As engrenagens financeiras e os bastidores políticos por trás de Dark Horse, a cinebiografia documental projetada para contar a história do ex-presidente Jair Bolsonaro, ganharam contornos de um escândalo transnacional de proporções inimagináveis. Uma nova e contundente investigação publicada pelo portal The Intercept Brasil, que foi ao ar nesta sexta-feira (15), expõe documentos contratuais e registros de comunicações que implodem a narrativa de distanciamento adotada pela família Bolsonaro.
De acordo com o material revelado, o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) não foi um mero espectador ou um doador passivo de depoimentos para a obra. Pelo contrário: ele atuou diretamente como produtor-executivo do longa-metragem, assumindo responsabilidades legais e amplos poderes sobre a gestão financeira, captação de recursos e o direcionamento de um orçamento multimilionário que rivaliza com superproduções de Hollywood.
Os registros contratuais, assinados digitalmente, e as trocas de mensagens instantâneas obtidas com exclusividade pelo The Intercept Brasil contradizem frontalmente as declarações públicas feitas pelo próprio Eduardo Bolsonaro em suas redes sociais. Na última quinta-feira (14), o parlamentar cassado havia utilizado sua conta no Instagram para tentar minimizar sua participação no projeto, assegurando aos seus seguidores que sua relação com o filme limitava-se à cessão de seus direitos de imagem e que ele jamais exercera qualquer função executiva ou de gerência burocrática no desenvolvimento de Dark Horse. Os papéis oficiais, no entanto, contam uma história radicalmente diferente e o posicionam no epicentro da tomada de decisões financeiras da operação.
Anatomia do contrato: Poder legal de gestão
O alicerce documental da denúncia reside em um contrato de produção detalhado, datado originalmente de novembro de 2023. O documento recebeu a assinatura digital de Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024, consolidando um arranjo societário e operacional complexo. A engenharia do projeto traz a empresa GoUp Entertainment, sediada na Flórida, EUA, na condição de produtora principal. Na linha de frente da produção-executiva, a função mais vital para o controle orçamentário de qualquer obra audiovisual, figuram formalmente Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias (PL-SP).
No mercado cinematográfico global, a cadeira de produtor-executivo confere ao seu detentor o controle final sobre as finanças, os fluxos de caixa e as estratégias de financiamento. O texto do contrato obtido pela reportagem do Intercept é explícito ao determinar que a GoUp Entertainment e os deputados atuariam em estreita consonância. O escopo de suas atribuições conjuntas incluía de forma inequívoca o envolvimento direto em considerações estratégicas ligadas ao financiamento global do filme, além da elaboração de relatórios, portfólios e documentações técnicas voltadas para a atração de investidores de grande porte. Cabia também aos parlamentares a assistência ativa na identificação e captação de recursos de financiamento, o que abrangia o mapeamento de créditos, incentivos fiscais internacionais, acordos de colocação de produtos (product placement) e contratos de patrocínio corporativo.
O arranjo conferia a Eduardo Bolsonaro uma ampla gama de atribuições na engenharia de produção. Ele partilhava a responsabilidade civil e administrativa sobre a definição de como os recursos seriam captados e, principalmente, gastos ao longo do cronograma de produção. Embora o documento não esmiúce a execução fática cotidiana de cada item por parte dos envolvidos, a outorga legal de poder financeiro a Eduardo está plenamente chancelada pela sua assinatura eletrônica.
Paralelamente, um segundo documento sob análise, mostra o Intercept, uma minuta de aditivo contratual datada de fevereiro de 2024, joga ainda mais pressão sobre as justificativas do clã. No texto dessa minuta, Eduardo Bolsonaro é qualificado formalmente sob a condição de financiador do filme, documento este que o autorizava expressamente a dar o aval para o uso de recursos financeiros que ele próprio decidisse investir ou direcionar para o projeto. Embora não haja a confirmação de que este aditivo específico tenha recebido as assinaturas finais, a existência da peça jurídica desenhada por advogados desmente a tese de que o parlamentar cassado desconhecia os meandros fiscais da produção ou que atuava apenas como uma figura de apoio moral à imagem do pai.
Rastreamento de mensagens revela a rota do dinheiro para os EUA
Para além da frieza dos contratos assinados em cartórios digitais, a investigação jornalística obteve acesso a diálogos mantidos por meio de aplicativos de mensagens que expõem a atuação de Eduardo Bolsonaro como um ativo articulador de remessas financeiras internacionais. Em 21 de março de 2025, uma troca de mensagens altamente sensível ocorreu entre o empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Miranda funcionava como uma espécie de ponte e intermediário estratégico nas tratativas que envolviam Vorcaro, a família Bolsonaro e o deputado Mario Frias.
