Karina Ferreira da Gama voltou a ser manchete nos jornais de todo o Brasil após ser alvo de operação Make Up, da Polícia Federal, nesta quinta-feira (10).
O deputado federal Mario Frias (PL-SP) e Karina estão entre os 22 alvos de 49 mandados de busca e apreensão, cumpridos em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal, sem mandados de prisão.
A operação, autorizada pelo ministro Flávio Dino do STF, apura um suposto esquema de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares, com crimes que vão de peculato à lavagem de dinheiro.
Karina da Ferreira Gama é presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG que firmou contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de Wi-Fi em periferias da capital, valor que chegou a R$ 157 milhões com aditivos, e é sócia da GoUp Entertainment, produtora da cinebiografia bolsonarista Dark Horse.
Quem é Karina Ferreira da Gama e a teia de CNPJs
O nome de Karina Ferreira da Gama circulava discretamente pelos bastidores de editais públicos e pequenas produtoras antes de se converter no epicentro de investigações que cruzam o Ministério Público de São Paulo, o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal.
Ela é a figura central de um contrato milionário com a maior prefeitura de São Paulo e o principal nome da estrutura de captação de recursos para Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Karina preside o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade que lida com milhões de reais de contratos públicos, e é sócia da GoUp Entertainment, produtora do filme, as duas entidades no centro das apurações.
O ICB é uma associação privada sem fins lucrativos, apresentada institucionalmente como ONG voltada ao desenvolvimento educacional, tecnológico e de inclusão social, sendo principal ferramenta jurídica de Karina para celebrar convênios e contratos com a administração pública.
A GoUp Entertainment Ltda, no Brasil, está sediada no mesmo endereço físico do ICB, na Avenida Paulista. Nos Estados Unidos, a GoUp Entertainment LLC é a produtora principal de Dark Horse, onde Karina divide a sociedade com Michael Brian Davis.
Há ainda a Conhecer Brasil Assessoria e a Academia Nacional de Cultura (ANC), esta última identificada como beneficiária de repasses de emendas parlamentares de deputados da ala bolsonarista.
A rede corporativa de Karina é hoje alvo simultâneo do Ministério Público de São Paulo, do STF e da Polícia Federal, em apurações que se alimentam mutuamente e apontam para um esquema de desvio de verbas públicas com ramificações políticas de alto alcance.
As investigações em curso: PF, MP, CGU e STF
Nesta quinta (10), a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, investigando suspeitas de desvio de recursos públicos de emendas parlamentares para uma organização da sociedade civil, com Karina Gama e Mário Frias como alvos de busca e apreensão.
Segundo a PF, há indícios de uma organização criminosa direcionamento de valores para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação de serviços, além de movimentação de centenas de milhões de reais entre empresas relacionadas ao esquema.
A Polícia Federal aponta “a existência de uma organização criminosa, formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores recebidos para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados”.
No STF, o ministro Flávio Dino autorizou a PF a acessar dados da investigação conduzida pela Polícia Civil de SP contra a GoUp e o ICB, para aprofundar a apuração sobre o possível uso de emendas parlamentares no financiamento de Dark Horse.
A decisão ocorreu após o governador Tarcísio de Freitas ser cobrado a enviar os documentos apreendidos na Operação Wi-Fi à PF, em meio a acusações de que a Polícia Civil paulista estaria atrasando as investigações por razões políticas.
Paralelamente, a investigação sobre os recursos destinados ao filme se cruza com outra frente no STF, sob relatoria de André Mendonça, que apura os repasses de Daniel Vorcaro para a produção e as tratativas do banqueiro com integrantes do clã Bolsonaro.
A defesa de Karina tentou concentrar tudo nas mãos de Mendonça, alegando que a apuração estadual extrapolou seu escopo, mas uma decisão da Vara de Garantias de SP, sem assinatura nominal, devolveu à Polícia Civil o pedido de acesso a dados do Coaf, protelando o avanço das investigações.
O histórico de irregularidades vai além do contrato de Wi-Fi. O Intercept Brasil revelou que a Controladoria-Geral da União apurou que o ICB recebeu cerca de R$ 11 milhões do Conselho Nacional do Sesi entre 2017 e 2018, com auditorias apontando R$ 2,4 milhões em superfaturamento em contratos para a Feira da Cidadania e a Fórmula Truck Kids.
