Antônio Bispo dos Santos, Nêgo Bispo (1959-2023), viveu com os pés, as mãos, o pensamento, a vida e o desejo de luta firmados na terra, na roça. Aqui seguimos seus passos na tentativa de reverberar a herança que ele nos deixou, a partir de seu modo de viver, lutar e pensar, e das maneiras como relacionou tudo isso. Para adentrar no horizonte deste dossiê, é preciso primeiro atrasar o ritmo e firmar o corpo, a partir da lavra que ele reivindicou. Não se trata aqui de uma recepção acadêmica convencional, das que tentam converter o mestre em um “autor” palatável para o mercado das ideias.
O que se apresenta nestas páginas é o Acontecimento Nêgo Bispo: uma irrupção telúrica que rasura o pacto narcísico da branquitude e convoca o pensamento a pisar, com os dois pés, o chão da roça. Portanto, não partimos aqui de nenhuma noção deleuziana de acontecimento – estamos muito mais em confluência com a noção que Beatriz Nascimento apresentou em seu artigo “O conceito de quilombo e a resistência cultural afro-brasileira”, no qual ela entende “o acontecimento como vinculado com os sentidos dignificantes da capacidade de resistência ancestral”.
Este dossiê não se cria a partir de uma curiosidade diletante, mas da consciência de que estamos em meio a uma guerra que nunca cessou. O colonialismo, para nós e para as vozes que aqui confluem, não é um registro datado nos livros de história, mas uma tecnologia de terror que se capilariza no cotidiano, tentando adestrar nossos nomes e modos de nomear, nossos corpos e nossa imaginação. Na luta contra isso, a presença de Nêgo Bispo nos oferece uma mandinga necessária para o revide. Ele não nos deixou uma teoria pronta, como lembra um dos organizadores (ou: “confluenciadores”) deste dossiê, mas, sim, uma exigência mais difícil: a de levar a terra a sério, transformando nossas mentes em roças.
Uma das primeiras lições que o mestre sopra aos nossos ouvidos é de que a colonização tem como viga principal a cosmofobia: o medo do cosmos, da terra e da confluência vital. Essa doença colonial, herdeira da matriz euro-cristã-monoteísta, separa o humano da natureza, transformando o gesto em trabalho, a árvore em recurso, e a vida em mercadoria. É o que temos chamado de engenho neoliberal, uma dinâmica que não quer apenas moer direitos, mas esfacelar os sentidos da existência coletiva para produzir sujeitos adestrados.
Nêgo Bispo desmascara essa lógica ao apontar que colonizar e adestrar é a mesma operação, disputa o mesmo jogo. O colonizador, ao generalizar povos diversos sob nomes como “índio” ou “trabalhador”, utiliza a mesma técnica do adestrador que muda o nome do animal para quebrar sua identidade e torná-lo produtivo. Contra esse esvaziamento, a voz de Bispo surge como flecha cuspida da boca, denunciando que o trabalho, no mundo euro-cristão, nasceu como castigo e condenação.
Embrenhado nesse cenário, o mestre não se reivindicava “pensador” no sentido acadêmico restrito, mas tradutor e lavrador de palavras. Não é um mestre porque tenha seguidores, mas porque aprendeu e ensinou, a partir das tarefas que recebeu de sua geração avó. Para Bispo (que nos sugeria “oralizar a escrita”), não era a escrita que deveria fundar sua orientação para caminhar, ela antes deveria ser apropriada para que a palavra passasse pela fronteira inimiga e retornasse ao quilombo fortalecida. Se o colonialismo nomeia o que quer dominar, nossa tarefa é a guerra das denominações: enfraquecer as palavras coloniais e replantar palavras próprias, capazes de devolver força à experiência.
A noção de quilombo que atravessa este dossiê, em diálogo com o pensamento de Beatriz Nascimento, é a de um tempo/espaço de reivindicação e invenção de memórias ancestrais. Para Bispo, os quilombos e as aldeias são perseguidos não por causa da cor da pele de quem neles habita, mas porque oferecem determinada possibilidade de se viver diferente, recusando a obrigação do trabalho alienado e mantendo a comunhão com os frutos das árvores, reconhecendo uma fronteira com o mundo colonialista para se armar de defesa e praticar o drible, o passa-pé e o feitiço vivaz contra a arrogância de quem se quer único.
