Uma semana depois de enfrentar uma bateria de perguntas de César Tralli sobre a fila do INSS, Lula resolveu devolver a cobrança — com números.
Nesta quinta-feira (3), durante o evento no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou a redução no número de pedidos acumulados no instituto e não deixou passar a oportunidade de mandar um recado à Rede Globo. “Vamos ver se o Jornal Nacional vai noticiar”, provocou.
A ironia não surgiu por acaso. Em 27 de agosto, durante a sabatina da Globo com os candidatos à Presidência, César Tralli colocou Lula contra a parede ao questioná-lo sobre os milhões de brasileiros que ainda aguardavam uma resposta do INSS.
Lula rebateu ali mesmo. “Semana que vem, vou anunciar que a fila zerou”, prometeu.
O presidente chegou a convidar o jornalista para acompanhar o anúncio em Brasília. Sete dias depois, voltou ao assunto.
De 3 milhões para 1,25 milhão
Os números apresentados pelo governo mostram que houve, de fato, uma mudança importante no tamanho do problema.
No início de 2026, o INSS acumulava aproximadamente 3 milhões de requerimentos aguardando análise. Em agosto, esse estoque havia caído para cerca de 1,25 milhão.
É uma redução próxima de 60%.
O tempo médio de espera também diminuiu e passou para cerca de 34 dias.
Segundo o governo, a virada ocorreu depois de uma série de medidas para aumentar a capacidade de atendimento do instituto, incluindo contratação de servidores, pagamento de bônus por produtividade, mutirões, análise documental e novas modalidades de atendimento para perícias.
O INSS passou em determinados períodos, a analisar mais processos do que recebe.
É justamente a partir daí que o governo sustenta ter colocado fim à “fila” como um estoque crescente de pedidos. Mas há uma ressalva importante.,
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A fila zerou mesmo?
Não no sentido literal.
Ainda existem centenas de milhares de brasileiros esperando uma resposta há mais de 45 dias. Dados apresentados nesta quinta apontam aproximadamente 235 mil requerimentos nessa situação, embora o número possa variar.
Parte desses processos, segundo o INSS, envolve casos mais complexos ou depende de documentação adicional.
O que mudou foi a forma como o governo passou a caracterizar a fila.
Para a gestão de Lula, o instituto chegou a uma situação de fluxo: novos pedidos entram, mas o INSS consegue analisar uma quantidade equivalente ou até superior de requerimentos, impedindo que volte a se formar o represamento de milhões de processos visto no início do ano.
O dado concreto — e politicamente relevante para o governo — é o seguinte: a fila caiu de de 3 milhões para 1,25 milhão em poucos meses.
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“Parecia uma inquisição”
Se os números foram o centro do anúncio, a Globo virou personagem do discurso.
Lula ainda parece ter guardado na memória o tom da sabatina da semana anterior.
Durante aproximadamente 40 minutos, César Tralli e Renata Vasconcellos questionaram o presidente sobre alguns dos assuntos mais incômodos para o governo às vésperas da eleição.
Passaram pela bancada as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), o caso dos descontos ilegais em benefícios do INSS, as apurações relacionadas ao Banco Master e, claro, a fila da Previdência.
Em determinado momento, Lula reagiu:
“Eu tava parecendo que estava no Ministério Público.”
Nesta quinta-feira, longe dos estúdios da Globo e diante de ministros e integrantes do governo, foi além.
Disse que a entrevista “parecia uma inquisição”.
E transformou justamente uma das perguntas de Tralli em munição para sua resposta política.
Se uma semana antes o apresentador cobrava explicações sobre os milhões de processos parados, agora Lula queria saber se a redução também ganharia espaço no principal telejornal da emissora.
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Lula mira discurso contra Previdência
O evento também serviu para o presidente entrar em outra batalha que deve atravessar a campanha eleitoral: a discussão sobre quem paga a conta do ajuste fiscal.
Lula rejeitou o discurso que coloca aposentadorias, pensões e benefícios sociais no centro do problema das contas públicas.
Para o petista, tratar a Previdência apenas como despesa significa ignorar que os recursos chegam a trabalhadores que contribuíram durante anos para ter direito à aposentadoria.
O presidente também voltou a comparar o peso dos benefícios sociais com o gasto brasileiro com juros.
De um lado, propostas que enxergam aposentadorias e benefícios como espaço para novos cortes. Do outro, o governo tentando defender a Previdência como política de proteção social e renda.
Não por acaso, o anúncio ocorre justamente quando economistas voltam a colocar sobre a mesa propostas de uma nova reforma previdenciária, com aumento da idade mínima e mudanças em benefícios sociais.
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Uma resposta em plena campanha
A queda da fila chega em excelente hora para Lula.
Faltando poucas semanas para o primeiro turno, o governo ganha um número concreto para apresentar em uma área particularmente sensível para milhões de brasileiros.
O INSS é responsável por aposentadorias, pensões, auxílios e pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC). Uma espera de meses não representa apenas uma estatística administrativa: para quem depende desse dinheiro para pagar aluguel, comida ou remédios, significa atravessar semanas sem renda.
Politicamente, o presidente fez questão de fechar o círculo. Foi diante de Tralli que recebeu a cobrança. Foi diante das câmeras que prometeu apresentar uma resposta.
Uma semana depois, apareceu no Planalto com a redução de cerca de 60% no estoque de requerimentos. A fila ainda não desapareceu para todos os segurados. Mas o represamento caiu de forma expressiva.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/lula-fila-inss/

