Governo Lula ironiza cinebiografia de Bolsonaro: “Filme de verdade é na Tela Brasil”

O governo Lula encontrou um meio irônico e criativo para criticar e chamar atenção para o escândalo em torno da produtora GoUp, responsável pelo filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro que recebeu R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro e firmou contratos com a Prefeitura de São Paulo que estão sendo investigados pela Polícia Civil paulista.

Mas que modo criativo foi esse que o governo federal encontrou para chamar atenção para o caso “Dark Horse”? Por meio do perfil da Tela Brasil, serviço de streaming recém-inaugurado pelo Palácio do Planalto e que tem catálogo totalmente focado no audiovisual brasileiro.

Por meio de uma publicação nas redes sociais, a Tela Brasil divulgou uma imagem em que, na parte superior, aparece um cavalo negro e, na parte inferior, o logo do serviço de streaming acompanhado da seguinte legenda:

“Esqueça as produtoras de mentira. Filme de verdade é na Tela Brasil.”

 Por que a Polícia de SP, comandada por Tarcísio, investiga produtora de “Dark Horse”, filme de Bolsonaro

A Polícia Civil de São Paulo entrou no caso que atinge a produtora de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro (PL), por uma razão estritamente jurisdicional: apurar suspeitas de crimes em um contrato público municipal executado na capital paulista. A investigação, conduzida pela corporação subordinada ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), não tem a cinebiografia como objeto formal, mas sim um possível esquema de fraude e lavagem de dinheiro em um acordo de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo.

O alvo da Operação Wi-Fi Livre, deflagrada em conjunto com o Ministério Público Estadual, é o contrato firmado pela Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) para instalar pontos de internet gratuita em comunidades periféricas. O caso cruzou o caminho do bolsonarismo porque a contratada pela gestão de Ricardo Nunes (MDB) é o Instituto Conhecer Brasil, ONG presidida por Karina Ferreira da Gama, a mesma empresária que comanda a Go Up Entertainment, produtora do longa-metragem.

O caminho do dinheiro e as buscas na SMIT

A atuação da Polícia Civil se justifica pela suspeita de que recursos dos cofres municipais paulistanos tenham sido desviados. O contrato previa a implantação e manutenção de 5 mil pontos de wi-fi no prazo de 12 meses, mas apenas 3.200 foram instalados. Os investigadores apontam que a ONG apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em notas fiscais consideradas irregulares para justificar os repasses.

As suspeitas ganham peso com os indícios de um sobrepreço que chega a 230% em itens ligados ao programa. Para rastrear o destino dessa verba, os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão não apenas nas sedes da ONG e da produtora Go Up, mas dentro da própria Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, responsável por fiscalizar a execução. O objetivo é cruzar contratos, prestações de contas e dados contábeis apreendidos para confirmar se a verba da Prefeitura foi utilizada para lavagem de dinheiro nas outras empresas administradas por Karina Gama.

O constrangimento político do “fogo amigo”

Embora a motivação jurídica seja a fraude no contrato municipal, o efeito político da operação atingiu em cheio o núcleo duro do bolsonarismo. A Polícia Civil, subordinada a Tarcísio, tratado como principal herdeiro político da direita , avançou sobre uma engrenagem que conecta a Prefeitura aliada de Nunes ao projeto audiovisual mais ambicioso de reconstrução da imagem de Bolsonaro.

Tentando isolar a crise, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou publicamente que a investigação sobre o wi-fi não possui relação com o financiamento da obra. No entanto, o cruzamento de CNPJs e a teia financeira de Dark Horse já estavam sob escrutínio das autoridades em outras frentes.

Teia financeira sob rastreio internacional

A operação em São Paulo adiciona uma camada criminal a um projeto que já acumulava controvérsias sobre a origem de seus recursos. Levantamentos baseados em documentos públicos detalham que ONGs e entidades ligadas à produção do filme já receberam R$ 7,7 milhões de parlamentares paulistas, além de aportes milionários via emendas do deputado federal Mario Frias (PL-SP).

No setor privado, a injeção de capital também é alvo de apuração. Há suspeitas de que o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tenha financiado praticamente todo o custo da produção, estimado em US$ 13 milhões pela produtora. Os indícios de evasão de divisas escalaram o caso, levando ao acionamento da Interpol para rastrear o caminho do dinheiro em quatro países.

O que diz a Prefeitura

A gestão municipal paulistana nega qualquer desvio e afirma colaborar com as autoridades. A Prefeitura sustenta que o contrato seguiu critérios de legalidade e economicidade, ressaltando que pagou apenas pelos 3.200 pontos de wi-fi efetivamente instalados. A meta de 5 mil pontos, segundo a administração, tratava-se de uma previsão de expansão do programa que ainda não havia sido cobrada ou executada.

Agora, o avanço do inquérito depende do material apreendido. O cruzamento das notas fiscais e quebras de sigilo da ONG com o caixa da Go Up Entertainment definirá, de forma documental, se o dinheiro destinado à inclusão digital nas periferias de São Paulo acabou financiando o filme sobre o ex-presidente.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/lula-bolsonaro-tela-brasil/