O centro da crítica de Bispo desloca o humano – entidade que ele compreendia como um dos produtos do contexto colonial – para o envolvimento com o todo, propondo enfrentar a cosmofobia a partir da relação; não um relacionar-se qualquer, mas desde dentro, reconhecendo com a terra uma relação compartilhante. Daqui advém uma economia política inteira, ou uma cosmopolítica, que se forja na luta em torno da (e na) terra: coreografia na e pela vida, na esteira do envolvimento.
A roça ocupa na trajetória de Bispo, e de seu pensamento, um lugar fundamental. Se a roça é o princípio explicativo, o conhecimento não se esgota no conceito – e a inteligência não precisa da chancela formal da filosofia acadêmica. A roça é o chão em que a vida é o centro e o fim de todas as ações. É desse chão que brota a confluência, a inteligência que reconhece a vida como um tempo cíclico e admite o conflito para tecer diálogos responsáveis nas diferenças.
Nêgo Bispo desmascara a colonização ao apontar que sua viga mestra é a cosmofobia: o pavor do movimento, do cosmos, da terra e da confluência vital. Esse terror provém de uma interpretação da realidade fundada sobre um princípio único, estático, punitivo e desencantador – foi isso que Bispo denominou de matriz euro-cristã-monoteísta.
Essa “doença colonial” é herdeira de uma lógica de dominação atravessada pela fixação no acúmulo. Buscar esse acúmulo em elementos provenientes da terra acaba por empobrecer tanto o solo quanto os seres que dele dependem. Em contraposição, Bispo propõe o compartilhar no e do mundo, sem a condução pelo medo da falta. Ele denuncia que o trabalho, no mundo euro-cristão, nasceu como castigo e condenação, enquanto nos saberes orgânicos a atividade está ligada à vadiagem, às festividades e aos bons encontros.
Como estudante atento do gingar do tempo, Bispo insistia na oralidade como um repositório vivo da memória ancestral que não cessa de produzir sentidos. Para ele, a oralidade não é meramente o oposto da escrita, mas um processo de ligação e compromisso entre quem fala e quem escuta. Ele via no ciclo entre uma geração avó, uma geração filha e uma geração neta o solo vital de produção e transmissão de conhecimentos – e entendia a trajetória das gentes como “começo, meio e começo”, um enredo contínuo no qual a ancestralidade é viva e pulsante. Nessa perspectiva, o mestre não é aquele que sabe tudo, mas quem conhece um pouco de cada coisa e tece intimidade a ponto de aprender e ensinar simultaneamente.
A presença de Nêgo Bispo na universidade, especialmente a partir do projeto Encontro de Saberes, idealizado pelo professor José Jorge de Carvalho, que também conflui neste dossiê, marcou um passo indigesto e necessário para as instituições de ensino superior. Bispo esteve na graduação e na pós-graduação de instituições como a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – não como objeto de reflexão acadêmica, mas como um mestre em posição de docência.
Sua legitimidade não dependia de chancelas eurocêntricas, mas, sim, das sabenças dos povos “afropindorâmicos”, as vozes negras, indígenas, quilombolas e de outras comunidades tradicionais. Essa fissura aberta pelas transformações provocadas por outros sujeitos que passam a habitar a universidade, em número maior, seja como estudantes, seja docentes, força a universidade a questionar quem pode ensinar e a partir de quais matrizes de conhecimento.
Nêgo Bispo, sagaz em comunicar as sabedorias da terra, bateu perna por todo esse Brasil. Bom de papo, não negou diálogo, sabia bem o chão que pisava e a força que carregava nas palavras, aconchegando a memória de quem veio antes e acolhendo com gentileza quem chegou depois. Em seus dizeres confluíam Mãe Joana, Tio Norberto, rios, plantas, frutos da Caatinga, bichos, comidas, ritmos e estações para fiar a trama educadora que embalou o lavrador. Era pelas amarrações dessa trama que ele pensava o Brasil, seus dilemas e escapes. Dado à poesia, falava sobre o que era difícil com maleabilidade, invocava a boniteza da chuva no sertão, mas não abria mão de ser xique-xique de espinho afiado. Talvez seja esse o incômodo de muitos com o pensamento do velho Bispo; assim como na Caatinga, bioma endêmico do Brasil, ninguém adentra tal mata sem arranhões.