Ao contatar Vorcaro, Miranda encaminhou um print de uma mensagem direta que havia acabado de receber de Eduardo Bolsonaro. Junto à imagem, o intermediário escreveu ao banqueiro: “Já estou fazendo o aditivo da troca da empresa e preciso de um direcionamento seu para seguir”.
Na mensagem originalmente redigida por Eduardo e interceptada pelas investigações, o tom técnico e a preocupação com a burocracia bancária internacional evidenciam sua imersão na engrenagem financeira:
“O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos”, diz Eduardo.
Na sequência do diálogo, demonstrando conhecimento sobre mecanismos de evasão ou de aceleração de transferências de divisas fora do radar tradicional de conformidade, Eduardo propõe a Miranda o que considerava a saída mais viável: “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”.
A cronologia desse encaminhamento de mensagens é um elemento político crucial. O diálogo foi repassado a Daniel Vorcaro em março de 2025. Trata-se exatamente do mesmo mês e ano em que Eduardo Bolsonaro anunciou publicamente seu pedido de licença das atividades legislativas na Câmara dos Deputados para se mudar temporariamente para os EUA, sob a justificativa pública de que cruzaria as fronteiras norte-americanas para articular “sanções internacionais contra violadores de direitos humanos no Brasil”. O que as mensagens indicam, contudo, é que os bastidores de sua viagem estavam intimamente atrelados à engenharia de repasses financeiros para a produção cinematográfica baseada na Flórida.
Elo com o Banco Master e as contas texanas
A revelação deste novo contrato funciona como a peça que faltava para compreender o que o The Intercept Brasil havia trazido à tona dias antes. Na quarta-feira (13), o portal revelou que o senador Flávio Bolsonaro, irmão de Eduardo, fora o responsável por capitanear o apoio financeiro decisivo junto a Daniel Vorcaro. O banqueiro do Master comprometeu-se a aportar uma verdadeira fortuna no projeto: 24 milhões de dólares (o equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões à época).
Desse montante global negociado, a investigação confirmou que ao menos 10,6 milhões de dólares, cerca de R$ 61 milhões nas cotações correspondentes, foram efetivamente transferidos entre os meses de fevereiro e maio de 2025. A dinamicidade das transferências deu-se através de seis operações financeiras robustas destinadas a dar tração ao projeto ligado ao clã político.
A Polícia Federal está investigando com lupa se esses milhões repassados por Vorcaro para a execução do filme serviram, na verdade, como um duto para custear de forma camuflada as despesas pessoais, a manutenção de alto padrão e a permanência prolongada de Eduardo Bolsonaro em solo norte-americano.
Embora Eduardo tenha vindo a público negar o recebimento das verbas, a análise técnica dos fluxos bancários realizada pela reportagem indica que uma parcela substancial dos valores negociados por Flávio com o banqueiro tomou o rumo de um fundo financeiro sediado nos EUA, inteiramente controlado por aliados íntimos de Eduardo. A ponte foi feita pela empresa Entre Investimentos e Participações, que atuava em consórcio com as firmas pertencentes a Vorcaro. Os valores foram depositados nas contas do Havengate Development Fund LP, um fundo de investimentos estruturado no estado do Texas.
Os documentos societários da junta comercial texana apontam as digitais da rede de apoio de Eduardo Bolsonaro, a começar pelo agente legal registrado e responsável pelo fundo, que é o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de propriedade de Paulo Calixto, o advogado pessoal contratado por Eduardo para gerenciar seu complexo processo de visto e imigração nos EUA. Além disso, o fundo Havengate LP pertence formalmente a uma companhia controladora quase homônima, a Havengate Development Fund GP LLC, sediada no mesmo endereço comercial na cidade de Dallas. Os registros oficiais desta segunda empresa apontam o empresário Altieris Santana como membro societário e o próprio advogado Paulo Calixto como administrador e membro pleno.
A vinculação do grupo com Eduardo ganha contornos de cumplicidade nas mensagens em que o próprio deputado cassado, ao debater soluções para apressar o envio dos dólares para o exterior, coloca Altieris Santana formalmente à disposição para participar de reuniões de alinhamento financeiro e operacional com os investidores do projeto. Em sua defesa veiculada no Instagram, Eduardo tentou descolar a finalidade do dinheiro, alegando que o escritório de Calixto cuidava unicamente da “gestão burocrática, financeira e legal dos recursos” e que apenas o indicara a Mario Frias devido à sua notória competência de mercado.
Orçamento de Hollywood e o balcão de negócios do green card
A robustez dos documentos de planejamento interno aos quais o Intercept teve acesso joga luz sobre as dimensões megalômanas de Dark Horse. O orçamento consolidado previsto para a cinebiografia de Jair Bolsonaro oscilava na impressionante faixa entre 23 milhões e 26 milhões de dólares, uma média de R$ 140 milhões. Para efeitos de comparação no mercado audiovisual, trata-se de um custo astronômico, muito acima do padrão de qualquer superprodução comercial ou documental da história do cinema brasileiro e equivalente ao orçamento de produções de grande porte de Hollywood vencedoras do Oscar.
