“Não aguento mais esses mineiros”: fala de Eduardo Cunha sobre estado é citada por Dino em investigação de emendas

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, utilizou mensagens interceptadas pela Polícia Federal para embasar, em 6 de julho, o bloqueio de até R$ 6,15 milhões em bens do ex-deputado Eduardo Cunha e a suspensão de 29 emendas parlamentares.

Nos diálogos, Cunha, cassado em 2016 e pré-candidato a deputado federal por Minas Gerais, reclama de “mineiros enrolados” enquanto remaneja destinos de emendas para municípios do estado, operando por meio de uma servidora da Câmara sem qualquer mandato.

A decisão de Dino foi embasada em conversas extraídas do celular de Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, servidora da Câmara apontada pela Polícia Federal como operadora do esquema.

Em um dos trechos reproduzidos na investigação, Cunha pede a ela que substitua o município beneficiado por uma emenda: “Boa tarde, desculpa, mas eu não aguento mais esses mineiros enrolados. Troca a de Governador Valadares por essa, pois lá também criaram caso pedindo ofício etc. É mais fácil trocar.”

O padrão se repete em outras passagens. Em setembro de 2025, diante de um conflito local sobre a autoria de uma emenda destinada a Manhuaçu, Cunha ordenou a substituição do município, indicando o Fundo Municipal de Saúde de Governador Valadares e a Associação Hospital Belizário Miranda como novos destinatários. Sobre a disputa local, resumiu: “Cidade pequena é uma guerra.” Os diálogos mostram um ex-parlamentar sem mandato tratando recursos públicos como moeda de barganha, trocando destinos conforme a conveniência política do momento.

A Operação Transparência e o ‘orçamento secreto’

A investigação é um desdobramento da Operação Transparência, que apura desvios na distribuição de emendas do chamado “orçamento secreto”. A PF aponta que Cunha, sem mandato desde a cassação em 2016, indicava irregularmente emendas destinadas a municípios mineiros valendo-se de Tuca para operacionalizar o direcionamento dos recursos.

O elemento mais revelador, segundo a PF na representação que embasou a decisão de Dino, é justamente a ausência de qualquer vínculo histórico entre Cunha e o estado: “Mais simbólico ainda no sentido do descontrole político e desvinculação ao interesse público dessas destinações é o fato de que o ex-deputado nunca manteve vinculação política com o Estado de Minas.”

Nascido no Rio de Janeiro, Cunha exerceu quatro mandatos como deputado pelo estado fluminense e transferiu o domicílio eleitoral para Belo Horizonte apenas recentemente, de olho nas eleições de outubro.

A motivação, segundo o mesmo documento, é a de cooptar apoio político local para a eleição que se aproxima, afirma a investigação da PF.

Repercussão e defesa de Cunha

A decisão assinada por Dino em 6 de julho não se restringiu a Cunha. Na mesma data, o ministro determinou o bloqueio de R$ 119 milhões do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, sob suspeita de uso de servidores da Câmara para direcionar emendas sem exercer mandato, no mesmo esquema investigado pela Operação Transparência.

A defesa de Eduardo Cunha nega irregularidades e afirma que contestará a decisão no STF. Segundo os advogados, as emendas citadas na investigação foram “oficialmente apresentadas e indicadas por parlamentares, bancadas ou órgãos legitimados”. A defesa também rejeita, em nota, “a tentativa de equiparar automaticamente a legítima interlocução política ao exercício clandestino de mandato parlamentar.” As alegações partem da própria defesa de Cunha e serão submetidas ao crivo do tribunal.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/mineiros-cunha-dino/