PT não cai na armadilha de Flávio e descarta pedir inelegibilidade após ataque às urnas a embaixadores

O deputado Lindbergh Farias (RJ) anunciou que o PT não entrará com uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir a inelegibilidade de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) depois de o senador atacar a credibilidade das urnas eletrônicas diante de embaixadores.

Segundo Lindbergh, Flávio repetiu deliberadamente a estratégia que tornou Jair Bolsonaro inelegível para provocar a Justiça Eleitoral e poder se apresentar como vítima de perseguição política. Desta vez, afirmou, o partido não morderá a isca.

“Flávio, nós não vamos entrar no TSE para pedir sua inelegibilidade. É isso que você quer, né? Para se dizer perseguido, para ficar acusando. Nós vamos derrotar você e sua turma nas urnas”, declarou o líder do PT na Câmara em vídeo publicado nas redes sociais.

Lindbergh também alertou que a ofensiva contra o sistema eleitoral faz parte da preparação de uma nova tentativa de golpe caso o resultado das eleições de outubro não seja favorável ao bolsonarismo.

“Vocês querem um motivo para questionar a lisura eleitoral, para pedir que os Estados Unidos não reconheçam, para tentar dar novamente um golpe”, denunciou.

Flávio repete o pai diante de embaixadores

Flávio Bolsonaro participou, nesta terça-feira (21), do evento “Debatendo o Brasil”, organizado pelo site The Brazilian Report e pela agência Novo Selo Comunicação. O encontro reuniu representantes diplomáticos de 42 países.

Diante dos embaixadores, o senador citou documentos divulgados pela gestão de Donald Trump sobre suspeitas de fraude em eleições venezuelanas e tentou relacionar a empresa Smartmatic às urnas brasileiras.

“Muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, afirmou.

A declaração é falsa. A Smartmatic não fornece urnas nem programas utilizados nos equipamentos brasileiros. Todo o projeto do sistema eletrônico de votação foi desenvolvido e é administrado pela Justiça Eleitoral.

A empresa manteve contratos com o TSE apenas para serviços de conexão de dados e voz e treinamento de profissionais de suporte. Também participou de uma licitação para fabricar urnas para as eleições de 2020, mas perdeu o processo para a Positivo.

O TSE já desmentiu repetidamente a relação entre a Smartmatic e a fabricação ou programação das urnas, inclusive após a fala de Flávio.

Mesmo depois de disseminar a informação falsa, o senador declarou que não estava questionando o sistema eleitoral e pediu que os países enviassem “a maior quantidade de observadores possível” para as eleições brasileiras.

A contradição é central à estratégia: Flávio lança suspeitas contra as urnas e, ao mesmo tempo, tenta evitar a responsabilidade de quem abertamente questiona a legitimidade do processo eleitoral.

Reunião semelhante tornou Jair Bolsonaro inelegível

O episódio repete o roteiro adotado por Jair Bolsonaro em julho de 2022. Na ocasião, o então presidente convocou embaixadores ao Palácio da Alvorada e utilizou a estrutura pública para divulgar acusações falsas contra as urnas eletrônicas.

A apresentação foi transmitida pela televisão pública e não apresentou qualquer prova de fraude. Posteriormente, o TSE concluiu que Bolsonaro cometeu abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, tornando-o inelegível.

Na reunião desta terça-feira, Flávio chegou a mencionar o episódio e afirmou que o pai teria apenas manifestado “preocupações” sobre o sistema eleitoral.

Para Lindbergh, a repetição não é acidental. O senador busca uma reação da Justiça Eleitoral que possa ser usada para sustentar a narrativa de perseguição antes mesmo da campanha.

“Eles querem afrontar a Justiça Eleitoral, afrontar o Supremo Tribunal Federal, para criar um fato político, para se dizerem perseguidos”, afirmou o deputado.

Assista ao vídeo de Lindbergh:

https://x.com/lindberghfarias/status/2079739862287016431

Eduardo já encampa narrativa “fraude” mirando novo golpe

A ofensiva de Flávio ocorre ao mesmo tempo em que Eduardo Bolsonaro prepara o discurso para uma eventual derrota do irmão para Lula.

Em entrevista ao jornalista Cláudio Dantas, também nesta terça-feira, Eduardo voltou a atacar as urnas sem apresentar provas e tentou usar declarações e iniciativas de Donald Trump como aval externo para uma futura contestação.

“Todos eles chegaram à mesma conclusão do Trump. É que o Trump falando dá outro peso às coisas”, afirmou.

O ex-deputado chamou as urnas de “máquinas obscuras” e alegou que uma fraude não precisaria alterar todos os votos, mas apenas uma quantidade suficiente para mudar o resultado. Segundo ele, somente uma vitória “de goleada” impediria a suposta manipulação.

A lógica já é conhecida: se Flávio vencer, o resultado será reconhecido; se perder, principalmente por margem apertada, o sistema voltará a ser colocado sob suspeita.

As urnas e o processo eleitoral, no entanto, são submetidos a diferentes formas de fiscalização e auditoria. Partidos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, universidades e outras instituições podem acompanhar o código-fonte, os testes de segurança, os boletins de urna e a totalização dos votos.

O relatório produzido pelas Forças Armadas depois das eleições de 2022 não encontrou fraude. A auditoria solicitada pelo PSDB após a eleição de 2014 também não identificou qualquer manipulação.

O roteiro para uma nova contestação

Depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022, o PL pediu ao TSE que anulasse os votos registrados em mais de 279 mil urnas. O partido questionou apenas o segundo turno, embora os mesmos equipamentos tivessem sido utilizados no primeiro, quando a legenda elegeu uma grande bancada.

Sem apresentar provas de alteração dos votos, o pedido foi rejeitado. O TSE condenou o PL por litigância de má-fé e aplicou uma multa de R$ 22,9 milhões.

Agora, com pesquisas colocando Lula à frente de Flávio, a família Bolsonaro volta a desacreditar antecipadamente uma eleição que pode perder.

Flávio internacionaliza as suspeitas diante de embaixadores, enquanto Eduardo tenta transformar Trump em avalista de uma possível denúncia de fraude e de uma pressão para que os Estados Unidos não reconheçam o resultado.

Ao decidir não pedir a inelegibilidade do senador, o PT tenta retirar do bolsonarismo o argumento da perseguição. O discurso, porém, ficará registrado como mais uma etapa da construção de um novo ataque ao processo eleitoral brasileiro.

“Esse caminho que você está tomando é o mesmo do seu pai”, alertou Lindbergh. “Nós vamos derrotar você e sua turma nas urnas.”

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/pt-flavio-inelegibilidade-urnas/