A democracia no espaço entre duas mortes

 

No seminário sobre a ética, Jacques Lacan lê a Antígona de Sófocles para falar de uma topologia estranha: o espaço entre duas mortes. Creonte condena Antígona a ser emparedada viva. Antes que a morte do corpo chegue, ela já foi destinada ao mundo dos mortos, retirada do convívio dos vivos por sustentar o dever de sepultar o irmão contra o decreto de Creonte. Entre duas mortes abre-se uma zona suspensa, na qual Lacan situa o brilho de Antígona e a radicalidade de seu desejo. Judith Butler retoma essa figura para perguntar como alguém pode falar e agir quando a ordem que governa a cidade não reconhece um lugar para sua existência. Antígona fala justamente onde se pretende que sua palavra não conte. Portanto, nada mais assombroso que o direito ao voto feminino, em pleno século XXI, seja ainda questionado por candidatos e políticos.

Parto desse limiar para pensar o momento atual: o direito de votar é um modo decisivo de fazer contar uma voz. É aí que reside toda a pequenez e a grandiosidade da vida humana. Somos “um só” voto, mas, nesse momento, experimentamos a liberdade de participar de uma decisão comum. Camus abre O mito de Sísifo colocando o suicídio como o problema filosófico fundamental: julgar se a vida merece ser vivida. Desloco essa pergunta para a vida em sociedade: se o suicídio é o problema filosófico fundamental, o voto é o problema político fundamental. Nele, uma decisão singular participa do destino coletivo. Por isso, o direito de votar não pode ser abolido nem reduzido a um ritual vazio. Votar deve ter o alcance de um ato, no sentido mais lacaniano possível: uma decisão cujas consequências não dominamos por inteiro, mas pela qual nos responsabilizamos.

É possível atualizar essa figura e pensar o Brasil às vésperas de 25 de outubro. Em “A questão da democracia”, o filósofo Claude Lefort descreve a transformação pela qual o poder deixa de se encarnar no corpo do rei, que representava a unidade da sociedade. A democracia nasce dessa desincorporação: o lugar do poder torna-se um lugar vazio, do qual ninguém pode se apropriar definitivamente. Governa-se de passagem, por mandato, sob o risco permanente de perder. O totalitarismo procura preencher esse vazio, fazendo coincidir o poder, o povo e uma voz única. Aquele que se apodera do trono sem a escuta do voto se torna uma figura obscena, tão bem representada nos tronos papais de Francis Bacon. Legislar no espaço entre duas mortes é lembrar que mesmo o mais sanguinário dos tiranos se inclina diante da morte. O regime, porém, pode sobreviver a ele. A finitude de um governante não assegura a liberdade dos governados.

O que vemos agora é que o risco não está na alternância, mas nos sinais de sua possível abolição. A democracia sempre transitou nesse intervalo entre um fim que permite recomeçar e outro que encerra a própria possibilidade de recomeço. Cada eleição tem algo de promessa e algo de fim. Um governo termina, outro começa, e o que se perde numa disputa pode ser reconquistado na seguinte. A permanência de um governo não pode depender do que diz o líder; ela tem de ser assegurada pela pólis. Escrevo essa obviedade com certa vergonha.

No meu consultório há um corvo preto num canto da sala. Dei a ele o nome de Nevermore, em homenagem ao poema de Edgar Allan Poe. Quando os pacientes perguntam por ele, explico que é uma espécie de memento mori: uma lembrança de que a morte está no horizonte. A democracia vive sob o olhar desse corvo, mas responde a ele como uma fênix. Ela se reconstrói, agrega elementos, se transforma, inclui novas vozes, no equilíbrio difícil, e no limite impossível, de sustentar um mundo comum feito de singularidades tão diversas. É esse equilíbrio instável que uma eleição deve assegurar: que nenhum mau perdedor derrube as peças do tabuleiro. O que inquieta agora, em manifestações e pronunciamentos, é a perspectiva de que se encerre esse intervalo que cada eleição renova. É a tentação do fim radical da partida.

Governar por hipnose

Dirigido por Robert Wiene, O gabinete do dr. Caligari é considerado uma das obras-primas do Expressionismo alemão. O filme conta a história do personagem-título, uma figura autoritária que exibe em feiras populares um sonâmbulo chamado Cesare, mantido em estado perpétuo de sono hipnótico. Caligari afirma ter poder total sobre Cesare, que obedece cegamente a todas as suas ordens, inclusive as de cometer assassinatos, deixando a cidade em pânico. A trama se desenrola em cenários distorcidos, com linhas tortas e sombras exageradas, criando uma atmosfera claustrofóbica que reflete uma realidade instável, jogando todos os personagens numa cena fantástica.

