Em Lisboa, João Campos enfrenta novo tarifaço: “Ninguém abaixará cabeça a outra nação”

De LISBOA | A abertura da investigação da Seção 301 pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que ameaça impor uma sobretaxa linear de 25% às exportações brasileiras sob a alegação de assimetria competitiva no mercado de meios de pagamento digitais, tensionou os bastidores do Fórum Jurídico de Lisboa nesta terça-feira (2). O avanço da ofensiva tarifária de Donald Trump contra o avanço institucional do Pix, classificado por Washington como prática prejudicial às operadoras norte-americanas de cartões, concentrou os debates na capital portuguesa e pautou o posicionamento de lideranças do governo.

Ex-prefeito do Recife e consolidado como pré-candidato ao governo de Pernambuco, João Campos (PSB) utilizou o espaço do evento para vocalizar a reação do principal bloco de sustentação do presidente Lula no Nordeste. O movimento do governo estadunidense expõe uma severa contradição diplomática, ocorrendo logo após acenos e elogios públicos de Trump à governabilidade brasileira, e é lido por analistas como uma tentativa de interferência político-econômica-eleitoral com reflexos diretos na agenda doméstica nacional.

Abordado nos corredores do evento em Portugal, João Campos adotou um tom de pragmatismo institucional e disparou:

“Primeiro eu quero parabenizar a atuação do vice-presidente Geraldo Alckmin, que é do meu partido, que sempre esteve ao longo desse processo, ao lado do presidente Lula, que é quem coordena os trabalhos, e é preciso separar o que é bom senso, o que é construção técnica e o que é contraponto político… Então, em certa maneira, parece uma ação desmedida, onde ela nasceu de uma motivação explícita política pelos EUA, e sem nenhuma construção técnica… O Brasil é uma verdadeira potência econômica e tem relação comercial de muitos e muitos anos com diversos países, incluindo os EUA, e o que me preocupa só é você construir barganha política com o governo americano em torno de uma economia tão equilibrada e tão importante como é a economia brasileira, e diante de um cenário de muita instabilidade. Então, há uma discordância frontal, mas a preocupação central é com as questões soberanas do país, porque olhando de forma rápida num primeiro momento você vê que o relatório faz inúmeras menções ao Pix… Então você vê que não é nem algo implícito, é algo explícito e com a intenção de atacar conquistas brasileiras, e então nós precisamos ter muito equilíbrio e muita altivez… Ninguém vai abaixar a cabeça para nenhuma outra nação, é preciso ter equilíbrio e altivez defendendo os interesses do Brasil, e todo o interesse do povo brasileiro tem que ser defendido… E se necessário for, ser combatido com medidas que não são adequadas e não fazem bem ao Brasil”, disse Campos aos jornalistas.

A investida de Washington ocorre em um momento em que a oposição de extrema direita no Brasil, liderada pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), enfrenta forte desgaste político devido aos desdobramentos de investigações do caso Master, do ex-banqueiro fraudador Daniel Vorcaro, que deu ao filho do ex-presidente pelo menos R$ 61 milhões. Longe de isolar o Palácio do Planalto, o protecionismo norte-americano baseado em retaliações ao Pix deve asfixiar as pretensões eleitorais da ala radical, unificando setores produtivos e a classe política na defesa da soberania tecnológica e financeira do país.

Blindagem comercial e o prazo legal

Enquanto a oposição tenta capitalizar o tensionamento, o governo federal articula medidas de reciprocidade e salvaguardas macroeconômicas. O Ministério da Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) já alinham uma estratégia de defesa comercial para blindar o setor industrial nacional antes do término do prazo legal de consultas públicas do USTR, fixado para o dia 15 de julho. Até lá, a tônica das lideranças brasileiras é uma só: altivez diplomática e nenhuma concessão a ameaças unilaterais.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/lisboa-joao-campos-tarifaco/