Lula culpa Campos Neto por escândalo do Master: “todas as falcatruas foram feitas por ele”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom contra o ex-presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, o associando ao escândalo do Banco Master. Segundo Lula, foi o BC sob a gestão de Campos Neto que reconheceu o Master como instituição bancária e que, a partir de então, começaram a ser praticadas as fraudes bilionárias.

A fala de Lula foi feita em discurso durante evento de lançamento da pré-candidatura de Fernando Haddad ao governo do estado de São Paulo, realizado em São Bernardo do Campo (SP). O presidente destacou, ainda, que o BC, ainda sob o comando e Campos Neto, foi alertado pela Polícia Federal sobre as irregularidades no Master, mas que a instituição nada fez.

“Eles [a oposição] tentam empurrar esse caso do Banco Master para o PT. Banco Master é obra do Bolsonaro e do Roberto Campos. E nós não deixaremos pedra sob pedra para a gente apurar tudo o que fizeram, dando um rombo de 50 bilhões. Se a gente não tomar cuidado, vão tentar dizer que somos nós. É uma obra deles. Esse banco nasceu em 2019. No começo do ano, o ex-presidente do Banco Central negou o reconhecimento do Banco Master. Quem reconheceu, em setembro de 2019, foi o Roberto Campos. E todas as falcatruas foram feitas por ele”, denunciou Lula.

“Temos que aprofundar [as investigações]. A bancada do PT tem que ter a coragem de denunciar”, emendou.

Veja vídeo:

https://x.com/JFreiress_/status/2034798406913212714

Campos Neto foi alertado sobre o Banco Master

Documentos obtidos e publicados pelo SBT News, nesta quarta-feira (19), revelam que o Banco Central, durante a gestão de Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, ignorou alertas críticos da Polícia Federal sobre o Banco Master meses antes da instituição protagonizar o que investigações apontam como a maior fraude bancária da história do país. Em julho de 2024, a PF enviou um ofício à autarquia detalhando suspeitas de que o empresário Nelson Tanure seria o “dono oculto” do banco, operando através de paraísos fiscais. A resposta do BC, no entanto, foi de que as denúncias já haviam sido analisadas e arquivadas.

A íntegra do documento, enviada ao delegado Gleydson Machado Calheiros, da Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros de São Paulo, mostra que o BC minimizou os riscos. A autoridade monetária afirmou que as suspeitas sobre a cadeia societária do Master, que envolveria recursos da empresa Aventtti Strategic Partners, nas Bahamas, eram de conhecimento da casa desde 2023, mas que não viu necessidade de abrir procedimentos específicos.

Blindagem interna e servidores investigados

O Banco Central justificou o arquivamento baseando-se em documentos fornecidos pelos próprios representantes de Daniel Vorcaro, o então controlador oficial do Master. Segundo o ofício, quatro departamentos internos (Desup, Derad, Deorf e Desuc) deram o aval para as operações de aumento de capital da instituição, alegando que a fiscalização era feita de forma “contínua”.

Contudo, investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) lançam uma sombra sobre essa “análise técnica”. Dois nomes da cúpula do BC na época são agora alvos centrais da PF:

  • Paulo Sérgio Neves de Souza: Ex-diretor de Fiscalização.
  • Belline Santana: Ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup).

Ambos estão afastados, usam tornozeleira eletrônica e são suspeitos de prestar “consultoria” informal a Daniel Vorcaro em troca de pagamentos. Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram o banqueiro pedindo ajuda direta a Paulo Sérgio para destravar negócios que estariam sendo “atravancados” pela autarquia.

O colapso e o silêncio

A postura de “normalidade” do BC durou pouco. Apenas quatro meses após o ofício enviado à PF garantindo que estava tudo ‘ok’, o Banco Central interveio e liquidou o Master em novembro de 2025. O ex-presidente Roberto Campos Neto, que deixou o cargo no final do ano passado, passou então a não comentar o caso. A desculpa para tal situação é uma versão que corre entre os mais chegados da gestão passada alegando que o tal documento da PF foi respondido por um coordenador e não teria chegado ao conhecimento da diretoria colegiada.

O Banco Central informou, por meio de sua assessoria, que não comenta informações que correm sob sigilo. Enquanto isso, os servidores envolvidos respondem a sindicâncias que podem resultar em demissão, enquanto a PF aprofunda a investigação sobre como uma estrutura de “donos ocultos” e offshores conseguiu operar sob os olhos da principal autoridade financeira do país.

 

Fonte: https://revistaforum.com.br/revista-forum/lula-campos-neto-master/