Medo do ICE leva Brasil a instalar urnas em igrejas e escolas nos EUA

Medo do ICE, a polícia de imigração dos Estados Unidos, está interferindo até na organização da eleição presidencial brasileira. Diante do temor de brasileiros em situação migratória irregular de serem detidos ao sair para votar, o Itamaraty distribuiu seções eleitorais por escolas, igrejas e outros espaços fora das sedes consulares.

As informações foram reveladas nesta terça-feira (29) pelo jornalista Jamil Chade, em reportagem publicada pelo ICL Notícias. Segundo Chade, diplomatas brasileiros receberam informalmente indicações de autoridades norte-americanas de que não estão previstas operações contra imigrantes nas regiões de votação. Mesmo assim, o receio permanece entre brasileiros que vivem no país.

Em alguns postos diplomáticos, a estimativa é de que o movimento nas urnas possa cair até 20% em comparação com 2022, segundo a apuração do jornalista. O medo é especialmente sensível para quem está sem documentação migratória regular e evita locais com grande concentração de estrangeiros.

A preocupação ocorre em meio ao endurecimento da política migratória do governo Donald Trump e à intensificação das operações do ICE. A própria Fórum mostrou recentemente que a agência planeja investir até US$ 20 milhões em luvas capazes de aplicar choques elétricos durante ações contra imigrantes.

Medo do ICE muda locais de votação

Na região de Boston, onde está uma das maiores comunidades brasileiras nos Estados Unidos, duas das estruturas escolhidas para receber eleitores ficam em uma escola e uma igreja.

Uma delas é a Salemwood School, em Malden. Outra funcionará na Saint Tarcisius Parish, em Framingham. A Justiça Eleitoral confirma que, na jurisdição do Consulado-Geral do Brasil em Boston, haverá votação em Malden, Framingham e Hyannis.

A descentralização não é irregular. A Justiça Eleitoral prevê expressamente a possibilidade de instalar seções fora de embaixadas e consulados, levando em consideração a distribuição dos brasileiros e questões de logística.

A escolha de escolas e igrejas, no entanto, não significa que esses espaços estejam automaticamente fora do alcance do ICE. Em janeiro de 2025, o Departamento de Segurança Interna dos EUA revogou a política federal que restringia operações migratórias em áreas consideradas protegidas, como escolas e templos religiosos.

Desde então, decisões judiciais voltaram a impor limites ao ICE em determinados locais de culto, mas essas ordens não criaram uma proibição geral de operações em todas as igrejas e escolas do país. É justamente essa insegurança que ajuda a explicar o temor entre os eleitores brasileiros.

265 mil brasileiros aptos a votar nos EUA

Os Estados Unidos têm o maior eleitorado brasileiro fora do país. Dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral apontavam, ainda em maio, 264.702 eleitores registrados nos EUA, equivalentes a 28,9% do eleitorado brasileiro no exterior naquele momento.

No mundo, o número chegou posteriormente a 918.876 brasileiros aptos a votar nas eleições de 2026, segundo o TSE. O primeiro turno ocorre neste domingo, 4 de outubro.

A comunidade brasileira nos Estados Unidos é muito maior que o eleitorado cadastrado. A estimativa citada por Chade é de aproximadamente 2,3 milhões de brasileiros vivendo no país, perto de 40% da população brasileira residente no exterior.

Na jurisdição de Boston, que abrange Massachusetts, Maine, New Hampshire e Vermont, a concentração de eleitores cresceu fortemente desde a última eleição presidencial. A região reúne dezenas de milhares de brasileiros aptos a votar.

Bolsonaro teve 65% nos EUA em 2022

O receio de uma baixa participação ocorre em um país que deu ampla vantagem a Jair Bolsonaro na última disputa presidencial.

No segundo turno de 2022, Bolsonaro recebeu 65,48% dos votos válidos nos Estados Unidos, com 44.654 votos. Lula teve 34,52%, com 23.542 votos. Em Miami, Bolsonaro chegou a pouco mais de 81% dos votos válidos.

O cenário migratório, porém, é bastante diferente quatro anos depois. Segundo Chade, diplomatas brasileiros relatam que, embora não exista indicação de uma operação do ICE contra eleitores neste domingo, brasileiros em situação irregular continuam evitando situações que possam expô-los às autoridades migratórias.

“Ninguém aqui quer arriscar nada”, disse à reportagem um brasileiro ouvido na região de Boston.

Diplomatas também devem manter contato durante o domingo com organizações da sociedade civil que acompanham operações do ICE. Segundo a apuração de Chade, caso sejam identificadas movimentações da polícia migratória nas proximidades das áreas de votação, a informação deverá ser rapidamente repassada à comunidade brasileira.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/medo-do-ice-urnas-igrejas-eua/