A Ancine abriu processo administrativo contra a GoUp por realizar gravações de Dark Horse em território brasileiro sem a comunicação prévia obrigatória à agência. O Ministério Público de SP e a Controladoria Geral do Município de SP apuram se recursos públicos do contrato de R$ 108 milhões foram desviados para financiar o filme.
Emendas parlamentares e o financiamento de Dark Horse
Deputados federais, estaduais e vereadores de São Paulo do PL e de partidos aliados direcionaram pelo menos R$ 7,7 milhões em emendas parlamentares para entidades ligadas à produtora de Dark Horse.
O caso mais emblemático envolve Mário Frias (PL-SP), produtor executivo e roteirista do próprio filme: ele destinou R$ 2 milhões em emendas da União para o ICB, divididos em duas parcelas de R$ 1 milhão, para supostos programas de “letramento digital” e atividades esportivas.
O elo entre Frias e Karina não é apenas financeiro: o deputado usou o e-mail dela em notas fiscais de reembolso de hospedagem na Câmara dos Deputados, segundo informação publicada pelo O Globo.
Carla Zambelli (PL-SP) destinou R$ 2 milhões em emenda para a Academia Nacional de Cultura, presidida por Karina, para produzir uma série sobre personagens históricos. O recurso foi retido pelo Tribunal de Contas da União por incoerências identificadas na operação.
O financiamento privado do filme também levanta questões graves. Mais de 90% do orçamento de Dark Horse foi bancado por Daniel Vorcaro, do Banco Master, que injetou R$ 61 milhões na produção a pedido de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Áudios e mensagens vazadas revelam Flávio cobrando repasses milionários diretamente de Vorcaro, que chegou a ser preso por fraudes bilionárias.
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por sua vez, atuou diretamente como produtor-executivo de Dark Horse, com responsabilidades legais e amplos poderes sobre a gestão financeira e captação de recursos, contradizendo suas declarações públicas de que sua participação se limitava à cessão de direitos de imagem.
A GoUp Entertainment declarou que o filme custou R$ 75,1 milhões, sendo R$ 54 milhões gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil, mas não apresentou recibos ou notas fiscais para comprovar os gastos.
O contrato milionário com a Prefeitura de SP e as suspeitas de desvio
Em junho de 2024, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo assinou com o ICB o Termo de Colaboração 01/SMIT/2024, prevendo a implantação e operação de 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito em comunidades periféricas da capital, ao custo de R$ 108 milhões.
Com aditivos posteriores, o valor total pago pela gestão Ricardo Nunes ao instituto chegou a mais de R$ 157 milhões.
A Polícia Civil de SP deflagrou a Operação Wi-Fi em junho, com mandados de busca e apreensão no ICB, na GoUp e em endereços ligados a Karina Gama, investigando fraude contratual, desvio de recursos e lavagem de dinheiro.
Os números apurados são reveladores: enquanto a Prodam, empresa pública municipal, cobrava R$ 306 por ponto de Wi-Fi, o contrato com o ICB previa R$ 1.800 por ponto, diferença que a polícia aponta como até 230% acima dos parâmetros de mercado.
Há suspeitas de que R$ 26 milhões foram pagos antecipadamente ao instituto sem a correspondente execução dos serviços. Em determinado período analisado pelos investigadores, apenas seis dos 3.200 pontos pagos estariam efetivamente funcionando.
O perfil do contratado agrava o quadro. O ICB não possuía histórico consolidado no mercado de telecomunicações nem corpo técnico de engenharia de redes, com atuação anterior concentrada em feiras literárias e eventos religiosos.
O Tribunal de Contas do Município registrou 20 irregularidades no edital, mas a gestão Nunes manteve os pagamentos.
Relatórios internos da Prefeitura, segundo apuração da Agência Pública, indicaram que técnicos não conseguiam localizar o ICB por mais de três meses, e os repasses continuaram.
A Prefeitura notificou o ICB para devolver R$ 906 mil e justificar R$ 12 milhões em notas fiscais suspeitas, incluindo notas canceladas e despesas sem lastro bancário.
O secretário municipal de Inovação e Tecnologia quando o contrato foi firmado era Bruno Lima (Podemos), indicado por Ciro Nogueira, que afirmou não conhecer Karina Gama e que os procedimentos foram conduzidos pelas áreas técnicas.
Uso indevido de dados e ligações perigosas
Entre as irregularidades apuradas, duas se destacam pela dimensão ética e criminal que carregam. A primeira foi revelada pelo Intercept Brasil: o ICB utilizou dados pessoais de usuários do Wi-Fi Livre de São Paulo para realizar disparos em massa de mensagens, subcontratando a empresa Talk Communications por R$ 2,7 milhões para ações de “marketing digital”.
