O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (2), em entrevista na Bahia, que o governo estuda recomprar a refinaria de Mataripe para a Petrobrás, pode rever o leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP) e intensificará a fiscalização sobre distribuidoras e agentes do setor de combustíveis. Na mesma conversa, o presidente defendeu a PEC da Segurança Pública, disse que a proposta permitirá a criação de um Ministério da Segurança Pública e associou a medida a uma atuação mais direta da União contra o crime organizado.
A fala de Lula combina duas agendas de forte impacto político e social. De um lado, o governo tenta conter a pressão sobre diesel, gasolina, etanol e gás de cozinha em meio aos efeitos da guerra no Oriente Médio e às distorções na cadeia de distribuição. De outro, o Planalto volta a defender mudanças na estrutura da segurança pública para ampliar a coordenação federal e reforçar o combate a facções. Na véspera, Lula já havia endurecido o discurso sobre a alta dos combustíveis em declaração publicada pela Fórum.
Mataripe, GLP e o recado contra repasses ao consumidor
Ao tratar dos combustíveis, Lula disse que o governo discute “há algum tempo” a necessidade de recomprar a refinaria da Bahia para a Petrobrás. Segundo ele, não é aceitável que a unidade opere abaixo do que deveria num momento em que o país ainda depende de importação de parte do diesel consumido internamente. O tema já vinha sendo tratado pela Fórum em reportagem sobre a defesa da recompra de Mataripe.
Na entrevista, o presidente voltou a vincular a pressão sobre os preços à política de privatizações e à perda de instrumentos de regulação no setor. Lula afirmou que, sem controle sobre refinarias e estruturas de distribuição, o governo tem menos capacidade de impedir repasses e aumentos que considera injustificados. Esse argumento foi reforçado pelo presidente ao repetir que a guerra “é do Trump, não do povo brasileiro”.
O trecho mais duro da entrevista apareceu quando Lula mencionou o mercado de GLP. O presidente disse que o governo poderá rever o leilão realizado contra a orientação da Petrobrás e afirmou que a população pobre não pode pagar a conta de decisões que elevem artificialmente o preço do gás de cozinha.
Ao justificar a reação, Lula afirmou que o governo não aceitará que a crise internacional seja transferida diretamente para o consumidor brasileiro. O presidente disse que a prioridade é impedir que o impacto externo chegue ao prato de comida do povo, ao frete e ao orçamento doméstico. Dados oficiais da ANP sobre preços do GLP ao consumidor e a síntese semanal dos combustíveis são parte da base usada pelo governo para sustentar o discurso de fiscalização sobre a cadeia de revenda.
PF, PRF e pressão sobre distribuidoras
Lula também afirmou que o governo está reforçando a fiscalização sobre a cadeia de combustíveis. Na entrevista, disse que pretende mobilizar a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal para investigar distribuidoras e agentes econômicos que, na avaliação do governo, estejam elevando preços sem justificativa compatível com a estrutura de custos.
O presidente sustentou que há setores lucrando acima do razoável com a instabilidade internacional e com a fragmentação do mercado interno. Ao falar do gás de cozinha, citou a diferença entre o preço de origem e o valor final pago pela população, apontando um descolamento que, para o Planalto, exige resposta regulatória e repressiva.
Na prática, o recado político da entrevista foi o de que o governo pretende combinar desoneração, pressão sobre a cadeia de distribuição e investigação policial para tentar conter novos repasses. A estratégia dialoga com o discurso apresentado por Lula na matéria da Fórum sobre punição a altas abusivas de combustíveis.
Segurança pública entra no mesmo discurso de endurecimento
No mesmo movimento de endurecimento verbal, Lula defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública e afirmou que a proposta permitirá definir de forma mais clara o papel da União, da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal no sistema nacional de segurança. O Ministério da Justiça sustenta, em nota oficial divulgada após a aprovação da PEC na Câmara, que a proposta fortalece o pacto federativo e o combate ao crime organizado.
Segundo o presidente, a aprovação da PEC abrirá caminho para a criação de um Ministério da Segurança Pública, com capacidade de coordenar ações federais e ampliar a intervenção no enfrentamento às facções. Lula afirmou que o governo já está em guerra contra o crime organizado e disse que o objetivo é atingir não apenas os executores, mas também os financiadores e articuladores das redes criminosas.
Ao defender a mudança, o presidente argumentou que a estrutura atual limita a presença federal na segurança pública e reduz a capacidade de resposta da União diante da expansão de facções e mercados ilícitos. A tramitação da proposta pode ser acompanhada na página oficial da PEC 18/2025 no Senado. Na própria Fórum, a agenda de segurança pública do governo já vinha sendo tratada como eixo político relevante.
Lula também afirmou que, em conversa com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu a entrega de brasileiros foragidos que estariam em território norte-americano. O presidente apresentou o tema como parte da cooperação internacional necessária para enfrentar organizações criminosas e redes transnacionais de lavagem e ocultação de patrimônio.
O governo tem explorado esse discurso de asfixia financeira e integração operacional no combate às facções. Em balanço divulgado em fevereiro, o governo federal informou que PF e PRF retiraram R$ 9,5 bilhões do crime organizado em 2025, dado usado pelo Planalto para sustentar a defesa de maior coordenação nacional na área.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/lula-gas-refinaria-pec-seguranca/

