Karina Gama: ONG ligada a filme de Bolsonaro multiplicou receita por 170 e bateu em R$ 54 milhões na gestão Nunes

O roteiro do escândalo que liga a Prefeitura de São Paulo ao financiamento da propaganda ideológica de Jair Bolsonaro (PL) ganha um novo e milionário capítulo. O Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização não governamental comandada por Karina Ferreira da Gama, presidente da produtora do filme Dark Horse, viu sua receita disparar 170 vezes em um intervalo de apenas três anos. O combustível principal desse crescimento meteórico atende pelo nome de dinheiro público, injetado de forma massiva durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

Dados de demonstrações financeiras entregues ao Ministério da Justiça, e revelados pelo portal Metrópoles, confirmam a voracidade financeira da entidade bolsonarista. Em 2022, o caixa do instituto declarava minguados 306 mil reais. No encerramento do balanço de 2025, o montante saltou para espantosos 54 milhões de reais. Desse total assustador, 51,9 milhões de reais foram enquadrados diretamente na rubrica de “parcerias e subvenções governamentais”.

O buraco negro do Wi-Fi na gestão Ricardo Nunes

A explosão contábil coincide milimetricamente com o período em que o Instituto Conhecer Brasil abocanhou um contrato nebuloso, inicialmente de 108 milhões de reais, com a Prefeitura de São Paulo. O objetivo declarado no edital era instalar cinco mil pontos de internet em comunidades periféricas da capital. No entanto, o projeto se tornou o epicentro da recente Operação Wi-Fi Livre, deflagrada em junho pela Polícia Civil, que apura se parte dessa fortuna dos cofres paulistanos foi desviada para sustentar a cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Para agravar o cenário de sangria, a gestão Nunes formalizou um aditivo que injetou mais 49 milhões de reais no projeto, elevando o custo da operação com a ONG para mais de 157 milhões de reais. Enquanto os repasses municipais se avolumavam, a entidade pulverizava o dinheiro público em quarteirizações suspeitas. O próprio demonstrativo de 2025 atesta que 52 milhões de reais escoaram sob a justificativa de “serviços de terceiros”, configurando uma verdadeira caixa-preta contábil.

Como a Revista Fórum vem cobrindo de perto, a rede de subcontratações abre um fosso perigoso de irregularidades. Levantamentos investigativos apontaram recentemente que uma das empresas arregimentadas pelo ICB para instalar os pontos de internet nas favelas de São Paulo pertence a um homem acusado pelos órgãos de inteligência de integrar a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o duto do Banco Master

A teia de interesses não se restringe ao limite territorial do município de São Paulo. A produtora Go Up Entertainment, cuja sócia é a mesma presidente da ONG, afirma que o longa-metragem Dark Horse custou 75 milhões de reais. As cifras, contudo, conflitam com negociações muito mais vultosas flagradas nos bastidores políticos de Brasília, encabeçadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Áudios e mensagens vazadas revelam Flávio Bolsonaro cobrando repasses milionários diretamente do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Vorcaro, que chegou a ser preso por fraudes bilionárias contra o sistema financeiro, discutia com seus sócios fluxos de pagamentos ao projeto que atingiam a marca de 24 milhões de dólares, valor que ultrapassa a casa dos 134 milhões de reais na conversão atual.

Na tentativa de maquiar a estrutura do esquema e sugar ainda mais verba pública, Karina Gama tentou transformar o Instituto Conhecer Brasil em uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). O plano audacioso foi rejeitado pelo governo federal no primeiro semestre. Parecer técnico apontou que o próprio estatuto da ONG previa benefícios patrimoniais privados aos associados, rasgando o que determina a lei brasileira sobre entidades de interesse exclusivamente público.

A matemática irreal que multiplicou a receita da entidade em 170 vezes destrincha o funcionamento do ecossistema bolsonarista. Sob a fachada do moralismo, articula-se uma máquina de captação pesada, irrigada pelo dinheiro público e operada livremente nas sombras de aliados no poder Executivo.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ong-filme-de-bolsonaro-nunes/