O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), rebateu nesta terça-feira (2) as acusações do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-SP) e do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), que insinuaram que a operação da Polícia Civil paulista contra a produtora do filme “Dark Horse” — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro — teve motivação política.
“A operação da polícia é uma coisa em que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer suas investigações, para fazer suas operações, é uma instituição de Estado. Havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda. Portanto, tivemos a operação. Sempre vai ser assim: a polícia é e sempre será uma instituição de Estado, está a serviço do Estado”, disparou Tarcísio de Freitas.
A reação de Tarcísio revela uma crise no núcleo duro do bolsonarismo envolvido na produção do filme “Dark Horse”, que foi financiado por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e preso por liderar a maior fraude bancária da história do Brasil.
Lavagem de dinheiro: polícia mira contrato da prefeitura de SP com ONG ligada à produtora do filme de Bolsonaro
A Operação Wi-Fi, deflagrada nesta segunda-feira (1º) pela Polícia Civil de São Paulo, mira um contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo com o Instituto Conhecer Brasil, o ICB, para a instalação de pontos de internet gratuita em comunidades da capital. A investigação apura suspeitas de fraude, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro no programa Wi-Fi Livre SP, executado pela gestão Ricardo Nunes.
O ICB é presidido por Karina Ferreira da Gama, também ligada à Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. A operação busca esclarecer se recursos destinados à política pública de conectividade foram desviados por meio de repasses, subcontratações e movimentações financeiras envolvendo a entidade, a produtora e empresas relacionadas.
A suspeita não é apenas de falha na execução do serviço. A polícia investiga se houve uma estrutura montada para dar aparência regular à circulação do dinheiro público. O caminho dos recursos é o ponto central da apuração.
Prefeitura de São Paulo pagou contrato milionário ao ICB
O contrato 01/SMIT/2024 foi firmado pela Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. O acordo previa a instalação, operação e manutenção de 5 mil pontos públicos de Wi-Fi em áreas vulneráveis da cidade de São Paulo.
O valor inicial era de R$ 108 milhões. Com aditivos, a contratação chegou a R$ 157,1 milhões. A investigação apura a suspeita de que ao menos R$ 26 milhões tenham sido repassados sem a entrega efetiva dos serviços correspondentes.
A escolha do ICB também está sob análise. A entidade teria sido a única participante do chamamento público e não apresentava histórico consolidado na área de telecomunicações. Sua atuação anterior era ligada principalmente a feiras, eventos culturais, projetos literários e atividades religiosas.
A Fórum já mostrou como a gestão Nunes manteve pagamentos ao ICB mesmo após alertas e como o contrato do Wi-Fi Livre SP passou a ser acompanhado por órgãos de controle.
Operação Wi-Fi investiga suspeita de lavagem de dinheiro
A linha de investigação sobre lavagem de dinheiro mira a possível confusão patrimonial entre o Instituto Conhecer Brasil, a Go Up Entertainment, empresas subcontratadas e outras organizações ligadas a Karina Ferreira da Gama.
Os investigadores querem saber se essa rede foi usada para movimentar valores desviados do contrato municipal. Por isso, a operação busca documentos, dados financeiros e relatórios de inteligência sobre movimentações do ICB, da Go Up e de Karina.
A ligação entre Karina, o ICB e a produtora já havia sido revelada pela Fórum. A reportagem mostrou quem é Karina Ferreira da Gama e por que ela se tornou o elo entre o contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo e a produtora do filme de Bolsonaro.
Go Up e Dark Horse viram peça do caso na gestão Nunes
A Go Up ganhou projeção nacional por produzir Dark Horse, cinebiografia de Bolsonaro com participação de aliados do ex-presidente. A Fórum também explicou como atuava a ONG ligada ao filme de Bolsonaro e por que o ICB passou a ser peça-chave na apuração.
Com a Operação Wi-Fi, o caso deixa de se limitar às dúvidas sobre o financiamento do filme. A investigação agora alcança um contrato público da Prefeitura de São Paulo, com suspeitas de sobrepreço, execução parcial, direcionamento e lavagem de dinheiro.
A Prefeitura nega irregularidades e afirma que os recursos foram aplicados no Wi-Fi Livre SP. A gestão Nunes também sustenta que o programa está em funcionamento e rejeita qualquer relação entre o contrato municipal e a produção de Dark Horse.
