Foragido, Ramagem vai a jogo do Brasil nos EUA e desafia Justiça brasileira sobre extradição

Foragido da Justiça brasileira, condenado por participação na trama golpista e alvo de um pedido de extradição enviado aos Estados Unidos, Alexandre Ramagem voltou a desafiar publicamente as instituições brasileiras — desta vez, direto do estádio MetLife Stadium, em Nova Jersey, antes da partida entre Brasil e Noruega pela Copa do Mundo.

Em entrevista à CNN Brasil neste domingo (5), o ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) no governo Jair Bolsonaro afirmou que sua extradição para o Brasil “não vai acontecer”. Ramagem está nos Estados Unidos, onde aguarda a análise de um pedido de asilo sob alegação de perseguição política.

“A gente está em segurança, lutando pelo nosso Brasil aqui nos Estados Unidos”, disse Ramagem, enquanto circulava no estádio antes do jogo da Seleção Brasileira. A cena é politicamente simbólica: um condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), considerado foragido no Brasil, aparece em público nos EUA, concede entrevista e trata como “farsa” a condenação imposta pelo Judiciário brasileiro.

Ramagem diz que extradição é “farsa” e fala em voltar com Flávio Bolsonaro

Ramagem afirmou que o pedido de asilo apresentado às autoridades norte-americanas tramita em paralelo ao processo de extradição solicitado pelo governo brasileiro. O ex-diretor da Abin disse acreditar que a extradição não será aceita.

“Como eles sabem que a extradição não vai acontecer, porque sabem que é uma farsa, eles tentaram me deportar clandestinamente”, declarou.

Ramagem também voltou a negar a existência da trama golpista pela qual foi condenado e repetiu a narrativa bolsonarista de perseguição política. “Inventaram essa farsa do golpe, inventaram crimes contra nós todos para acabar com o segmento político de direita e encarcerar o Jair Messias Bolsonaro”, afirmou.

O ponto mais revelador da entrevista, porém, veio quando o ex-diretor da Abin vinculou seu eventual retorno ao Brasil ao resultado das eleições presidenciais de 2026.

“Com essa luta, vamos virar 2027, [com a eleição de] Flávio Bolsonaro e a gente volta pro Brasil”, disse à emissora.

A frase explicita a aposta política de Ramagem: não a reversão jurídica da condenação, mas a mudança do cenário de poder no país. Em outras palavras, o condenado por golpismo sugere que sua volta depende de uma conjuntura política mais favorável ao bolsonarismo.

Condenação no STF e atuação na trama golpista

Ramagem foi condenado pela Primeira Turma do STF, em setembro de 2025, a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão, em regime inicial fechado, pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado.

Ele foi apontado como integrante do chamado Núcleo 1 da trama golpista, grupo formado por figuras centrais do governo Bolsonaro acusadas de atuar para manter o ex-presidente no poder após a derrota eleitoral de 2022.

Ex-diretor da Abin, Ramagem também foi acusado de usar a estrutura do órgão de inteligência para espionar adversários políticos e produzir ataques contra o sistema eletrônico de votação. Durante o governo Bolsonaro, a chamada “Abin paralela” virou um dos símbolos do uso da máquina pública contra opositores, ministros do STF, jornalistas e integrantes de instituições democráticas.

Ramagem nega as acusações, mas a condenação não foi resultado de uma decisão isolada ou administrativa. Ela foi proferida por colegiado do Supremo, após investigação da Polícia Federal e denúncia da Procuradoria-Geral da República.

Fuga do Brasil e entrada nos Estados Unidos

Ramagem estava proibido pelo STF de deixar o país. Mesmo assim, segundo a investigação da Polícia Federal, deixou o Brasil após a condenação, pela fronteira entre Roraima e Guiana, e depois seguiu para os Estados Unidos.

