A política brasileira, em sua fase pós-2018, especializou-se em produzir fenômenos que, sob a capa de um “tecnicismo inabalável”, escondiam projetos personalistas e uma profunda dificuldade de convívio com a liturgia das instituições. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) é, talvez, o exemplo mais descarado dessa linhagem. Egresso da Polícia Civil de Sergipe, onde construiu carreira como delegado, Vieira chegou ao Senado Federal carregado pelo tsunami lavajatista que varreu o país, prometendo uma “nova política” pautada pela ética e pelo fim do que chamava de “sistema de impunidade”.
Contudo, o que se viu nesta semana, no encerramento da CPI do Crime Organizado, não foi o trabalho de um investigador obstinado ou de um legislador sério. Foi o ato final de uma peça de ficção jurídica risível. Ao apresentar um relatório que ignora as engrenagens das facções criminosas que assolam o país para focar em um ataque direto e sem base legal contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o procurador-geral da República (PGR), Vieira assinou o próprio atestado de irrelevância técnica e oportunismo político.
Gênese: O “delegado do povo” e o antipetismo patológico
Para entender o relatório cretino desta semana, é preciso voltar a Sergipe em 2018. Alessandro Vieira não era um político de carreira; era o “Delegado-Geral”, o homem da lei que enfrentava as oligarquias locais. Sua plataforma era simples: o punitivismo como solução para todos os males. Ao ser eleito pela Rede Sustentabilidade, ele se tornou o rosto do movimento “Muda, Senado”, uma espécie de braço parlamentar da funesta Operação Lava Jato.
A capa de “independente”, porém, sempre foi permeável. Em 2021, em uma entrevista reveladora ao jornal El País Brasil, Vieira admitiu o que muitos já suspeitavam: seu voto em Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018 não foi um erro de percurso, mas o resultado de um antipetismo patológico que vigorava acima de tudo. Até mesmo votar num psicopata defensor da tortura e da execução de adversários era válido em sua cabeça, desde que o PT perdesse a eleição.
“O que eu vejo hoje não é que a sociedade está tomando ciência e posição, mas é que uma parte daqueles que em 2018 abraçaram um projeto em nome do antipetismo, agora entenderam os prejuízos que ele causa. Como eu votei no Bolsonaro no segundo turno, eu estou nesta tribo. Éramos pessoas que não tínhamos uma grande expectativa. Quando eu declarei o voto, eu já era senador eleito, justifiquei que entre o projeto do PT e desse daí que é meio desconhecido, ia apostar neste, mesmo sabendo que tem problemas, que ele é um cara que aparenta não ter preparo, que tem tentações autoritárias. Mas eu acreditei que ele ia ter uma contenção institucional”, assumiu ao El País Brasil.
Essa confissão é o “fio de Ariadne” para compreender sua psique política. Para Vieira, a destruição do PT e de qualquer estrutura ligada à esquerda justificava a ascensão de um projeto autoritário, desde que este mantivesse a pátina de “combate à corrupção”. Sim, esse era o mantra, que mesmo vazio deveria seguir sendo repetido como clichê, pois, afinal, dá muitos votos.
Metamorfose de uma conveniência
Durante o governo Bolsonaro, Vieira tentou equilibrar-se em um cabo de guerra. De um lado, o lavajatismo raiz que o elegeu; do outro, a necessidade de se distanciar das bizarrias e do negacionismo do clã presidencial para manter seu verniz de “senador técnico”. Na CPI da Pandemia, ele brilhou em interrogatórios, utilizando sua experiência como delegado para encurralar depoentes. Foi ali que ele conquistou um respeito temporário até de setores progressistas, um respeito que, agora se vê, foi fruto de uma ilusão de ótica.
Vieira nunca rompeu com a ideologia que o formou. Ele apenas mudou o alvo conforme o vento soprava. Quando Bolsonaro se aliou ao Centrão e o lavajatismo foi sepultado pelo próprio governo que o ajudou a eleger, Vieira precisou de um novo inimigo. E ele o encontrou no topo da Praça dos Três Poderes.
