A democracia aguenta mulheres com poder?

 

Por mais retrógrado e assustador que pareça, em pleno 2026, ainda existem pessoas, organizações e situações que transformam o corpo de mulheres em recurso de campanha eleitoral e, ao mesmo tempo, trata a presença delas como sujeitos políticos como uma espécie de provocação.

Neste mês, a Justiça Eleitoral da Bahia proibiu o uso de mulheres seminuas como recurso cênico em atos de campanha de ACM Neto. O episódio, além de oferecer toda misoginia e hiperssexualização, as imagens me fizeram pensar para além de meras modelos fazendo campanha eleitoral. Pensei nas mulheres que disputam o poder. Então: qual é, afinal, o lugar reservado às mulheres quando elas saem do papel de figurantes e entram na disputa pelo poder?

O corpo feminino continua sendo utilizado para chamar atenção, produzir desejo, gerar audiência e compor cenários. Mas, quando uma mulher deixa de ser objeto da cena para se tornar protagonista dela, a reação social costuma ser outra. A mulher que aparece como objeto pode ser celebrada, sexualizada ou consumida. A mulher que aparece como sujeito político precisa, frequentemente, provar que merece estar ali.

Sua aparência vira assunto, sua roupa vira argumento. Sua voz é considerada agressiva ou estridente, sua vida amorosa passa a ser examinada. Sua maternidade pode ser usada contra ela, sua ausência de maternidade também. Sua idade pode ser apresentada como incapacidade ou inadequação, sua competência precisa ser demonstrada repetidamente. E, quando tudo isso não basta, resta o ataque.

A contradição é antiga, a novidade é a velocidade, a escala e a capacidade de circulação que as plataformas digitais conferiram a ela.

O corpo que serve e a voz que incomoda

Existe uma longa tradição de utilização política do corpo das mulheres. A novidade não está em descobrir que o corpo feminino pode ser instrumentalizado e sim em observar como essa instrumentalização convive com a dificuldade de reconhecer mulheres como autoridades políticas.

É como se existissem duas mulheres possíveis no imaginário público: aquela cujo corpo pode ser utilizado para produzir atenção e aquela que reivindica o direito de produzir discurso, decisão e poder.

A primeira não ameaça a ordem política, mas, a segunda, sim. Por isso, o problema da misoginia na política não pode ser reduzido à existência de homens que não gostam de mulheres. A misoginia funciona de maneira muito mais sofisticada, ela organiza expectativas sobre quem pode falar, quem pode mandar, quem pode discordar, quem pode ocupar um espaço público e, principalmente, quem pode exercer autoridade sem precisar pedir desculpas por isso.

É nesse sentido que a misoginia pode ser entendida como uma tecnologia social, ou seja, ela não precisa impedir formalmente que uma mulher seja candidata, não precisa necessariamente retirar seu nome da urna. Pode operar, antes disso, criando condições para que a política seja percebida como um território hostil demais para determinadas mulheres.

Durante muito tempo, a discussão sobre participação feminina na política esteve concentrada em uma pergunta legítima: por que existem tão poucas mulheres ocupando cargos eletivos? E eu quero complementar essa pergunta: o que acontece com as mulheres depois que elas entram? Porque não basta abrir a porta de entrada de uma instituição se os mecanismos cotidianos de permanência continuam produzindo expulsão.

Quando a misoginia vira conteúdo

É impossível compreender esse fenômeno hoje sem olhar para as plataformas digitais. Durante muito tempo, imaginamos a internet como uma espécie de espaço neutro onde opiniões simplesmente circulavam e isso já não se sustenta!

As plataformas organizam a visibilidade, decidem, por meio de sistemas automatizados, quais conteúdos têm mais chances de chegar a outras pessoas. E, em uma economia baseada na atenção, aquilo que provoca reação tende a adquirir uma vantagem.

Indignação engaja, humilhação engaja, conflito engaja e a misoginia aprendeu a operar dentro dessa lógica. Um ataque contra uma mulher pode deixar de ser apenas uma opinião individual e se transformar em matéria-prima para uma cadeia inteira de produção de conteúdo: alguém publica, outro comenta, outro reage, outro grava um vídeo, outro transforma em meme, outro cria uma narrativa, outro vende um curso, outro monetiza audiência.

É assim que o ataque deixa de ser apenas ataque e vira produto.

Essa transformação é particularmente importante quando pensamos na chamada machosfera, ou seja, comunidades digitais formadas por meninos e homens que compartilham diferentes graus de ódio contra as mulheres podendo, inclusive, chegar a consequências físicas e mentais contra as mulheres.

A indignação masculina pode ser transformada em audiência; a audiência pode ser transformada em dinheiro; o dinheiro incentiva a produção de mais indignação. É por isso que discutir misoginia como um problema exclusivamente moral ou comportamental é insuficiente. Há também uma dimensão econômica, social e tecnológica. Diante de tudo isso podemos sim conceber a ideia do ressentimento monetizado!

E quem ganha quando as mulheres saem?

Quando uma mulher deixa de disputar espaço político e é utilizada “apenas” como um corpo sexualizado que atrai atenção do eleitorado, como o caso do ACM Neto,, não estamos diante apenas de uma tragédia individual, estamos diante de uma redistribuição ou manutenção de poder.

Por isso, a discussão sobre violência política de gênero não deveria ser tratada como uma pauta acessória das eleições, uma preocupação específica de mulheres ou um capítulo secundário das políticas de direitos humanos. Ela é uma questão sobre a própria democracia. Uma democracia na qual determinados grupos podem exercer autoridade sem sofrer determinados custos e outros precisam pagar um preço muito maior para fazer exatamente a mesma coisa é uma democracia formalmente universal, mas socialmente desigual.

E isso nos leva de volta ao episódio que abriu esta reflexão. Uma mulher pode aparecer em um evento político como parte da cenografia (seminua, no caso) e não provocar qualquer crise sobre o funcionamento da democracia. Mas uma mulher que sobe ao mesmo palco para dizer que quer governar, legislar, disputar orçamento, decidir políticas públicas e exercer poder ainda pode ser tratada como uma intrusa.

O problema não é apenas que as mulheres ainda são sub-representadas na política. O problema é que, quando conquista visibilidade, ainda encontramos inúmeras formas de lembrá-las de que aquele espaço não foi pensado para elas.

Estamos discutindo se uma mulher parece suficientemente agradável para merecer o direito de ser uma agente pública com mandato e nesse momento a misoginia deixa de ser apenas preconceito e passa a ser uma questão de poder.

A pergunta não pode ser se as mulheres estão preparadas para a política. Elas estão!

A pergunta é se a política brasileira está preparada para mulheres que não querem apenas participar, mas disputar poder? E digo mais: quais mulheres que querem disputar o poder representam as pautas progressistas, feministas e que defendem a democracia? Esse pronto, para mim, é FUNDAMENTAL.

Uma democracia verdadeiramente democrática não pode exigir que as mulheres sejam menos mulheres, menos firmes, menos ambiciosas, menos públicas ou menos poderosas para que possam ser aceitas. No fim, talvez a pergunta que 2026 nos deixa seja simples:

a democracia aguenta mulheres (progressistas) com poder?

A resposta não estará apenas nas urnas, mas, também, naquilo que faremos para que elas consigam chegar até lá.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/a-democracia-aguenta-mulheres-com-poder/