A fuga agravou sua situação jurídica. A partir de então, passou a ser considerado foragido da Justiça brasileira. Ele entrou nos EUA com passaporte diplomático, que depois teve o cancelamento determinado em razão de sua condenação e da perda do mandato.

Em dezembro de 2025, a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados cassou o mandato de Ramagem, cumprindo determinação do STF. A cassação encerrou também a proteção política que o ex-deputado ainda tentava mobilizar para permanecer fora do alcance da Justiça brasileira.

Como está o processo de extradição de Ramagem

O pedido de extradição de Ramagem foi determinado pelo ministro Alexandre de Moraes em 15 de dezembro de 2025. Na decisão, Moraes determinou o envio ao Ministério da Justiça dos documentos necessários para formalizar a solicitação aos Estados Unidos, incluindo a tradução para o inglês.

Segundo informação prestada pelo Ministério da Justiça ao STF, o pedido foi encaminhado em 30 de dezembro de 2025 à embaixada brasileira em Washington e está sob análise do governo norte-americano.

Não há prazo definido para que os Estados Unidos decidam sobre a extradição. Também não há garantia de que o pedido será aceito. O processo envolve análise política e jurídica pelas autoridades norte-americanas, além de eventuais recursos da defesa.

A situação é ainda mais complexa porque Ramagem apresentou pedido de asilo nos EUA, alegando perseguição política. Segundo o próprio ex-diretor da Abin, o pedido de asilo tramita em paralelo ao pedido de extradição feito pelo Brasil.

Na prática, enquanto o asilo estiver pendente de análise, a permanência de Ramagem nos Estados Unidos segue submetida às regras migratórias norte-americanas. O status oficial dos dois procedimentos — asilo e extradição — não foi divulgado publicamente pelas autoridades dos EUA.

Prisão pelo ICE e visto vencido

Ramagem chegou a ser preso em abril pelo ICE, o serviço de imigração e controle de aduanas dos Estados Unidos, em Orlando, na Flórida. A detenção ocorreu após uma abordagem relacionada a uma infração de trânsito.

O motivo formal da prisão foi migratório: Ramagem estava com o visto vencido. Segundo informações divulgadas à época, seu visto havia expirado em março.

Dois dias depois, ele foi liberado sem pagamento de fiança. De acordo com sua defesa, a soltura ocorreu porque já havia um pedido de asilo político em análise.

O episódio abriu uma disputa de narrativas. Do lado brasileiro, o Ministério da Justiça afirmou que a abordagem, a detenção e os atos operacionais foram realizados por autoridades norte-americanas, sem participação decisória da Polícia Federal brasileira. Do lado bolsonarista, Ramagem e aliados passaram a dizer que haveria uma tentativa de deportação “clandestina”.

Deportação, extradição e asilo: qual é a diferença no caso Ramagem

O caso Ramagem envolve três caminhos diferentes:

  • Deportação: retirada compulsória de uma pessoa em situação migratória irregular. Foi esse o motivo formal da prisão de Ramagem pelo ICE, por causa do visto vencido.
  • Extradição: entrega de uma pessoa condenada ou acusada por crime a outro país. É o caminho solicitado pelo Brasil para que Ramagem cumpra a pena imposta pelo STF.
  • Asilo: proteção concedida por um Estado estrangeiro a quem alega perseguição política. É o argumento usado por Ramagem para permanecer nos EUA.

A defesa do ex-diretor da Abin tenta apresentar a condenação por golpismo como perseguição política. Mas o processo no Brasil envolve crimes contra o Estado Democrático de Direito, decisão colegiada do STF e investigação da Polícia Federal.

É justamente nesse ponto que a fala de Ramagem no estádio em Nova Jersey ganha peso político. Ao dizer que a extradição “não vai acontecer”, ele não apenas desafia o Judiciário brasileiro: aposta publicamente na lentidão e nas brechas da cooperação internacional para escapar da responsabilização.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ramagem-jogo-brasil-extradicao/