No entanto, sua sanha por atacar o topo do Judiciário não era algo novo. Como bom lavajatista, ele sempre mirou nesse bode expiatório da “Justiça bandida”. Na mesma entrevista ao El País Brasil, em 2021, ele já dava sinais, mesmo quando o assunto era outro, de que miraria e atiraria no Supremo Tribunal Federal.
“Se eu mostro para a sociedade e para integrantes da Forças Armadas que existe gente que está acima da lei, eu os estou autorizando a continuar fora da lei. Eu tenho de garantir o contrário, de que todo mundo está abaixo da lei, seja um general de quatro estrelas ou não. É um pouco da ideia que tínhamos para criar a CPI da Lava Toga, nada do que os ministros fazem aqui sobreviveria se os ministros fossem um juiz de primeiro grau. Nada! Se um juiz de primeiro grau vai se encontrar pra comer uma pizza com um investigado por crime, ele vai responder na corregedoria do tribunal dele e vai responder no Conselho Nacional de Justiça. Se é um ministro do Supremo, não”, disse ao ser questionado sobre o forte autoritarismo militar que surgia no seio do governo de Jair Bolsonaro.
Relatório do absurdo: Quando o crime vira coadjuvante
A CPI do Crime Organizado deveria ser, em tese, o ápice da carreira de um senador-delegado. Com o país refém de crises de segurança pública, esperava-se um raio-x das rotas de tráfico, do financiamento das milícias e da lavagem de dinheiro. O que Alessandro Vieira entregou, no entanto, foi uma peça de teatro político que beira o desequilíbrio institucional e o ridículo.
Ao não indiciar uma única liderança das grandes facções e, em vez disso, “indiciar” o PGR e ministros do STF, autoridades sobre as quais o Senado não possui poder de indiciamento via CPI para fins criminais comuns, Vieira operou uma manobra de distração em massa que passou de todos os limites e acabou virando piada. É o que se chama na caserna de “cortina de fumaça”. Sem fatos novos ou provas robustas que ligassem magistrados ao crime organizado, o senador utilizou o palanque do relatório final para alimentar o ecossistema de desinformação da extrema direita, que elegeu o STF o grande vilão da República e o espantalho do bolsonarismo.
O relatório não é apenas inócuo juridicamente; ele é perigoso. Ele banaliza o instrumento da CPI e utiliza a estrutura do Estado para uma vendeta pessoal e ideológica. Ao focar no STF e na PGR, Vieira sinaliza para sua base lavajatista e bolsonarista que ele ainda é o “xerife” disposto a “enfrentar o sistema”, mesmo que o “sistema” que ele ataca seja, ironicamente, o que garante a democracia que ele próprio habita.
Ficha corrida de um político à deriva
A trajetória de Alessandro Vieira mostra um padrão: a seletividade. Ele é o paladino da moralidade quando o investigado é um adversário político ou um desafeto institucional. Mas silencia ou tergiversa quando o tema exige enfrentar as estruturas de poder que sustentam o crime que ele finge combater.
Sua “ficha corrida” ideológica revela um homem que trocou o distintivo pela conveniência. O senador que hoje ataca o STF com relatórios fantasiosos é o mesmo que ajudou a pavimentar o caminho para a crise institucional de 2022. Ele é o lavajatista que não aceita que o Direito deve prevalecer sobre o desejo de poder do investigador.
Ao final desta CPI, Alessandro Vieira sai menor do que entrou, e olha que ele já entrou muito pequeno. Ele não entregou segurança ao cidadão, não entregou justiça ao país e não entregou seriedade ao Senado. Entregou apenas um papelão institucional que será lembrado como o último suspiro de um moralismo seletivo que, de tanto olhar para o próprio umbigo, esqueceu-se de que o crime organizado continua solto, enquanto ele perdia tempo escrevendo ficções para as redes sociais.
Vieira provou ser um parlamentar muito mais preocupado em ser um influenciador de onipotência imaginária do que um senador da República. O Brasil real, que sofre com o crime e a violência, merecia mais do que um relatório risível e uma postura cretina de quem, no fundo, nunca deixou de ser um cabo eleitoral do caos.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/quem-alessandro-vieira-senador-relatorio-cpi/