Não sou o primeiro a ver a sombra de Hitler em Caligari. Em 1947, Siegfried Kracauer publicou De Caligari a Hitler, em que lê o cinema alemão do período entreguerras como um prenúncio da hipnose coletiva que levaria ao nazismo.

Curiosamente, quase ao mesmo tempo em que Caligari estreava nos cinemas, Freud publicava Psicologia das massas e análise do eu (1921). No capítulo VII desse texto crucial, Freud mostra que a identificação não precisa copiar o outro por inteiro: basta um único traço. No capítulo seguinte, chega à fórmula da massa: um grupo de indivíduos que puseram um mesmo objeto, o líder, no lugar de seu ideal do eu e que, por isso, se identificaram uns com os outros em seu eu. É precisamente esse mecanismo que permite que Caligari exerça fascínio hipnótico sobre os que o cercam. O líder não precisa de argumentos racionais. Basta encarnar um traço com o qual a massa possa se identificar, muitas vezes dizendo em voz alta o que os outros pensam em silêncio, mas não ousam admitir. É nesse ponto que se opera uma reversão. Se o conteúdo manifesto da massa é a adoração ao líder idealizado, a psicanálise mostra que esse coletivo não se sustenta apenas no amor, mas também no ódio comum àquilo que, em cada um, causa horror a si mesmo. O líder “salva” a massa ao indicar que o mal está fora e pode ser apontado.

Um velho adágio diz que uma imagem vale mais que mil palavras. A propaganda autoritária aposta nessa força de adesão: imagens simples, slogans e mecanismos de negação que recusam o espaço dialético e se impõem como verdade absoluta. Tomemos um bordão que circulou nestas eleições: “feminicídio não existe”. Em agosto, Marco Antônio Superman, candidato do Novo ao Senado por Minas Gerais, declarou: “Não existe feminicídio, tirem isso da cabeça”. Eduarda Campopiano, do PL, eleita deputada estadual em São Paulo com quase dois milhões de votos, já havia dito: “Eu não acho que feminicídio seja algo que exista”. A frase não descreve um fato; ela o apaga. Cada mulher assassinada no Brasil é então emparedada uma segunda vez por Creontes que lhe negam até o nome do crime que a matou. Depois do corpo, apaga-se a palavra: é uma segunda morte. A psicanálise trabalha no sentido inverso. Ela escuta o outro e eleva sua fala à dignidade de um discurso, lê o que a imagem tenta calar, interroga os significantes-mestres, as palavras de ordem que organizam identificações e se apresentam como imperativos, e procura separar o sujeito daquilo que fala em seu nome.

Por isso importa ler o que se repete. Em janeiro de 2020, no governo de Jair Bolsonaro, o então secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, gravou um vídeo oficial ao som de Lohengrin, de Wagner, anunciando: “a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional”. O pronunciamento reproduzia quase palavra por palavra uma passagem de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista. Alvim foi demitido e falou em “coincidência retórica”, não sem acrescentar que a frase era “perfeita”. 

Seis anos depois, em 8 de outubro último, o canal oficial do PL no WhatsApp divulgou um retrato em preto e branco de Flávio Bolsonaro cercado pela expressão “Tropa do Flávio”, repetida em bloco. A composição remetia a uma imagem célebre: a fachada do Palazzo Braschi, sede da federação fascista de Roma em 1934, com o rosto de Mussolini envolto pela palavra “SÌ” repetida centenas de vezes. Era a propaganda de um plebiscito sem competição entre partidos, sob a ditadura fascista. A peça foi apagada. Em nota, o PL atribuiu sua produção à ala jovem do partido, negou a intenção de fazer alusão à propaganda de Mussolini e pediu desculpas por “qualquer interpretação decorrente dessa coincidência”. A desculpa é ainda mais preocupante, pois retrata a formação de uma geração que nada quer saber da diferença, cooptada em um movimento de ódio e vontade de extermínio do modo de gozar do outro. 

Os sinais são claros: não estamos em um mundo de vestais impolutas. Independentemente da intenção alegada, a repetição recoloca em circulação o mesmo repertório autoritário. Goebbels e Mussolini não são referências estéticas neutras. Seus nomes remetem a regimes marcados por perseguições, leis raciais, deportações e violência de Estado, com a participação do fascismo italiano na máquina de extermínio nazista. 

