Esta sexta-feira 13 em Brasília está se desenrolando sob uma atmosfera densa, mas estranhamente silenciosa. A notícia da internação do ex-presidente condenado Jair Bolsonaro (PL), e a posterior entrada dele numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI), diagnosticado com pneumonia bilateral, disparou os alertas protocolares da política. Contudo, o que se observa neste momento nos corredores do poder e nas redes sociais não é o habitual estridor bolsonarista. Onde antes se ouviriam gritos de “sequestro” e ataques ferozes a uma delirante “ditadura do Judiciário”, hoje impera uma polidez quase ensaiada e uma “preocupação” comedida.
Não se trata apenas de respeito ao quadro clínico, até porque nunca foi assim. No jornalismo, aprendemos que o silêncio na capital federal costuma ser mais eloquente que o ruído. Fontes ouvidas pela Fórum em Brasília indicam que essa mudança brusca de comportamento, ou seja, a ausência de agressividade e o recuo na retórica de confronto, é o sintoma externo de uma engrenagem que gira nos bastidores: a pavimentação de uma estrada que levaria Bolsonaro do regime fechado na Papudinha para o cumprimento de pena em regime domiciliar.
O fator Flávio e a “Carta da Paz”
Toda essa mudança comportamental repentina, contrariando o histórico histriônico, já seria resultado de uma nova temperatura política que encontraria lastro numa apuração do editor-chefe da Fórum, Renato Rovai. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estaria articulando o que vem sendo chamado de “Carta pela Paz no Brasil”. O documento, inspirado na histórica “Carta aos Brasileiros” de Lula, em 2002, teria um destinatário específico: o Supremo Tribunal Federal (STF).
A estratégia de Flávio visa garantir que, em um cenário de futura disputa eleitoral, não haverá revanchismo contra a Suprema Corte. Para dar credibilidade ao movimento, o senador busca fiadores de peso, como o ex-presidente Michel Temer (MDB) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mais do que um aceno retórico, a carta é uma tentativa de armistício funcional.
A apuração aponta ainda que interlocutores já teriam consultado ministros como Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. A receptividade, ao que tudo indica, foi real. Moraes, inclusive, já teria emitido o primeiro sinal de mudança de postura ao permitir a visita de um assessor de Donald Trump a Bolsonaro na prisão, algo que acabou posteriormente sendo revogado. Uma volta atrás? Impossível dizer a essa altura.
O comportamento de Flávio reforça a tese do “acordão”. Recentemente, o senador surpreendeu ao criticar duramente a articulação de uma “CPI da Toga”, chamando a iniciativa de inconstitucional. Foi o sinal claro de que o clã Bolsonaro aceitou as condições impostas para uma convivência menos belicosa com o Judiciário.
Doença como saída humanitária
A internação por pneumonia bilateral ocorre justamente no momento em que a defesa de Bolsonaro protocola novos pedidos de progressão para o regime domiciliar. Em tempos de normalidade, o bolsonarismo estaria incendiando as bases contra o “algoz” Moraes. Hoje, o silêncio sugere que o grupo prefere não atrapalhar uma decisão que parece estar sendo maturada sob o manto da “questão humanitária”.
Se a internação for o fato jurídico que faltava para justificar a transferência do ex-presidente para casa, Brasília estará assistindo ao fechamento de um ciclo de confrontos. A calmaria dos aliados não é resignação; é a espera pelo resultado de uma negociação que pode mudar o curso da execução penal de Jair Bolsonaro nas próximas horas. Ou não.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/internacao-de-bolsonaro-na-esteira-do-acordao-de-flavio-pode-indicar-prisao-domiciliar/

