O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ampliou o ataque contra Janja da Silva e contra o projeto que criminaliza a misoginia. Em vídeo publicado nas redes, ele diz que está “lutando desde o primeiro dia” para derrubar a proposta, classifica o texto como “aberração” e afirma que a medida seria uma forma de “controlar o que pode ou não pode ser dito”.
A reação veio após a primeira-dama defender a aprovação da proposta e acusar parlamentares de espalhar mentiras sobre o tema. No vídeo rebatido por Nikolas, Janja diz que, “enquanto você, deputado, se preocupava em produzir um vídeo cheio de mentiras”, uma mulher era assassinada.
Na resposta, o deputado sobe o tom. Diz que Janja tenta “enganar alguém”, afirma que ela faz “cortina de fumaça” e a ataca pessoalmente ao falar em “cara de sonsa”. Ao longo da gravação, Nikolas também tenta deslocar o foco do debate e mistura a discussão sobre misoginia com críticas ao governo Lula, dados sobre violência contra mulheres, ataques ao PT e menções a outros episódios políticos.
Núcleo da ofensiva é contra o projeto
O centro do vídeo, porém, é a ofensiva contra o PL 896/2023, aprovado pelo Senado em 24 de março e enviado à Câmara. Segundo o Senado, o texto inclui a misoginia entre os crimes de preconceito ou discriminação e prevê pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa.
Na tramitação oficial, a misoginia é definida como condutas que exteriorizem ódio, aversão ou desprezo às mulheres. Nikolas sustenta o oposto do espírito da proposta. Afirma que o projeto “não tem nada a ver com violência doméstica, agressão contra a mulher ou até mesmo morte contra as mulheres” e tenta enquadrar a matéria como ameaça à liberdade de expressão.
Não é a primeira vez que a extrema direita mira o texto dessa forma. A própria Revista Fórum mostrou que Nikolas já havia apagado uma fake news sobre o projeto após denúncia da deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP).
Vídeo busca mobilizar base bolsonarista
O conteúdo divulgado agora repete essa linha, mas com uma carga política e emocional mais forte. Nikolas tenta converter o debate legislativo em embate direto com Janja. Faz isso com ironias, provocações pessoais e uma sucessão de acusações contra o governo, numa peça voltada mais à mobilização da base bolsonarista do que à discussão do texto aprovado no Senado.
Em vários trechos, o deputado associa Janja à omissão diante de casos de violência contra mulheres e tenta apresentá-la como símbolo de uma esquerda que, segundo ele, só se indigna quando o episódio serve à disputa política. Também acusa o governo de usar a pauta da misoginia para “ganhar a eleição novamente” e para “calar qualquer um que discorde”.
A estratégia aparece no modo como o vídeo foi montado. Nikolas intercala falas de Janja com resposta direta à câmera, em tom de confronto, para reforçar a ideia de duelo político. O recurso serve para nacionalizar o embate e levar à Câmara uma pauta que a oposição quer transformar em novo campo de guerra cultural.
Projeto chega à Câmara sob clima de confronto
O resultado é que o PL da misoginia desembarca na Câmara já cercado por forte polarização. De um lado, a proposta é defendida como resposta institucional ao discurso de ódio contra mulheres. De outro, Nikolas e aliados tentam vendê-la como instrumento de censura e patrulhamento de fala.
A tensão em torno do texto já vinha crescendo. Em outra reportagem, a Fórum explicou o que diz a proposta e quais mudanças ela traz na legislação. Agora, com Nikolas transformando o tema em ataque frontal a Janja, o projeto passa a ser também mais um teste da capacidade do governo de sustentar no Congresso uma pauta que a direita decidiu explorar no terreno da desinformação e da guerra política.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/nikolas-ataca-janja-e-lei-da-misoginia-fazendo-de-tudo-para-derrubar-aberracao/