Em um mundo tomado por imagens, em que o que circula nas redes é julgado em poucos segundos, uma imagem, um sinal, pode matar. Salvador, como quase todas as grandes cidades do Brasil, conhece bem a eloquência mortal dos sinais. A disputa entre facções faz com que bairros inteiros passem a ser lidos por gestos. Um número feito com os dedos numa foto, no bairro errado, pode ser interpretado como pertencimento à facção rival, e o sinal vira sentença de morte. Recordo que, em outubro de 2024, os irmãos Daniel Natividade, de 24 anos, e Gustavo Natividade, de 15, percussionistas do bloco afro Malê Debalê, foram mortos em Arembepe, Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. Segundo as notícias sobre a investigação, fotos de jovens do grupo fazendo um gesto associado a uma facção rival teriam motivado o crime. É por isso que inquietam os sinais nazistas e fascistas que circulam na comunicação política. Sem equiparar histórias e formas de violência distintas, há algo a interrogar nessa passagem do sinal à autorização para eliminar. Esses emblemas evocam também uma ameaça ao espaço político em que as diferenças podem conviver sem ser exterminadas.

Lacan escreveu em 1967 que o nosso futuro de mercados comuns encontraria seu equilíbrio numa ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação. A linguagem participa dessa operação quando a diferença do outro deixa de ser interrogada e passa a ser tratada como doença. Na noite do primeiro turno, um comentarista político chamou a Bahia de “câncer do Brasil” e disse que Salvador “é um lixo”. Desculpou-se depois, mas reafirmou que “o PT é o câncer do Brasil”. A retratação não apaga a metáfora que ele escolheu. Ela participa de uma fantasia política que Lefort descreveu como a do Povo-Um: uma sociedade que pretende apagar suas divisões e representar-se como um corpo homogêneo. Nesse imaginário, um grupo pode aparecer como o tumor a ser extirpado. Quem tem inconsciente não precisa de inimigo, costumo dizer: o que se quer extirpar no outro habita primeiro em nós. Muitos dos que hoje repetem essa metáfora talvez não saibam que o vocabulário da doença e da purificação integrou, no século XX, a propaganda que preparou e acompanhou políticas de perseguição e extermínio. Talvez venha daí tanta hostilidade às universidades: é nelas que se ensina essa história.

Esse repertório também circula por gestos, cuja ambiguidade pode permitir o reconhecimento entre iniciados e a negação diante dos demais. Nas Olimpíadas de Paris, em 2024, um funcionário de uma empresa subcontratada pela emissora oficial dos Jogos foi filmado durante a final do skate feminino fazendo com a mão o sinal de “OK”, também apropriado por grupos supremacistas brancos. As imagens circularam e sua credencial foi cancelada. O gesto, isoladamente, não comprova uma intenção supremacista. Sua ambiguidade, porém, interessa ao argumento: um sinal pode conservar seu sentido cotidiano e, ao mesmo tempo, oferecer uma senha a quem reconhece nele outro repertório. Entre o gesto que admite a desculpa e a metáfora que transforma o outro em doença, a leitura precisa interrogar o que se põe em circulação e quais formas de exclusão isso pode autorizar.

O esporte, que se apresenta como linguagem universal, não está imune a esse repertório. A última Copa do Mundo, o evento mais visto do planeta, realizada neste ano nos Estados Unidos, no México e no Canadá, rendeu à FIFA críticas de organizações de direitos humanos. O melhor árbitro africano de 2025, o somali Omar Artan, foi barrado na entrada dos Estados Unidos e deixou o quadro de arbitragem. Membros da comissão técnica do Irã tiveram vistos negados, jogadores de algumas seleções passaram por revistas que seus técnicos questionaram, e torcedores da África e da Ásia praticamente não conseguiram chegar aos estádios. Quase como escárnio, a entidade já havia entregado seu primeiro “Prêmio da Paz” a Donald Trump, na cerimônia de sorteio dos grupos, em dezembro de 2025. Ou seja, não há espaço para ilusões: os novos Caligaris fazem acenos ao que há de pior na humanidade, a eliminação pura. Trata-se de um discurso que produz o objeto a ser descartado. Por isso é fundamental que os psicanalistas se pronunciem. É justamente essa a questão do Fórum Zadig, apoiado pela Escola Brasileira de Psicanálise, que se realiza em 20 de outubro com o título “Linguagens da destruição: ameaça à democracia”.