Dentro da planilha detalhada de custos, assusta a destinação de mais de 10,7 milhões de dólares exclusivamente para a rubrica técnica denominada “acima da linha” (above-the-line). Esta divisão engloba todos os pagamentos e custos gerados antes mesmo do início físico das filmagens, tais como a aquisição dos direitos autorais do roteiro e os salários de diretores, atores, produtores principais e roteiristas de alto escalão envolvidos no design estratégico da obra.
Para angariar esse montante sem depender de mecanismos tradicionais de fomento público, dos quais a família Bolsonaro sempre se declarou inimiga, a estratégia desenhada pelos produtores-executivos consistiu no fatiamento do filme em um balcão de negócios internacional. O plano previa a venda de 40 cotas fechadas de investimento, com o valor nominal de 500 mil dólares cada uma, visando atingir a meta inicial de 20 milhões de dólares.
A fim de tornar o negócio irresistível para grandes investidores e empresários alinhados ideologicamente à extrema direita, a produção criou pacotes de benefícios VIP inteiramente atípicos para a indústria cinematográfica tradicional. Na primeira modalidade de incentivo, o investidor que aportasse a quantia de um milhão de dólares garantia uma cadeira cativa no conselho consultivo de produção, o que lhe dava o direito de dar palpites, vetar e influenciar diretamente o direcionamento artístico e criativo do filme. Já no pacote mais controverso e caro, estipulado no valor de um milhão e cem mil dólares, o grande chamariz de vendas abandonava os critérios artísticos e focava na promessa explícita de uma “oportunidade de imigração”. O plano de negócios estruturado pela equipe vendia o aporte no documentário como um atalho legal para que empresários estrangeiros de alto poder aquisitivo pudessem comprar o direito ao cobiçado green card, obtendo o visto de residência permanente e definitivo nos EUA.
As promessas de retorno financeiro contidas nos prospectos de atração eram agressivas. A GoUp Entertainment assegurava aos financiadores a devolução integral (100%) do capital aportado na primeira janela de receitas, acrescido de um prêmio fixo de 20% de lucro líquido sobre o valor inicialmente investido. As projeções de faturamento global do filme foram mapeadas em três cenários comerciais: um cenário pessimista estipulado em 45 milhões de dólares; um cenário considerado conservador de 70 milhões de dólares; e um teto otimista projetado na casa dos 100 milhões de dólares de receita mundial através de bilheteria física e contratos de distribuição em plataformas de streaming.
O ponto que conecta diretamente o ganho pessoal dos parlamentares envolvidos está na cláusula de partilha residual. O documento estipula com clareza que, uma vez quitado o capital inicial dos investidores e pago o bônus de 20%, todo o lucro líquido excedente gerado pelas exibições globais seria dividido em partes iguais: 50% para o consórcio de investidores e 50% retidos na conta dos produtores. Em suma, o contrato comprova que Eduardo Bolsonaro e Mario Frias antes de tudo desenharam uma máquina de captação que os colocava na condição de beneficiários diretos dos lucros comerciais da biografia familiar.
Cerco político e o silêncio dos envolvidos
A divulgação da teia de conexões que une a GoUp Entertainment, o Instituto Conhecer Brasil e os gabinetes do PL em Brasília adicionou um ingrediente de extrema gravidade jurídica ao caso. A GoUp tem como sócios registrados na Flórida a brasileira Karina Ferreira da Gama e o cidadão norte-americano Michael Brian Davis. Investigações paralelas conduzidas anteriormente revelaram que uma organização não-governamental controlada por Karina Gama, o Instituto Conhecer Brasil, abocanhou ao menos R$ 108 milhões oriundos de contratos com a Prefeitura de São Paulo para a instalação e manutenção da rede de Wi-Fi público na capital paulista. O Ministério Público do Estado de São Paulo investiga o contrato desde o mês de março por suspeitas de que a ONG não efetuou as entregas estipuladas.
Para além disso, o cenário complicou-se para o parceiro de produção de Eduardo. O Supremo Tribunal Federal tenta, há mais de trinta dias, notificar e intimar formalmente o deputado Mario Frias. O tribunal cobra explicações do parlamentar acerca de indícios de graves irregularidades no direcionamento de emendas parlamentares federais de sua autoria. Frias teria enviado a quantia de R$ 2 milhões em verbas públicas justamente para o Instituto Conhecer Brasil, fechando o triângulo de interesses que une o dinheiro do orçamento público, a ONG paulista e a produtora do documentário na Flórida.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/nova-bomba-contrato-eduardo-bolsonaro-dinheiro-filme/

