Jatinho e mansão usados por Flávio conectam Willer Tomaz à rede de Vorcaro

Foto: Agência Senado / Vitor Salles / Divulgação Master / Divulção Prime You –

O advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), aparece em duas pontas de uma rede financeira ligada ao entorno empresarial de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master: o jato executivo utilizado pelo senador em janeiro de 2025 e uma nova mansão – além da que pertencia ao jogador Richarlison – em Angra dos Reis (RJ), onde ele comemorou o aniversário da filha, em fevereiro de 2026.

Documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) obtidos pelo Fórum Investiga, núcleo de jornalismo investigativo da Fórum, revelam que o Jaguar Fundo de Investimento em Participações (FIP), ligado a Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro no Master, mantinha investimentos simultâneos na Fraction 032, empresa conectada financeiramente ao jato, e no Sharks FIP, acionista da sociedade responsável pela mansão.

Uma nova revelação do ICL Notícias, publicada nesta quinta-feira (22), amplia as conexões. O jornalista Cleber Lourenço identificou que Mateo Scudeler, administrador da offshore Alcazar Holdings, associada à estrutura societária do avião, também atuava no escritório Aragão & Tomaz Advogados Associados, de Willer Tomaz e do ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão.

A descoberta foi comprovada pelo ICL com documentos da Câmara dos Deputados e registros judiciais, que mostram a atuação de Scudeler na banca durante o período em que administrava a empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal.

O fundo que conecta o jato à mansão

O principal elo financeiro, apurado pelo Fórum Investiga, aparece na carteira do Jaguar FIP referente a junho de 2026, apresentada à CVM. Naquele mês, o fundo registrava investimentos de R$ 7.773.430,04 em ações da Fraction 032 e R$ 5.473.468,25 em cotas do Sharks FIP.

A Fraction 032 é presidida por Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro, e aparece em documento apresentado à CPI do Crime Organizado no Senado como responsável por uma transferência de R$ 5.192.258,56 à Fraction 024, empresa vinculada ao jato PP-NLR.

Já o Sharks FIP figurava, no balanço de 2022, como proprietário de 25% da Real Estate Duo 004, sociedade responsável pela mansão na Ilha do Jorge, em Angra dos Reis.

Assim, a carteira do Jaguar registra investimentos nos dois lados da estrutura: uma empresa conectada financeiramente ao avião e um fundo acionista da mansão.

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Carteira do Jaguar FIP registra investimentos simultâneos na Fraction 032, ligada à estrutura financeira do jato, e no Sharks FIP, acionista da empresa da mansão (Reprodução/CVM)

Administrador de offshore do jato atuava no escritório de Willer

A reportagem de Cleber Lourenço no ICL Notícias revelou que Mateo Scudeler, responsável pela administração da Alcazar Holdings entre abril de 2023 e junho de 2026, também trabalhava no escritório Aragão & Tomaz Advogados Associados, de Willer Tomaz e Eugênio Aragão.

A Alcazar Holdings, registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, pertence a Willer e detém participação na estrutura societária do Legacy 650, prefixo PP-NLR, utilizado por Flávio Bolsonaro.

O vínculo profissional foi identificado em um documento oficial da Câmara dos Deputados de 27 de junho de 2023. Na ocasião, Scudeler encaminhou à CPI da Manipulação de Resultados no Futebol uma petição da Kaizen Gaming, operadora da plataforma de apostas Betano. A mensagem partiu de um endereço institucional do Aragão & Tomaz, onde ele aparecia identificado como advogado sênior.

Na mesma época, Scudeler já exercia a função de administrador da offshore portuguesa. O ICL também encontrou registros judiciais de 2026 nos quais o advogado aparece ao lado de Willer Tomaz e do escritório Aragão & Tomaz em um processo relacionado ao espólio do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira.

A Alcazar Holdings também surgiu em documentos bancários examinados pela Polícia Federal na investigação sobre desvios de recursos do INSS. Segundo informações divulgadas pela jornalista Malu, Flávio Bolsonaro aparecia como “usuário master” de uma conta bancária vinculada à offshore.

O senador e Willer negam ter compartilhado contas ou mantido relações financeiras e atribuem o registro a um erro cadastral.

Ao Metrópoles, Scudeler declarou que sua atuação na offshore ocorreu como administrador contratado, sem participação societária. Negou conhecimento de irregularidades e afirmou que suas atividades profissionais eram independentes.

Willer Tomaz e os R$ 5,19 milhões do jato

O jato executivo Embraer Legacy 650, prefixo PP-NLR, foi utilizado por Flávio Bolsonaro em janeiro de 2025, em viagem relacionada à posse de Donald Trump nos Estados Unidos.

Um requerimento apresentado pelo senador Humberto Costa (PT-PE) à CPI do Crime Organizado reproduz informações atribuídas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre transferências recebidas pela Fraction 024.

Segundo o documento, a empresa recebeu R$ 5,3 milhões da Prime Aviation Participações e Serviços, R$ 1 milhão de Willer Tomaz e R$ 5.192.258,56 da Fraction 032, por intermédio da Trustee DTVM.

A Fraction 032 é presidida por Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master.

O documento estabelece uma relação financeira entre essas empresas e o advogado, mas não permite concluir que as transferências tenham custeado especificamente a viagem de Flávio Bolsonaro.

