Pai que denunciou monitor de escola cívico-militar cobra justiça: ‘Ele aliciou minha filha’

O pai de uma aluna da Escola Cívico-Militar Três Marias, em São João Nepomuceno (MG), publicou um vídeo nas redes sociais cobrando justiça após um monitor ser denunciado por aliciamento de sua filha de 11 anos. O funcionário, que atuava como auxiliar de aprendizagem com vínculo temporário, também é investigado por estupro de vulnerável contra outra aluna de 12 anos, em caso registrado meses antes.

A Secretaria Municipal de Educação desligou o monitor após as denúncias, e a Polícia Civil abriu inquérito sigiloso, mas o suspeito não havia sido localizado até o fechamento desta reportagem.

A denúncia e o clamor por justiça

“Esse maníaco aliciou a minha filha. Há outros pais procurando as delegacias porque existem mais crianças envolvidas”, disse o pai da menina de 11 anos em vídeo publicado nas redes sociais. Sua identidade não foi divulgada para preservar a da filha. No dia 7 de julho, ele registrou boletim de ocorrência por importunação sexual depois de encontrar, no celular da criança, mensagens enviadas pelo monitor.

Segundo apuração do G1, as conversas, trocadas em uma rede social, revelavam o interesse do funcionário em se encontrar a sós com a menina. Após o registro, o pai procurou a direção da escola, que dispensou o funcionário e comunicou o caso à Secretaria Municipal de Educação.

O caso da filha de 11 anos, porém, não foi o primeiro sinal de alarme. Em 11 de abril, outra responsável já havia procurado a Polícia Militar depois de encontrar conversas entre sua filha de 12 anos e o mesmo monitor. Segundo o G1, a adolescente relatou ter mantido relações sexuais com o funcionário em duas ocasiões, em janeiro, e afirmou que ele a assediava havia algum tempo.

A Polícia Civil investiga esse segundo caso como estupro de vulnerável. O monitor chegou a enviar uma mensagem à mãe da adolescente pedindo desculpas pelo ocorrido, segundo apuração do G1. “Eu confio na Justiça. Façam boletim de ocorrência, protejam seus filhos”, completou o pai da menina de 11 anos, em apelo direto a outras famílias que possam ter sido afetadas.

As investigações e a resposta oficial

A Secretaria Municipal de Educação informou que o funcionário, identificado como auxiliar de aprendizagem com vínculo temporário junto ao município, foi desligado imediatamente após o conhecimento dos fatos. A nota da pasta orienta ainda que famílias em situações semelhantes procurem a polícia e a própria secretaria para que os casos sejam investigados e as medidas legais sejam adotadas.

A resposta rápida ao desligamento, no entanto, não responde à pergunta que permanece sem explicação: por que nenhum mecanismo institucional identificou o risco nos meses entre a primeira denúncia, em abril, e a segunda, em julho.

A Polícia Civil confirmou a abertura de inquérito, que tramita sob sigilo em observância ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), para resguardar a identidade das vítimas. A corporação informou que outras informações não serão divulgadas para não prejudicar o andamento das investigações. Até o fechamento desta reportagem, o monitor não havia sido localizado pela Polícia Militar.

O G1 questionou a Polícia Civil sobre as medidas adotadas após o registro da primeira ocorrência, em abril, se o suspeito prestou depoimento e se a escola foi comunicada sobre a investigação, mas não obteve respostas além da confirmação do sigilo.

O contexto da escola cívico-militar e as falhas de proteção

O caso se passa em uma instituição que carrega no próprio nome a promessa de disciplina e segurança. A Escola Municipal Cívico-Militar Três Marias adota o modelo de gestão que vem sendo expandido em municípios brasileiros com o argumento de que a presença de valores militares no cotidiano escolar tornaria o ambiente mais ordenado e protegido.

O que os fatos revelam é diferente: um funcionário com acesso cotidiano a crianças e adolescentes praticou, segundo as denúncias, crimes sexuais contra pelo menos duas alunas, e nenhum mecanismo interno identificou o risco antes que as próprias famílias fossem a campo.

O vínculo temporário do monitor é um dado que não pode ser ignorado. Contratações dessa natureza costumam passar por processos de verificação menos rigorosos do que os aplicados a servidores efetivos, o que amplia a margem de risco em ambientes onde o funcionário terá contato direto e frequente com crianças.

A questão sobre se houve checagem de antecedentes antes da contratação, e quais eram os critérios exigidos pela prefeitura de São João Nepomuceno, permanece sem resposta. O modelo cívico-militar, ao enfatizar hierarquia e civismo como eixos centrais, não demonstrou, neste caso, ter construído salvaguardas efetivas para a proteção das alunas. A disciplina anunciada não protegeu as crianças de dentro da própria escola.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/monitor-escola-civico-militar/