O contrato entre as duas entidades previa 12 campanhas, com volume estimado de 8,1 milhões de disparos, usando os contatos de celular que os cidadãos forneciam ao se conectar à rede pública.
Quando um morador da periferia de São Paulo digitava seu número de telefone para acessar o Wi-Fi gratuito, não sabia que esse dado poderia ser repassado a uma empresa terceirizada para campanhas de WhatsApp ou SMS.
Isso viola a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o edital de licitação e resoluções do TSE que proíbem propaganda eleitoral por meio de envios em massa sem consentimento. A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) pediu investigação formal sobre o caso.
O Ministério Público de São Paulo apontou que Alex Leandro Bispo dos Santos, sócio da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., empresa subcontratada pelo ICB para atuar no projeto de Wi-Fi em favelas, é integrante do PCC. O acordo entre ICB e Favela Conectada previa até R$ 12 milhões para a implantação de 2.000 pontos de internet nas zonas oeste e sul da capital. Alex Leandro estava preso por feminicídio em São Paulo e aparece em mais de 60 registros processuais no Conselho Nacional de Justiça, incluindo acusações de roubo e extorsão mediante sequestro. Segundo apuração do Metrópoles, a produtora de Dark Horse teria repassado R$ 12 milhões para ele, a título de manutenção dos pontos de internet.
A Prefeitura de São Paulo afirma que não teve vínculo contratual direto com a Favela Conectada nem com Alex Leandro Bispo dos Santos, e que a relação jurídica ocorreu exclusivamente com o ICB.
Repercussão política e blindagem
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) defendeu a empresária publicamente, elogiando-a como “pessoa decente” e “mulher trabalhadora”, e sugeriu que, se a apuração fosse motivada pela relação dela com o filme de Bolsonaro, haveria “perseguição política”.
Após prometer apresentar o contrato e prestar contas sobre os milhões de Daniel Vorcaro há mais de 100 dias, o senador passou a usar um laudo pericial contratado pela própria GoUp Entertainment como se fosse uma “prestação de contas” independente.
O documento, vazado pela polícia de SP e analisado pela Revista Veja, foi assinado pelo perito Anísio Costa Castelo Branco, que deixou explícito no próprio texto que analisou apenas os dados enviados pela produtora de Karina Gama, e não a totalidade do material da investigação, sem anexar nenhuma prova documental.
O modus operandi da rede de Karina Gama
As investigações sobre a rede de Karina Gama revelam um padrão de atuação que se repete em diferentes contratos, diferentes órgãos públicos e diferentes períodos. O primeiro elemento é a criação de entidades de “guarda-chuva amplo”: o ICB declarava-se apto a atuar em turismo, desporto, meio ambiente, eventos e tecnologia, versatilidade que funcionava como passaporte para disputar qualquer edital público, independentemente da área.
A GoUp Entertainment nunca havia produzido um único filme antes de Dark Horse. O ICB nunca havia instalado um único ponto de Wi-Fi antes de assumir o contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo.
O segundo elemento é a circulação de dinheiro dentro da própria rede. O ICB emitiu mais de R$ 1,2 milhão em notas fiscais para si mesmo para justificar gastos do convênio de Wi-Fi com a Prefeitura de SP, prática descrita pelo vereador Nabil Bonduki (PT-SP) como “descalabro”.
As auditorias da CGU, reveladas pelo Intercept Brasil, apontaram que o ICB não tinha funcionários registrados, capital social nem veículos próprios para executar projetos do Sesi, repassando integralmente o dinheiro a empresas de eventos também sem capacidade operacional.
Em um dos casos documentados pela CGU, o CN-Sesi autorizou patrocínio, assinou contrato e transferiu R$ 460 mil ao ICB em apenas 11 minutos, mesmo após alertas internos da área jurídica.
A rede de Karina Gama acumulou convênios e repasses com ao menos 51 governos no país, entre prefeituras, estados e o Distrito Federal, para projetos que vão de robótica educacional a eventos literários evangélicos.
A Academia Nacional de Cultura, outra entidade de Karina, operou R$ 3,5 milhões da Prefeitura de SP para o evento gospel Connect Faith 2025 sem edital, licitação ou publicação no Diário Oficial, segundo apuração do Metrópoles.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/karina-ferreira-da-gama/