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A mansão de Angra e os 25% de Willer

A outra ponta da conexão está na Ilha do Jorge, em Angra dos Reis, onde Flávio Bolsonaro comemorou o aniversário da filha caçula em fevereiro de 2026. A residência integra o empreendimento Real Estate Duo 004, administrado pela Prime You, empresa da qual Daniel Vorcaro foi sócio até setembro de 2025.

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Mansão em Angra onde Flávio Bolsonaro comemorou o aniversário da filha (Divulgação / PrimeYou)

O balanço da sociedade, publicado em abril de 2023, revela que a WT Administração de Imóveis e Bens, ligada a Willer Tomaz, possuía 25% das ações em dezembro de 2022 – veja o balanço societário da empresa.

Outros 25% pertenciam ao Sharks FIP. Os demais acionistas eram Márcio Miranda Maia, com 31,03%, e Fabrício Bloisi Rocha, com 18,97%.

Willer confirmou ao ICL Notícias que emprestou gratuitamente a residência ao senador em razão da amizade entre os dois. Também negou conhecer Daniel Vorcaro ou manter relações comerciais com o banqueiro.

A documentação societária comprova a composição acionária de 2022. Para estabelecer os proprietários exatos na data da comemoração, em 2026, é necessário consultar os registros societários atualizados.

Trustee, Quadrado e o entorno de Vorcaro

A Trustee DTVM constitui outro ponto de ligação entre as operações. Controlada por Maurício Quadrado, que foi sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, a instituição manteve relações com fundos associados ao ecossistema financeiro do banqueiro.

O Jaguar FIP, que aparece nas conexões financeiras entre o jato e a mansão, também figurava entre os controladores da Trustee, conforme comunicado do Banco Central. Em setembro de 2026, a autoridade monetária decretou a liquidação extrajudicial da instituição.

A Prime You, administradora dos bens utilizados por Flávio Bolsonaro, também manteve Vorcaro em seu quadro societário até setembro de 2025.

Reportagem publicada pelo UOL em 22 de outubro revelou que Vorcaro e Willer utilizavam casas do mesmo empreendimento em Angra dos Reis. Segundo o jornal, o banqueiro costumava ocupar a casa 2, enquanto o advogado tinha participação na casa 4, utilizada pela família de Flávio.

Mensagens obtidas pelo UOL também indicam que Vorcaro utilizou uma embarcação pertencente a Willer durante as festas de fim de ano de 2024. Willer negou conhecer o banqueiro e afirmou que o uso dos imóveis era organizado pela administradora, sem contato direto entre os cotistas.

Os vínculos com o setor de apostas

A investigação do ICL Notícias revelou ainda que Mateo Scudeler presidiu a Associação Nacional dos Operadores Estaduais de Jogos e Loterias (Opera Legal), entidade ligada ao setor de apostas. Entre as empresas associadas à entidade estão Pixbet, Vai de Bet e MarjoSports, segundo informações originalmente divulgadas pelo Metrópoles.

A conexão com o escritório de Willer aparece também em documentos do Supremo Tribunal Federal. Eugênio Aragão figurou como advogado da Opera Legal em processos relacionados à regulamentação de apostas e loterias estaduais.

A associação foi admitida nesses processos em agosto de 2026, quando Scudeler ainda aparecia como presidente da entidade em registros empresariais. O ICL ressalta que os documentos não identificam Scudeler nem Eugênio Aragão como investigados na Operação Sem Desconto, que apura fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.

Willer Tomaz, por sua vez, foi alvo de medidas de busca e apreensão no âmbito dessa investigação. A decisão judicial excluiu expressamente os demais sócios e advogados do escopo investigativo.

Eugênio Aragão confirmou ao ICL que comunicou sua saída da sociedade com Willer em 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno das eleições. Segundo o ex-ministro, o desligamento deverá ser formalizado em 26 de outubro.

O que os documentos revelam

O cruzamento dos registros identifica duas conexões distintas. A primeira é financeira: o Jaguar FIP mantinha investimentos na Fraction 032, vinculada por transferências à estrutura do jato, e no Sharks FIP, acionista da empresa responsável pela mansão.

A segunda é profissional e societária: o administrador da offshore Alcazar Holdings, ligada ao avião, atuava simultaneamente no escritório de Willer Tomaz, conforme revelou o ICL Notícias.

Esses vínculos se somam às relações empresariais de Maurício Quadrado com o Banco Master e à participação anterior de Daniel Vorcaro na Prime You, administradora dos bens.

Os documentos disponíveis não comprovam que Vorcaro controlasse todos os fundos envolvidos, que recursos do Banco Master tenham financiado o uso dos bens por Flávio Bolsonaro ou que o senador fosse beneficiário econômico das empresas.

A identificação dos cotistas finais dos fundos, dos titulares efetivos da offshore e das operações realizadas nas datas de utilização do avião e da mansão permanece necessária para esclarecer a extensão dessas relações.

O Fórum Investiga entrou em contato com as assessorias de Daniel Vorcaro, Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro pedindo esclarecimentos sobre o caso, mas não obteve retorno até o momento. O espaço segue aberto.

Fonte: https://revistaforum.com.br/revista-forum/jatinho-e-mansao-flavio-bolsonaro-willer-tomaz-daniel-vorcaro/