Até a publicação desta reportagem, não havia manifestação pública da Go Up Entertainment, do Instituto Conhecer Brasil ou de Karina Ferreira da Gama sobre a operação.
Flávio Bolsonaro sugere que seja alvo de “perseguição” da Polícia Civil de Tarcísio
O senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tentou nesta segunda-feira (1º) enquadrar a operação da Polícia Civil de São Paulo contra a produtora do filme Dark Horse como uma suposta “perseguição estatal”. O argumento, no entanto, revela uma contradição: a ação foi conduzida pela polícia paulista, vinculada ao governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), seu aliado, e não por órgãos federais, desmentindo a narrativa de perseguição do governo Lula.
“Só espero que não seja uma perseguição estatal por parte de alguns setores para influenciar as eleições”, disse Flávio em entrevista.
“Não quero crer que uma parte da polícia esteja sendo usada para fins eleitoreiros. E usar uma operação como essa não para ver se teve algum problema nesse contrato de wi-fi, mas para tentar, por uma via transversa, uma chamada ‘pescaria probatória’, tentar encontrar alguma coisa que vá contra o filme do presidente Bolsonaro”, acrescentou.
Veja vídeo:
https://x.com/SamPancher/status/2061593270480785601
Ricardo Nunes sai em defesa da produtora
Antes mesmo das manifestações de Flávio, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), havia saído em defesa da produtora do filme e sugerido que a operação pudesse se tratar de “perseguição política”.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, reagiu, apontando exatamente a mesma contradição observada na fala de Flávio.
“Ricardo Nunes correu para defender a produtora do filme de Bolsonaro e falou em ‘perseguição política’, mas esqueceu de um detalhe inconveniente: a investigação está sendo conduzida pela Polícia Civil de seu aliado Tarcísio de Freitas. Mais uma vez, tenta transformar apuração em narrativa para escapar do essencial: os contratos suspeitos da sua gestão, desta vez para servir ao esgoto do bolsonarismo”, escreveu o ministro no X.
https://x.com/GuilhermeBoulos/status/2061611346320409049
Em evento promovido pela rádio Itatiaia, Flávio reforçou sua defesa da gestão municipal, alvo da operação da Polícia Civil.
“Não há absolutamente nada de errado, confio no trabalho da Prefeitura de São Paulo, foi tudo explicado, algo bem anterior ao filme [‘Dark Horse’]”
Operação Wi-Fi mira contratos suspeitos da gestão Nunes
A operação da Polícia Civil, denominada “Operação Wi-Fi”, investiga o contrato de R$ 108 milhões firmado entre a prefeitura de São Paulo, sob comando de Ricardo Nunes, e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama. O ICB é responsável por gerenciar o programa Wi-Fi Livre SP, destinado à implantação, operação e manutenção de 5 mil pontos públicos de internet gratuita em comunidades da periferia.
As suspeitas incluem direcionamento na contratação, pagamento por serviços não prestados e possível desvio de recursos públicos para custear atividades da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse. A Polícia Civil apontou sobrepreço: cada ponto instalado pelo instituto custava R$ 1.800, enquanto a Prodam, empresa pública municipal de tecnologia, realiza o mesmo serviço por R$ 230.
Como parte da investigação, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao ICB, à Go Up e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. Os policiais também analisam documentos e movimentações financeiras, incluindo possíveis transferências de recursos do instituto para a produtora do filme.
Suspeitas de financiamento cruzado e repercussão política
A Go Up Entertainment já é alvo de investigação da Polícia Federal (PF), que apura o financiamento do filme com recursos de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Reportagens do Intercept Brasil mostraram que R$ 61 milhões foram repassados supostamente para a produção do longa, mas há suspeitas de que parte dos recursos podem ter sido utilizados para despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Flávio ainda afirmou que a repercussão sobre o filme e os recursos de Vorcaro estaria sendo usada como “cortina de fumaça” para problemas do país.
A operação evidencia que, mesmo entre aliados políticos, Flávio Bolsonaro tenta transformar investigações legítimas em narrativa de perseguição, ignorando que a apuração é conduzida por autoridades estaduais vinculadas a seu próprio campo político.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/tarcisio-de-freitas-rebate-ataques-de-flavio-bolsonaro-e-ricardo-nunes/

