O cenário das rodovias paulistas está passando por uma transformação radical que tem gerado mais dúvidas do que certezas entre os motoristas. O sistema de pedágio free flow (fluxo livre), uma tecnologia que elimina as tradicionais cabines e cancelas, foi transformado em uma das principais bandeiras da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). No entanto, o que é vendido como modernidade e agilidade tem se revelado, na prática, uma armadilha burocrática e financeira para milhares de cidadãos, com riscos reais de multas pesadas e restrições no CPF.
LEIA TAMBÉM: Governo Lula manda suspender 3 milhões de multas do pedágio free flow
“Pedágio Invisível”: Como funciona a tecnologia
Diferente do modelo convencional, onde o veículo precisa parar ou reduzir drasticamente a velocidade para o pagamento, o free flow utiliza pórticos equipados com câmeras de última geração, sensores e scanners a laser.
O sistema funciona de duas formas principais:
-
Via TAG: Para quem possui dispositivos como Sem Parar, Veloe ou ConectCar, a leitura é automática e o débito ocorre na fatura do usuário, geralmente com descontos progressivos.
-
Pela Placa (OCR): Para quem não possui a TAG, as câmeras fazem o reconhecimento da placa. É aqui que reside a maior “dor de cabeça” da população. O motorista não recebe um boleto em casa e nem é parado para pagar. Ele precisa, por iniciativa própria, acessar o site ou aplicativo da concessionária responsável em um prazo determinado para quitar o débito.
LEIA TAMBÉM: Pedágio free flow: entenda o conceito
A expansão silenciosa de Tarcísio
O governo estadual tem acelerado a implementação deste modelo em concessões estratégicas. Um dos pontos de maior impacto será o Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI). Atualmente, o motorista que desce para o litoral paulista paga uma tarifa salgada apenas na ida. Com a implementação do free flow prevista no novo contrato de concessão, a cobrança passará a ocorrer na ida e na volta.
Embora o governo argumente que a tarifa será “fatiada” e proporcional aos quilômetros rodados (o que beneficiaria quem percorre trechos curtos), a percepção de muitos usuários é de que o custo total da viagem irá aumentar, especialmente para quem faz o trajeto completo entre a capital e a Baixada Santista.
Além do SAI, o sistema já opera ou está em fase de implementação em trechos da Rodovia Ayrton Senna, Carvalho Pinto e em rodovias do interior, como a SP-333 (Itatiba-Jundiaí). A meta da gestão Tarcísio é que o modelo se torne o padrão em todas as novas concessões paulistas.
LEIA TAMBÉM: Pedágio free flow vira arma de Tarcísio silenciosamente
Armadilha da multa e o risco ao CPF
O caráter “silencioso” da cobrança é o que mais preocupa especialistas e entidades de defesa do consumidor. Como não há uma barreira física, muitos motoristas — especialmente turistas ou pessoas que não acompanham o noticiário local — cruzam os pórticos sem perceber que geraram uma dívida.
O prazo para pagamento é rígido. Caso o motorista não efetue a quitação em até 15 dias, ele comete uma infração de trânsito grave por “evasão de pedágio”. As consequências são severas:
-
Multa de R$ 195,23;
-
5 pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH);
-
Inscrição em Dívida Ativa: O não pagamento da tarifa e da multa pode levar o nome do cidadão para os órgãos de proteção ao crédito (Serasa/Boa Vista), bloqueando o CPF para empréstimos e financiamentos.
A crítica central ao modelo de Tarcísio é a falta de uma sinalização educativa eficiente e a ausência de mecanismos que facilitem o pagamento imediato para quem está em trânsito e não possui conta em aplicativos de concessionárias.
LEIA TAMBÉM: Pedágio free flow: o preço e a dor de cabeça
Controvérsia e desigualdade digital
O sistema free flow acaba por punir os usuários menos digitalizados ou aqueles que não têm condições financeiras de manter uma TAG com mensalidade. O motorista é obrigado a ter um smartphone com internet e disposição para navegar em portais de concessionárias muitas vezes instáveis para conseguir pagar por um serviço que, antes, era resolvido com dinheiro em espécie no ato da passagem.
Além disso, parlamentares de oposição e movimentos sociais apontam que o modelo beneficia diretamente as concessionárias, que reduzem custos operacionais drasticamente ao demitir funcionários das cabines, enquanto o repasse dessa economia para a redução real das tarifas ainda é alvo de intenso debate técnico e político.
Conclusão: Modernidade ou arrecadação?
Enquanto o governo de São Paulo defende que o free flow reduz o tempo de viagem e a emissão de poluentes ao evitar congestionamentos nas praças de pedágio, a população se vê diante de um sistema punitivo. A “modernidade” de Tarcísio de Freitas parece, no momento, focar mais na eficiência da arrecadação e na redução de custos das empresas do que na facilidade para o contribuinte, que agora carrega o fardo de lembrar de pagar uma conta que ele sequer vê ser gerada.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/pedagio-free-flow-ampliado-sp/