 

A psicanálise nos mostra que o racismo se alimenta do ódio ao modo de gozar do outro, à maneira como o outro vive, fala, ama, reza, vota. Um discurso toca o real quando isola o que Lacan denominou objeto a: o resto, aquilo que não assumimos em nós mesmos. O que se odeia no outro é esse objeto e o modo de gozar dele que recusamos em nós. Mas o que se recusa não desaparece. Costumo dizer que quanto mais conservador um país, melhores são os seus bordéis. Não por acaso, a psicanálise se desenvolveu em plena época do recalque vitoriano. Por isso mesmo, quando se tenta eliminá-la do simbólico, ela retorna no real sob a forma do sintoma. Na verdade, o sintoma é ineliminável de uma civilização. O discurso do analista sustenta um dispositivo que resiste a essa captura do gozo do outro pelo discurso do mestre. Ele não distribui os sujeitos em campos de pureza e impureza, nem oferece uma moral comum à qual todos devam se conformar. Interroga os imperativos de cada um e o implica nas consequências de seu desejo. Em seu seminário A lógica da fantasia, em 1967, Lacan afirmou que o inconsciente é a política. Não porque o inconsciente tenha partido, mas porque o mais íntimo de cada um se constitui no campo do Outro, atravessado pelos discursos de seu tempo.

Por isso a psicanálise não pode responder ao discurso da eliminação com uma eliminação de sinal trocado. Não se trata de vencer fora do voto, nem de tratar como inimigos os milhões de brasileiros que pensam diferente. Trata-se de sustentar o espaço onde a diferença continua sendo possível, onde quem perde hoje pode voltar amanhã, onde o adversário continua sendo um interlocutor. Se a psicanálise tem uma responsabilidade política, é a de contribuir para essa manutenção: guardar o intervalo contra a tentação da solução radical, venha ela de onde vier. Uma democracia que suporta as diferenças não elimina os conflitos. Ela se recusa a resolvê-los pela eliminação daqueles que os encarnam. É nesse sentido que proponho pensar a democracia como uma mulher, Antígona, que recusa a segunda morte que Creonte quis impor ao irmão: a destruição do próprio espaço em que as escolhas possam incluir as diferenças.

Quando este texto for lido, os dados ainda estarão turbilhonando no ar. Mallarmé escreveu que um lance de dados jamais abolirá o acaso. Enquanto os dados de 25 de outubro giram, estamos nesse intervalo em que um ato ainda é possível. Diante de um cartaz que só admite o “sim”, o voto é a palavra que ainda pode dizer “não”. Preservar a liberdade dessa escolha ajuda a preservar também a possibilidade de que, depois dela, todos continuem dizendo o que pensam. Ler a imagem antes de obedecer a ela talvez seja, hoje, a contribuição mais simples e mais urgente que a psicanálise tem a oferecer. Entre o lance e a queda, os dados ainda não pertencem a nenhuma das mortes: é nesse tempo suspenso que uma democracia continua a ser escrita.

Marcelo Veras é psicanalista membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, Psiquiatra da UFBA, autor do livro A morte de Si – Cult editora

Sigmund Freud, O mal-estar na civilização (1930). 

Sigmund Freud, Psicologia das massas e análise do eu (1921).

Jacques Lacan, O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959–60).

Jacques Lacan, O Seminário, livro 14: A lógica da fantasia (1966–67), aula de 10 de maio de 1967 (publicado em 2023).

Jacques Lacan, “Ato de fundação” (1964), em Outros escritos.

Jacques Lacan, “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, em Outros escritos.

Jacques-Alain Miller, Extimidade (curso de 1985–86).

Sófocles, Antígona.

Judith Butler, O clamor de Antígona: parentesco entre a vida e a morte (2000).

Albert Camus, O mito de Sísifo (1942).

Claude Lefort, “A questão da democracia”, em Pensando o político: ensaios sobre democracia, revolução e liberdade.

Claude Lefort, A invenção democrática: os limites da dominação totalitária.

Ernst Kantorowicz, Os dois corpos do rei.

Edgar Allan Poe, “O corvo” (1845).

Stéphane Mallarmé, Um lance de dados jamais abolirá o acaso (1897).

Robert Wiene, O gabinete do dr. Caligari (filme, 1920).

Siegfried Kracauer, De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão (1947).

Francis Bacon, Estudo segundo o Retrato do Papa Inocêncio X, de Velázquez (1953) e a série dos papas.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/a-democracia-no-espaco-entre-duas-mortes/