Soraya Thronicke (PSB-MS) reagiu na noite desta segunda-feira (29) aos ataques misóginos de Paulo Figueiredo, aliado do clã Bolsonaro que vive nos Estados Unidos, depois de o bolsonarista afirmar que mulheres “votam muito mal” e repetir a declaração nas redes sociais.
A senadora disse que oficiou a Procuradoria-Geral da República para pedir providências contra Figueiredo e enquadrou o caso como violência política de gênero. Na publicação, Soraya chamou o bolsonarista de “covarde” e “acéfalo” e afirmou que ele, “lá dos EUA”, resolveu “defecar pela boca”.
“Este traidor da pátria, foragido da justiça brasileira, covarde, parvo, néscio, limítrofe, lerdo, acéfalo, não amado, medroso, inseguro, complexado por não conseguir ser ninguém além de neto de um ditador, resolve, lá dos EUA, defecar pela boca.”
Depois da resposta de Soraya, Figueiredo voltou ao X e chamou a senadora de “Soraya Trambique”. Ele também afirmou que a reação da esquerda seria “censura e perseguição criminal” e disse que a parlamentar seria “aposentada por eleitores de ambos os sexos” em outubro.
https://x.com/pfigueiredo08/status/2071778663599648953
Paulo Figueiredo repetiu ataque contra voto das mulheres
A crise começou após vir à tona uma fala de Figueiredo em vídeo no YouTube na qual ele atacou Michelle Bolsonaro e classificou o voto feminino como ruim. O bolsonarista afirmou que “mulher vota estatisticamente muito mal”, com foco especial em mulheres solteiras.
No trecho que passou a circular nas redes, Figueiredo disse que “mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido” e que mulheres solteiras “não”. Em seguida, reagiu às críticas com uma frase de baixo calão contra quem se incomodasse com a declaração.
Horas depois, em vez de recuar, o aliado bolsonarista publicou apenas: “Reitero.” A postagem ampliou a crise e transformou a fala em novo foco de desgaste para o entorno de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato da extrema direita à Presidência.
https://x.com/pfigueiredo08/status/2071710224738615300
Figueiredo ainda publicou uma arte com a frase “Mulher vota mal para caralho. Mude a minha opinião”, segundo registros que circularam nas redes e foram citados pela imprensa. A insistência no ataque fez Soraya levar o caso para o campo institucional.
Soraya Thronicke cobra ação da PGR contra misoginia
Na publicação, Soraya afirmou que ataques desse tipo não atingem apenas uma mulher individualmente, mas todas as mulheres que participam da política e do processo eleitoral. A senadora escreveu que “se mexeu com uma, mexeu com todas”.
A Lei nº 14.192/2021 estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. A legislação trata de condutas que buscam impedir, dificultar ou restringir direitos políticos de mulheres, inclusive no exercício de mandato eletivo.
Soraya também pediu que Figueiredo seja proibido de se comunicar publicamente por redes sociais e outros meios. A parlamentar sustentou que a conduta deve gerar ação penal e cobrou atuação rápida da PGR.
Flávio Bolsonaro entra na crise do eleitorado feminino
O ataque de Paulo Figueiredo ocorre no momento em que Flávio Bolsonaro tenta reorganizar a própria pré-campanha em meio à guerra interna no bolsonarismo. Como mostrou a Fórum, o racha no clã Bolsonaro expõe disputa por sucessão, palanques e controle da extrema direita.
A crise ganhou força após Michelle Bolsonaro criticar Flávio e ampliar o desgaste público com os enteados. A Fórum também mostrou que Michelle deixou de seguir Carlos e Eduardo Bolsonaro nas redes, em mais um sinal da ruptura no núcleo familiar e político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em outra postagem, Figueiredo reagiu a uma análise do Estadão que apontava o silêncio de Flávio diante do ataque ao voto feminino. O bolsonarista escreveu que é “amigo do Flávio” e que suas opiniões são dele, não do senador.
https://x.com/pfigueiredo08/status/2071735664538767582
O problema eleitoral é direto. Mulheres são maioria no eleitorado brasileiro. A página de estatísticas do eleitorado do Tribunal Superior Eleitoral reúne os dados oficiais extraídos do Cadastro Nacional de Eleitores, e levantamentos com base nesses registros apontam que o eleitorado feminino passa de 52% dos votantes em 2026.
É nesse cenário que o ataque de Figueiredo atinge um ponto sensível para a direita. A fala mira justamente o grupo que pode decidir a eleição presidencial e expõe a contradição de uma pré-campanha que tenta se aproximar de mulheres enquanto um de seus aliados normaliza o desprezo ao voto feminino.
Valdemar admite peso de Michelle e Figueiredo ironiza
Figueiredo também reagiu a uma publicação do Portal Claudio Dantas atribuída a Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL. Na mensagem reproduzida pelo bolsonarista, Valdemar teria afirmado que, “se perdermos a Michelle, a eleição vai ficar muito difícil”.
Ao comentar a frase, Figueiredo ironizou o peso político da ex-primeira-dama e escreveu: “Como se pode perder o que não se tem?” Em seguida, questionou como a eleição ficaria “mais difícil” se Michelle “já está abertamente fazendo vídeo contra o candidato”.
https://x.com/pfigueiredo08/status/2071769269164208388
A sequência de publicações mostra que o ataque misógino saiu do terreno de uma fala isolada e passou a compor a disputa interna do bolsonarismo. De um lado, Michelle Bolsonaro e Damares Alves aparecem como lideranças femininas relevantes da direita. De outro, aliados de Flávio tentam reduzir o peso político delas no momento em que a campanha precisa disputar o voto das mulheres.
Paulo Figueiredo já responde a caso ligado a Eduardo Bolsonaro
O episódio também recoloca Paulo Figueiredo no centro do radar institucional. Em junho, o Ministério Público Federal informou que Figueiredo também foi denunciado no caso de coação no curso do processo que envolve Eduardo Bolsonaro, embora a ação penal contra ele tenha sido desmembrada e siga em curso próprio.
A Fórum já mostrou que Paulo Figueiredo virou alvo da Polícia Federal no inquérito que apurou a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos contra autoridades brasileiras.
Agora, a reação de Soraya Thronicke abre uma nova frente contra o bolsonarista. A senadora quer que a PGR trate o ataque ao voto feminino como violência política de gênero. Figueiredo, por sua vez, dobrou a aposta, atacou a parlamentar e tentou enquadrar a resposta institucional como censura.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/paulo-figueiredo-soraya-misoginia/

