O senador Flávio Bolsonaro (PL) pediu desculpas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na noite desta sexta-feira (23), durante o debate da TV Globo, após usar a expressão “nove dedos” para ironizar a política econômica do governo. Lula reagiu com veemência, exigiu retratação pública e chamou o adversário de “miliciano” e “granfino”, lembrando que perdeu o dedo mínimo da mão esquerda aos 17 anos em um acidente de trabalho. A cena foi um dos momentos mais tensos do último debate antes do segundo turno das eleições presidenciais.
O pedido de desculpas
A provocação surgiu durante um embate sobre carga tributária. Flávio Bolsonaro, ao criticar a política econômica do governo, afirmou que Lula “dá com uma mão e tira com os nove dedos”. A frase, que faz referência direta à condição física do presidente, gerou reação imediata nas redes sociais, onde usuários classificaram o comentário como capacitista.
Pressionado pela resposta de Lula, o senador recuou ainda durante o debate: “Lula, se eu te ofendi porque te chamei de nove dedos, peço desculpas, de verdade. Não queria te ofender. Peço desculpas de verdade.” Na sequência, Flávio tentou mudar de assunto e questionou se Lula pediria desculpas às pessoas que recebem o Bolsa Família e que, segundo ele, foram “esquecidas por quatro anos”.
A reação de Lula
Lula pediu direito de resposta, mas usou o tempo para ir além de uma queixa protocolar. “Ele disse uma grande asneira e eu não vou levar pra casa. Ele me chamou de ‘nove dedos’. Eu quero que ele saiba de uma coisa: se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu, trabalhando à noite, quando não podia trabalhar.”
O presidente foi além e atacou diretamente a trajetória do adversário: “Não vou permitir que um miliciano me chame de ‘nove dedos’. Não vou permitir, não vou permitir.” A plateia o aclamou, e o mediador César Tralli precisou pedir silêncio no auditório. Lula ainda afirmou que Flávio nunca trabalhou na vida e não sabe o que é uma carteira profissional. “O primeiro emprego dele foi falso, no gabinete do pai”, acusou o presidente durante o debate.
Capacitismo e o mundo do trabalho
O acidente que Lula relembrou no debate tem data e endereço precisos: 1964, na Metalúrgica Independência, em São Paulo, quando ele tinha 17 anos e operava uma prensa no turno da madrugada. A máquina atingiu sua mão durante a troca de uma peça, provocando a amputação do dedo mínimo da mão esquerda. Segundo relatos do próprio Lula, ele precisou esperar até a manhã seguinte para receber atendimento médico.
A fala de Flávio foi feita no contexto de uma discussão sobre tarifa zero nos ônibus aos fins de semana, quando o senador afirmou que “não adianta nada o salário mínimo de R$ 1,6 mil se você dá com uma mão e tira com os nove dedos”. Lula recusou o enquadramento econômico e devolveu a discussão ao chão de fábrica: “Milhões de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal, que obriga a gente a trabalhar em jornadas que a gente nem quer trabalhar. Eu era de menor e trabalhava à noite porque, ou trabalhava, ou não comia.”
“Não posso aceitar aqui que um granfino, com uma prática política muito duvidosa, venha me chamar de ‘nove dedos’.”
A sequência expôs a aposta de Lula: transformar uma ofensa pessoal em argumento político sobre classe, trabalho e responsabilidade patronal, colocando Flávio Bolsonaro na posição de quem precisa se retratar publicamente diante de milhões de eleitores.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/lula-faz-flavio-bolsonaro-pedir-desculpas-9-dedos-debate/