O quilombo para Bispo conflui com a roça, a ponto de, para ele, ser comum mencionar a roça de quilombo. Dessa maneira, a roça não é mero espaço de cultivo, mas o cosmos que condensa, pulsa e expande as múltiplas forças e temporalidades que serpenteiam e dão os contornos da comunidade. Esta, por sua vez, não é somente o ajuntamento de pessoas, mas as relações entre os mais diferentes organismos vivos e sua poética. Dessa forma, a crítica que ele lavrava sobre a colonização e seus efeitos também compreendia uma espécie de denúncia da pavimentação da vida e sua transformação em modos estéreis. A roça de quilombo se enramou na pessoa, o que o levou, em uma de suas principais falas públicas, a ressaltar a recusa ao status de humano para se admitir lavrador, quilombola, ente do cosmos.
Partindo das contribuições de Nêgo Bispo, a proposta deste dossiê é problematizar os pontos de identificação e as diferenças entre as diversas perspectivas da crítica ao colonialismo. Buscamos pensar formas táticas e sagazes de reposicionamento diante da violência da dominação colonial através das contribuições dos “confluenciadores” que listamos a seguir.
Givânia Silva inicia a sequência de textos dando de comer à trajetória de Nêgo Bispo com uma narrativa de encontros marcados por afetos, lutas e sonhos. A autora escolhe com sensibilidade uma maneira de aproximar Bispo de nós e daquilo que a comunidade o consagrou. Ela também aponta que alimentar a memória implica assumir um compromisso na sustentação do que foi passado pela geração avó.
José Jorge de Carvalho apresenta Nêgo Bispo como professor do Encontro de Saberes e como a sua atuação dentro das universidades brasileiras confrontou os limites da política do conhecimento presente. A trajetória de Bispo fortalece a emergência das ações afirmativas epistêmicas, uma vez que o seu fazer reposicionou eticamente a questão das fronteiras do saber nesses ambientes.
Luiz Rufino firma o fundamento da roça de quilombo, ressalta a sagacidade mandingueira do lavrador de palavras no semear da confluência e da biointeração, e convoca a contracolonização como uma reza forte e um facão azeitado para combater as pretensões monoculturais.
Christen A. Smith traz diálogos entre Beatriz Nascimento e Nêgo Bispo, e nos convida a pensarmos o que aprendemos com o quilombo como cosmologia – e, assim, a reconhecê-lo como parte da maior tradição radical negra.
Wanderson Flor do Nascimento mergulha na crítica ao “engenho neoliberal” e na potência das “filosofias vagabundas” – propondo, a partir do pensamento de Nêgo Bispo, o desadestramento permanente como estratégia pedagógica insurgente.
Guilherme Moura Fagundes recorda as “sementes do envolvimento” plantadas por Nêgo Bispo, alertando contra o risco de transformá-lo em mera mercadoria universitária e destacando sua força no Encontro de Saberes.
Geni Núñez traz a confluência com as perspectivas indígenas guarani, denunciando como a lógica euro-cristã utiliza a nomeação para a coisificação e como a resistência passa pelo sorriso e pela dança.
Este dossiê é um convite ao arrebatamento e à aprendizagem. Que as reflexões aqui apresentadas sirvam de espelho para nossas práticas, ajudando-nos na perseguição de modos menos coloniais de existir – e no entendimento de que a terra é nossa orientação soberana. Contracolonizar é um ato confluente que exige esquivar-se da pretensa superioridade euro-cristã e reconhecer que o fundamento é a roça. Os textos aqui apresentados são contribuições de pessoas que confluíram com Nêgo Bispo, teceram intimidade e partilharam de bons encontros, desfrutando daquilo que ele dizia ser o melhor presente para se dar: a presença. Na feira, no mato, na esquina, no bar, no quilombo, na aldeia ou na universidade, Nêgo Bispo lavrou relações e, por onde passou, plantou algo. Se há um lugar que tomamos como referência de nossas palavras aqui, neste dossiê, esse lugar é o da partilha. Assim, fazemos valer a máxima de Mãe Joana que dizia: a cumbuca de dar é a mesma de receber.
LUIZ RUFINO (organizador do dossiê) é professor da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
WANDERSON FLOR DO NASCIMENTO (organizador do dossiê) é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília
GUILHERME MOURA FAGUNDES (organizador do dossiê) é professor do Departamento de Antropologia da USP
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