem publicamente que não possuem qualquer vínculo societário ou de controle, os registros de fevereiro de 2025 provam o contrário: o próprio banqueiro sugeriu realizar a operação milionária “via entre, utilizando a empresa como fachada operacional para movimentar os recursos.

O Comprovante SWIFT: A rota do dinheiro até o advogado de Eduardo Bolsonaro

O documento mais contundente repercutido pela investigação é o comprovante de transferência internacional emitido pela rede SWIFT (sistema bancário global de liquidação de transações). Ele materializa o caminho exato percorrido pela primeira parcela do dinheiro. O registro financeiro é datado de 13 de fevereiro de 2025 e confirma oficialmente a remessa líquida de US$ 2 milhões enviada ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado no exterior e que é formalmente controlado por Paulo Calixto, advogado do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Segundo as especificações técnicas do comprovante de liquidação, a operação teve como instituição remetente a empresa Entre Investimentos e Participações Ltda, sendo o pagamento processado por meio do Banco BS2 e destinado a uma conta do Havengate vinculada diretamente ao JPMorgan Chase Bank, nos Estados Unidos. O extrato bancário contém todos os códigos de identificação da transferência, referências da operação e chaves de segurança exigidas pelo sistema financeiro internacional.

A repercussão dos bastidores dessa transferência revela o motivo da triangulação financeira: em 5 de fevereiro, o pastor Fabiano Zettel avisou Vorcaro que a área de conformidade (compliance) e câmbio do próprio Banco Master estava criando severos obstáculos burocráticos para enviar os milhões para o filme no exterior. Para burlar a fiscalização, os operadores decidiram usar a estrutura jurídica da Entre Investimentos.

A confirmação do sucesso da manobra veio no dia 14 de fevereiro, exatas 24 horas após a compensação bancária internacional. Em mensagem direta a Daniel Vorcaro, o pastor Zettel anexou o comprovante SWIFT de US$ 2 milhões e resumiu o sentimento do grupo em uma celebração de uma única palavra: “Filme!”.

O espaço permanece aberto para a manifestação formal dos citados, que até o momento têm evitado dar explicações detalhadas sobre o teor técnico dos documentos apresentados.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/intercept-planilha-fluxo-caixa-61-milhoes-vorcaro-bolsonaro/